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Isabelly, aos 16 anos, foi a primeira beneficiada por um transplante após a parceria entre o hospital privado de ponta e o Ministério da Saúde

Entre a Santa Casa de Juiz de Fora (Minas Gerais) e um dos hospitais privados de maior excelência de São Paulo, a ambulância que levava Isabelly Cristina da Silva, 16 anos, percorreu 500 quilômetros.

A estrada ligava um hospital público que não tinha nem equipamentos nem médicos capacitados para atender um caso tão grave de problema cardíaco a uma unidade de medicina de ultima geração que o dinheiro da família Silva jamais poderia custear.

“Sorte divina”, define Sandra da Silva sobre o fato da filha Isabelly ser a primeira paciente do Sistema Único de Saúde (SUS) contemplada por um transplante de coração no Hospital Sírio Libanês após a parceria firmada com o Ministério da Saúde.

Pelo acordo assinado em outubro do ano passado, o Sírio oferece 11 leitos de UTI e técnicas de cardiologia de última geração, como corações artificiais e captação de órgãos, aos pacientes graves atendidos em 14 hospitais públicos do País. O fluxo de atendimento é definido pela rede participante que encaminha os doentes mais graves ao hospital particular.


Para o Sírio, é o caminho de manter a condição de filantrópico. Pelo mecanismo, o hospital fica isento de pagar parte dos impostos mediante a oferta de atendimento à população que só tem a carente rede pública como opção. Para o governo federal, é uma forma de desafogar, ainda que minimamente, a fila de espera dos casos mais complexos de insuficiência cardíaca – a principal causa de morte entre os brasileiros. Já para Isabelly e seus familiares, a parceria garantiu a sobrevivência da garota e também a experiência de atestar como usuária o abismo que divide as saúdes privada e gratuita do País.

“Minha filha não teria resistido se continuasse na Santa Casa. Honestamente, eu lamento muito que muitos pacientes não resistam por não terem a mesma sorte divina que nós tivemos”, avalia Sandra, que sustenta duas filhas fazendo bicos como vendedora e com ajuda do salário “magrinho” do marido Irã da Silva, assistente de serviços gerais.

Doutor do Lula

Até junho do ano passado, Isabelly tinha saúde de ferro. Acordou em um domingo com a sensação de cansaço intensa e o coração acelerado, que batia forte a ponto os movimentos ficarem visíveis a olho nu. Foi parar na emergência da Santa Casa de Juiz de Fora, cidade onde mora, medicada e dispensada.

A taquicardia não cessou e, até novembro, foram idas e vindas à mesma unidade, intercaladas por internações, altas, retornos e espera de dias para conseguir um leito e um atendimento adequado. No início de dezembro, o diagnóstico de miocardiopatia dilatada na menina fez a Santa Casa sugerir a remoção da paciente.

“Eles me disseram que não havia equipamento capaz de cuidar da minha filha. Disseram que o melhor seria procurar ajuda em São Paulo. Eu nunca tinha saído da minha cidade, não tenho família fora de Minas. Quando a assistente social disse que ela seria atendida pelo programa de filantropia do Sírio Libanês, fiz as malas e queria partir naquele exato momento”, lembra Sandra.

O caso era urgente, mas Sandra e Isabelly tiveram de esperar 27 horas até a ambulância chegar para fazer o trajeto até a capital paulista.

A primeira viagem da vida daquela família seria tensa, já que a insuficiência cardíaca repentina havia deixado a garota com 27 quilos e sem fôlego mesmo para se alimentar. O destino era um hospital que Sandra “conhecida pela televisão, famoso por atender políticos e artistas”.

“Sabia que lá trabalhava o doutor do Lula”, disse em referência ao cardiologista Roberto Kalil, médico não só do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como de Dilma Rousseff, além de José Serra (PSDB) e outros nomes do meio político e artístico.

Hotel de luxo

Kalil foi o condutor da parceria com o Ministério da Saúde para o atendimento filantrópico de pacientes graves com insuficiência cardíaca. Além da oferta dos leitos à rede pública, os profissionais dos hospitais do SUS cadastrados também são capacitados via telemedicina do Sírio e podem fazer estágios na área na rede privada.

“É uma troca que contribui para melhorar a cardiologia nacional. Contribui para ampliar o número de transplantes no Brasil, hoje muito baixo”, afirmou Kalil.

“A parceria objetiva melhorar a captação de órgãos e também permite que o candidato ao transplante tenha acesso às técnicas de última geração. Por meio delas, ele fica estabilizado e em condições de passar por uma cirurgia deste porte.”

Isabelly chegou ao Sírio no dia 3 de dezembro. Dois dias após ser atendida por Kalil e sua equipe, recebeu a notícia de que precisaria de um transplante cardíaco.

“No dia 26 de dezembro, o coração compatível apareceu e ela fez o transplante. Foi tudo muito mágico. Passamos a festa do Ano Novo no hospital, mas era como se estivéssemos em um hotel de luxo”, brinca Sandra.

Isabelly teve alta na segunda semana de janeiro, voltou para Juiz de Fora, mas ainda vem a São Paulo a cada duas semanas passar pelo atendimento no Sírio.

“Em São Paulo, ficamos em uma casa beneficente de apoio para familiares de pacientes transplantados.”

A menina está em recuperação, chegou aos 35 quilos e não vê a hora de voltar a dançar, “a paixão da minha vida”, diz.

Ela não sabe quanto foi o investimento e quanto economiza em impostos a parceria Sírio/governo federal.

“A vida nova não tem preço”, diz a mãe Sandra.

Ainda assim, Isabelly quis mostrar toda a sua gratidão. Na última visita ao Sírio, levou uma casinha em miniatura, com a palavra ‘obrigada’ escrita acima da porta. Entregou o mimo à médica Ludhmila Hajjar, uma das especialistas que cuidou do seu caso.

“Era todo o meu dinheiro. Quebrei o cofrinho e comprei. Tomara que ela tenha gostado”, disse a primeira paciente do SUS que fez transplante no hospital privado mais famoso de São Paulo.

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