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Franciane participará do mutirão de cirurgia plástica para sanar os danos do escalpelamento, um acidente típico da região Norte que mutila as vítimas. Leia a história dela

Embarcações de ribeirinhos favorecem acidente trágico chamado de escalpelamento
Mariana Castro
Embarcações de ribeirinhos favorecem acidente trágico chamado de escalpelamento

Na casa de palafita, às margens do Rio Amazonas, Franciane da Silva Campos, 34 anos, espera ansiosa o avanço dos ponteiros do relógio. O tic-tac precede o encontro com o bisturi. Ela foi uma das 300 pacientes escaladas para ser atendida no mutirão promovido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica na Amazônia.

Em março, 12 cirurgiões de todo País vão operar as sequelas de um acidente típico da região Norte que mutila mulheres de todas as idades. A tragédia, chamada escalpelamento, se dá quando o cabelo das vítimas enrosca no motor dos barcos, meio de transporte recorrente no local. O couro cabeludo é arrancado. Muitas acabam com o rosto desfigurado.

Franciane, moradora da cidade de Santana, 30 minutos distante de Macapá (Amapá), se acidentou aos cinco anos. Quase três décadas depois, ela terá o rosto reconstruído. Ansiosa, Franciane contou ao iG Saúde a sua história, que está prestes a ganhar um novo capítulo. Diz não lembrar da dor ao ter todos os cabelos e a orelha esquerda arrancados – ela também teve o olho e a testa comprometidos.

“Agora estou perto de esquecer toda a vergonha que já senti.”

Leia a seguir o depoimento de Franciane.

Sei a data e o horário direitinho. Era 5 de julho de 1984, 10h30, sol forte. Sou a filha mais velha e sempre fui agarrada no meu pai. Ele viajava muito, era garimpeiro, e naquele dia eu cismei em ir trabalhar junto na embarcação.

Uma semana de saúde aos ribeirinhos
Fernanda Aranda/ iG São Paulo
Uma semana de saúde aos ribeirinhos

Minhas outras duas irmãs ficaram em casa, brincando no balanço. Minha mãe, que adorava pentear os meus cabelos, longos e quase loiros, prendeu os fios em meio rabo-de-cavalo. Sentei no barco, que tinha o motor no meio, para dar equilíbrio. A margem do Rio Amapari ainda estava próxima, quando pedi o almoço ao papai. Na marmita tinha frango e arroz.

A colher escorregou da minha mão, caiu no solo do barco e eu me abaixei para pegar. O tempo parece que parou naquele minuto. Senti um puxão no cabelo forte e vi muito sangue. Não me lembro da dor, mas temi pela angústia da minha família. Sabia que algo grave tinha acontecido e só pedia calma, calma, calma.

Não sabia que o nome do meu acidente era escalpelamento. Era criança demais e só senti que todo meu cabelo tinha sido arrancado. Não conseguia abrir os olhos, mas escutava minha mãe chorando. Pedi, nem sei porquê, um refrigerante e uma Bíblia. Nem tomei o guaraná que compraram para mim. Mas lembro de escutar o salmo que foi lido a caminho do posto médico. Então, desmaiei.

No total, passei um ano e 40 dias internada no Hospital de Macapá, chamado São Camilo. Fiz oito cirurgias grandes e uma porção de operações menores. Minha mãe, Zenir, diz que os médicos orientaram ela se despedir de mim, pois a morte estava próxima. Eu só sei que quando acordei e me dei conta, estava completamente careca, sem sobrancelha e sem a orelha esquerda. Meu olho esquerdo também não fechava. Aprendi a dormir de olho aberto, o que me dava muita dor de cabeça.

Tinha medo de sair do hospital. Não queria que ninguém me visse. Chorei quando me deram alta. Como seria na vizinhança? Moro em Santana, tudo é muito simples, mas as mulheres têm vaidade. Eu só passava longe do espelho, nem arriscava olhar.

Estava tão convencida da minha solidão que nem percebi o meu vizinho, o Castiel. Acho que porque nessa época, com meus 15 anos, eu só andava de cabeça baixa. Deve ser por isso que eu não percebi os olhares apaixonados dele.

A vida foi passando e a vergonha era uma das minhas duas únicas companhias. A outra era a minha irmã do meio, a Roseane. Ela era a guardiã. Quando os meninos mangavam de mim, ela, com toda paciência do mundo, explicava o acidente. As risadas paravam. Na escola, eu só ficava tranquila quando ela estava comigo.

Não consegui estudar direito. A cabeça, por causa da visão comprometida, doía muito. Lembro bem do Ginásio. As meninas da classe estavam naquela fase de escrever bilhetinhos e cartas de amor para os garotos. Eu tinha certeza de que namorado, ah, isso eu nunca arrumaria. Era feia demais e mesmo os lenços que usava na cabeça, coloridos e bonitos, não me convenciam de que eu merecia o amor de alguém.

Que boba eu! Estava tão convencida da minha solidão que nem percebi o meu vizinho, o Castiel. Acho que porque nessa época, com meus 15 anos, eu só andava de cabeça baixa. Deve ser por isso que eu não percebi os olhares apaixonados dele. Castiel demorou 11 meses para tomar coragem e se declarar. Ele me deu um lenço de presente e convidou para dar uma volta na praça da cidade. Eu não conseguia vencer a vergonha. Demorei semanas para dizer sim. Depois, fui me acostumando com ele.

Acostumei tanto que aos 16 anos, veja só, acabei grávida. Minha saúde ainda não era 100%, eu era muito novinha, mas não teve jeito. Era uma família que se formava e o Castiel propôs casamento para deixar tudo certinho. Eu aceitei, mas ainda tinha medo de perdê-lo. Estava grávida e você sabe como os filhos são feitos.... Apesar disso, meu namorado, quase marido, nunca me viu sem lenço na cabeça.

Nasceu minha filha e eu escolhi o nome Francinelaine. Achei bonito. A menina deu um rumo diferente na minha vida. Voltei a estudar, fiz curso de cozinheira (meu peixe tem fama entre os vizinhos todos) e nessas andanças da vida descobri que o tal escalpelamento era tragédia comum para as mulheres ribeirinhas.

Minha prima, aos 10 anos, foi vítima do mesmo mal. Enfrentou o mesmo drama do que eu. Resolvi que tinha de fazer algo para acabar com isso. Não dava para aceitar que só porque você tem cabelo comprido e anda de barco está fadada a sentir vergonha para sempre.

Franciane, de chapéu, com a irmã e a filha mais velha
Arquivo pessoal
Franciane, de chapéu, com a irmã e a filha mais velha

Foi então que, aos 28 anos, eu conheci a Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia. Minha vida mudou mais uma vez, mas desta vez fui eu quem “nasci”. Lá na associação, as fundadoras me deram uma peruca, bem longa, de fios sintéticos pretos, todos em trancinha. Cobri a careca e me senti bonita. Tomei coragem e, pela primeira vez na vida, tirei uma fotografia. Foi o que permitiu eu tirar minha carteira de identidade. Com 29 anos, eu conquistei meu RG!

Por causa dos cabelos novos, ganhei o apelido de Medusa. Eu me sentia poderosa quando me chamavam assim. Passei a atuar diariamente na associação e lá, conversando com as outras 47 mulheres de histórias tão parecidas, descobrimos que as perucas com fios naturais eram mais confortáveis. Começamos a pedir doações de cabelos para confeccioná-las. Todo mundo ajudou. De Medusa, eu virei camaleão. Hoje alterno o loiro, o ruivo, o longo, o curto, cada dia um visual. Fui aprendendo a sorrir.

Até que em 2010, nós conhecemos um grupo de cirurgiões da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica que propuseram fazer um mutirão de cirurgias plásticas nas vítimas de escalpelamento. Foi uma felicidade só. Reunimos as pacientes e veio gente de todo Norte ser atendida. Tem menina de sete anos e senhora de 60. Tem até dois homens que acabaram mutilados pelo motor do barco. No total, já foram 300 pessoas atendidas no mutirão. Dá o maior orgulho.

Não dava para aceitar que só porque você tem cabelo comprido e anda de barco está fadada a sentir vergonha para sempre.

Os médicos explicaram que a cirurgia plástica é complexa. E por isso ela foi dividida em quatro fases. Em algumas mulheres, é possível reconstruir o couro cabeludo e volta até a nascer o cabelo natural. No meu caso, como a lesão foi muito séria, não deu. Sem problemas. Eu adoro as perucas.

Na primeira plástica do mutirão, eles reconstruíram minha pálpebra e eu voltei a piscar. Na segunda parte, as sobrancelhas foram reconstruídas. Na terceira, eles arrumaram a minha testa, com enxerto. Agora, a última etapa está marcada para março. Eu tô numa felicidade só, porque finalmente a minha orelha será reconstruída.

Sabe, eu até me emociono. Porque eu tenho dois graus e meio de miopia no olho esquerdo e três graus no direito. Com a orelha resgatada, vou poder usar óculos, meu sonho. Talvez assim, eu possa ler sem problema nenhum, meu maior desejo."

Franciane também pensa em um dia escrever a história dessas mulheres que, assim como ela, apesar do sofrimento, perdem a vergonha do escalpelamento e aprendem a ser felizes.

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