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Maurício de Sousa, o criador dos personagens infantis, conta como o crack, a aids, a proteção contra o sol e a inclusão social entraram para os gibis

A inspiração inicial foram os filhos. A baixinha, gorducha e dentuça mais famosa do País, teve origem na filha Mônica. A menina gulosa e magricela foi traçada ao olhar a segunda da prole, chamada Magali. Os integrantes da turma foram nascendo ao longo dos últimos 53 anos até que a ficha caiu: onde estavam os personagens cegos, cadeirantes, dependentes químicos, portadores do vírus HIV e que precisavam de protetor solar para evitar o câncer de pele?

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Foi na observação do cotidiano multifacetado que o desenhista Maurício de Sousa decidiu fazer do tema saúde um dos protagonistas dos seus gibis. Foram tantos pedidos de instituições e tantas demandas sociais que Sousa precisou, há dez anos, criar um Instituto só para dar conta dos projetos que levantam a bandeira do bem-estar e dos hábitos saudáveis.

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Nesta entrevista exclusiva ao iG Saúde , ele explica como decidiu colocar nas histórias assuntos que vão desde doenças raras, que exigem transplantes, passam por problemas simples, como a gripe e chegam ao crack , eleito pelo governo federal como uma das epidemias contemporâneas mais difíceis de serem combatidas. Leia a seguir a entrevista concedida por e-mail.

IG: São 53 anos de história da Turma da Mônica e uma década do Instituto Cultural Maurício de Sousa. Quando o senhor percebeu que os quadrinhos poderiam desempenhar papel em favor da saúde?

Maurício de Sousa: Sempre. Desde o início das nossas publicações há mais de 50 anos, tive a preocupação de passar, no bojo das histórias, ideias de comportamento, ética, cuidados com a saúde, bem temperados com situações alegres, humanas e próximas do leitor. Daí foi um pulo para começarmos a ser procurados por entidades ligadas à saúde, governamentais ou não, para usarmos a força da comunicação dos personagens em diversos tipos de mensagens. Produzimos dezenas de revistas, com grande receptividade, até percebermos a necessidade de um instituto cultural para atender a essa demanda.

iG : Sabemos que alguns personagens da Turma foram inspirados nos seus filhos, como a Mônica e a Magali. E a inspiração dos personagens para campanhas inclusivas e de saúde surgem onde?

Maurício: Das observações e vivências nossas. Todos temos ou tivemos algum amigo, amiga, com algum tipo de deficiência física. Eu, quando criança, brincava e brigava com alguns moleques com essas características. Então, comecei a desenhar, criar personagens e depois de algum tempo percebi que havia uma falha na minha comunicação. Se a Turma da Mônica vivia uma vidinha igual às crianças leitoras, tinha que ter, também, amiguinhos com deficiência. A partir daí, estudamos vida e ambiente em que viviam algumas pessoas, conhecidas ou não, com algum tipo de deficiência física. Fomos buscar exemplos no Herbert Viana (cantor do Paralamas do Sucesso que após sofrer acidente ficou paraplégico), na Dorina Nowill (ativista cega que fundou uma associação inclusiva), nos atletas das paraolimpíadas. Aprendemos muito com eles. Pudemos lançar nosso personagens em um movimento de inclusão que deu grandes frutos.

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iG: Você sonha (ou planeja) com alguma “bandeira” de saúde ainda não explorada que a Turma da Mônica poderia levantar?

Maurício: Não tenho planejamento nessa área. Fazemos o que nos parece bom para a inclusão enquanto mantemos contato com entidades que eventualmente podem nos sugerir novos caminhos (ou personagens).

iG: Quando a proposta é desenhar um personagem para campanhas de saúde, como cadeirantes ou cegos, há alguma preocupação extra com o traço e a forma a serem utilizados?

Maurício: Não. São personagens como outros. Com todos os cuidados especiais que merecem nossos personagens.

iG: O crack, uma das principais preocupações atuais do governo federal, já foi tema dos quadrinhos da Turma da Mônica. Como foi esta experiência? É verdade que ela surgiu quando o senhor foi abordado por um adolescente no Largo do Arouche e retribuiu a abordagem com um gibi?

Maurício: Não me lembro desse episódio, mas realmente já vi os usuários de crack, nas suas áreas de encontro. E me comovi muito. Por isso a revista sobre o tema foi prioridade para nosso estúdio.

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iG: Agora, um último pedido. A Mônica era uma criança “gorducha, baixinha e dentuça”, nas palavras do Cebolinha. Na Turma da Mônica Jovem ela aparece totalmente em forma. As adolescentes querem saber: qual é a dieta da Mônica?

Maurício: Ela, a Magali, o Cebola, o Cascão, todos não seguem exatamente uma dieta. Eles têm é um tipo de comportamento respeitoso para com o corpo e a mente. São jovens saudáveis com boas escolhas.

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