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Estudo mostra que pacientes magros são tratados com mais respeito e empatia em relação aos que estão acima do peso ou obesos

Thinkstock/Getty Images
"Você precisa perder peso": estudo mostra que médicos são menos empáticos com pacientes gordos

É verdade que os médicos são mais gentis com pacientes que não são gordos? Um estudo provocador sugere que sim – que pacientes magros são tratados com mais respeito e empatia que pacientes obesos ou com sobrepeso.

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Para o estudo publicado pela revista médica Obesity, pesquisadores do Johns Hopkins receberam permissão para gravar conversas entre 39 clínicos gerais e mais de 200 pacientes com pressão alta . Embora os pacientes estivessem ali para falar de pressão sanguínea, não do peso, a maioria podia ser considerada obesa ou com sobrepeso. Apenas 28 tinham peso normal, com índice de massa corporal  (IMC) abaixo de 25. Entre os demais pacientes, 120 eram obesos (com IMC maior que 30) e 60 tinham sobrepeso (IMC entre 25 e 30).

Na maioria das vezes, os pacientes recebiam mais ou menos o mesmo tratamento; sem grandes diferenças no tempo de consulta ou no tipo de assunto abordado. Mas quando os pesquisadores analisaram as transcrições das consultas, havia uma grande diferença: os médicos pareciam ser mais gentis com pacientes com o peso normal, demonstrando mais empatia e cuidado durante a conversa. Embora o estudo tenha sido relativamente pequeno, as descobertas são estatisticamente relevantes.

“Não que os médicos fossem exageradamente negativos ou grosseiros”, afirmou a principal autora do estudo, Kimberly A. Gudzune, professora assistente de clínica geral na Faculdade de Medicina Johns Hopkins.

“Eles simplesmente não estavam envolvidos a ponto de construírem um relacionamento com os pacientes, ou gerarem uma conexão emocional.”

Em diálogos com pacientes com peso normal, os médicos faziam comentários que demonstravam preocupação – por exemplo, ‘Que bom que está se sentido melhor’ – para uma paciente que sofria com ondas de calor. Quando outra paciente com peso normal teve dificuldades para marcar uma consulta com um especialista, seu médico compartilhou sua preocupação: ‘Concordo’, afirmou o médico, ‘é frustrante quando isso acontece’.

Outra paciente lamentava o fato de ter ficado com uma cicatriz na perna após ser submetida a uma cirurgia e também reclamava da necessidade de usar sapatos que achava feios.

“Você passou por muita coisa”, afirmou o médico, fazendo mais elogios para animá-la.

“Suas pernas continuam lindas e sapatos grandes ainda estão na moda. Compre uma roupa bem bonita para a primavera, isso sempre ajuda a melhorar o humor.”

Embora essas expressões de preocupação e empatia não sejam marcantes por si só, o mais surpreendente foi a ausência delas em conversas com pacientes obesos ou com sobrepeso.

Vale lembrar que afirmações desse tipo não são insignificantes. Estudos mostram que pacientes têm muito mais chance de seguir os conselhos do médico e obter melhores resultados no tratamento quando acreditam que o profissional sente empatia por sua situação.

“Quando a empatia do médico é maior, os pacientes têm mais chances de relatar satisfação com o tratamento e de aderir às recomendações médicas”, afirmou Gudzune.

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“Há evidências que mostram que, após consultas com maior empatia, os pacientes apresentam melhores resultados clínicos, de forma que pacientes com diabetes controlam melhor o açúcar do sangue ou o colesterol.”

David L. Katz, diretor do Centro de Pesquisa em Prevenção da Universidade de Yale-Griffin, afirma que pacientes com sobrepeso frequentemente reclamam que os médicos os julgam pelo excesso de peso, deixando de lado outras preocupações com a saúde.

“Você chega com dor de cabeça e o médico diz: ‘Você precisa perder peso’. Está com a garganta doendo e tudo o que o médico diz é ‘Você realmente precisa perder peso’”, afirmou.

“Esses pacientes sentem que o médico não os ajuda e ainda os insulta, e por isso deixam de consultá-lo.”

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Ao lidarem com pacientes com sobrepeso, acrescentou Katz, os médicos frequentemente mostram os mesmos preconceitos dos leigos. O problema pode crescer ainda mais pelo fato de que esses profissionais são treinados para lidar com problemas médicos imediatos que têm soluções específicas, tais como uma pílula para diminuir a pressão sanguínea, ou um tratamento emergencial contra um ataque cardíaco . Contudo, a obesidade é um problema muito mais complexo e difícil de resolver, o que pode ser frustrante para os médicos.

“Quando não dá pra consertar o que está quebrado, começamos a agir mal”, afirmou.

Katz contou que sua mãe, que era obesa, estava tão cansada dos comentários negativos dos médicos a respeito de seu peso que parou de ir ao hospital, mesmo depois de desenvolver um câncer de mama . Quando ela finalmente recebeu o tratamento, o câncer estava em estágio avançado e ela morreu antes de completar 60 anos.

“Sempre que ela ia ao médico por qualquer razão, eles apontavam o dedo e começavam a falar do peso”, afirmou Katz.

“Precisamos entender que há muito em jogo.”

A solução, segundo ele, é um melhor treinamento para que os estudantes de medicina e médicos compreendam a natureza complexa da obesidade, bem como seus próprios preconceitos (muitas vezes inconscientes).

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A Universidade de Yale, por exemplo, oferece um curso de formação continuada para que médicos aprendam a ter mais compaixão e a oferecer conselhos mais eficazes aos pacientes.

“Acho que muitos desses profissionais têm compaixão e não percebem que isso está acontecendo”, afirmou Katz.

“A antipatia pela obesidade está profundamente arraigada em nossa cultura. Deveríamos esperar mais dos médicos e treiná-los melhor.”

* Por Tara Parker-Pope

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