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Pesquisadores creem que os resultados esperados dos remédios em estudo já não são tão bons quanto eram duas décadas atrás

NYT

As novas drogas provenientes de ensaios clínicos parecem ser menos impressionantes do que aquelas desenvolvidas nas décadas passadas, constatou um novo estudo.

Comparando mais de 300 pesquisas feitas desde 1966, os cientistas descobriram que os medicamentos em desenvolvimento atualmente são menos propensos a realmente superar os placebos – pílulas de açúcar ou de outras substâncias inertes, parâmetro utilizado para testar a eficácia das novas drogas.

Leia: Entenda o que é um placebo

De 1966 a 1990, as drogas em estudo tinham cerca de quatro vezes mais chances de alcançar um determinado resultado do que um placebo. Porém, nos testes realizados desde 2001, houve uma redução para apenas 36% de chances de mostrar o efeito desejado em comparação com os os placebos, relataram os pesquisadores na edição deste mês da revista Health Affairs.

O estudo sugere que o efeito placebo pode estar influenciando na eficácia dos novos medicamentos
Thinkstock/Getty Images
O estudo sugere que o efeito placebo pode estar influenciando na eficácia dos novos medicamentos

As razões para esse "declínio preocupante" não são claras, disse Mark Olfson, professor de psiquiatria clínica na Universidade de Columbia em Nova York (EUA). Mas é possível que "a maior parte das frutas penduradas já tenham sido colhidas. Em outras palavras, muitos dos tratamentos eficazes, mas fáceis de descobrir, já foram encontrados”, disse ele.

Outra possibilidade, porém, é que as drogas mais antigas não são tão impressionantes quanto pareciam na época em que foram lançadas.

Os testes feitos atualmente geralmente são mais rigorosos, portanto podem estar produzindo menos “resultados sensacionais”, em comparação com os estudos clínicos mais antigos, disse Olfson.

Um pesquisador que não participou da pesquisa disse que os resultados são interessantes, mas "levantam mais perguntas do que respostas”.

"O estudo não foi projetado para nos dizer as causas", disse Ted Kaptchuk, professor associado de medicina na Harvard Medical School e diretor do programa da universidade em estudos com placebo.

"Mas será que as novas drogas em desenvolvimento não são tão boas?", perguntou Kaptchuk. Não está claro. Em parte porque os voluntários parecem estar mais propensos a sentirem os resultados do placebo em comparação com os participantes de estudos feitos 20 ou 30 anos atrás. Os pesquisadores batizaram o fenômeno "efeito placebo", Kaptchuk disse, mas ninguém sabe como conduzi-lo.

Uma teoria é que hoje as pessoas que tomam um antidepressivo em um estudo clínico, por exemplo, podem já tomar o remédio acreditando piamente no efeito dele – enquanto pessoas nos testes em 1900 não tinham essa esperança.

Os pacientes que se submetem a um ensaio clínico não sabem se estão recebendo a droga real ou um placebo. Então, se alguém que estiver tomando um placebo realmente acreditar que está recebendo a droga real, isso pode afetar a forma como o organismo vai responder ao medicamento.

Claro, isso não quer dizer que medicamentos eficazes não estão mais surgindo, disse Jean Slutsky, diretor do Centro de Resultados e Evidências, parte da Agência de Pesquisa de Saúde e Qualidade, órgão governamental que financiou o estudo.

"Com certeza houve importantes avanços nos tratamentos nos últimos anos, e nós devemos esperar que isso continue.”

Muitos dos medicamentos amplamente usados hoje em dia – como as estatinas para baixar o colesterol e alguns antidepressivos modernos – foram desenvolvidos na década de 80 e 90. Estas duas décadas também foram anos de algumas descobertas médicas inovadoras, como os inibidores da protease que transformaram a infecção pelo HIV em uma doença crônica controlável para muitos.

Outros medicamentos mais vendidos atualmente também surgiram nos últimos 10 anos, inclusive o aripiprazol para esquizofrenia , o esomeprazol para refluxo e o antidepressivo e analgésico cloridrato de duloxetina.

“Também não está claro, a partir dos resultados atuais do estudo, se o declínio nos efeitos das drogas só existe em determinadas áreas da medicina – e não em outras” disse Olfson.

Para ele, o número de estudos feitos em diferentes especialidades médicas foi muito pequeno para poder fazer uma comparação. Por exemplo, espera-se que apenas uma pequena porcentagem dos 315 testes de pesquisas de drogas contra o câncer, um campo em que os pesquisadores estão atualmente desenvolvendo drogas “alvo” de alta tecnologia, sejam mais eficazes e menos tóxicas do que as drogas usadas anteriormente nas quimioterapias.

“Ainda assim os resultados sugerem que os pesquisadores precisam ajustar seu foco”, disse Olfson.

Leia mais: Medicamentos contra o câncer estão ficando mais precisos e menos tóxicos

Em vez de apostar tudo em ensaios clínicos tradicionais, em busca do próximo ‘blockbuster’ na área farmacêutica, disse ele, os pesquisadores também deveriam fazer mais dos chamados estudos de eficácia comparativa, que olham como os tratamentos já existentes se comportam no mundo real.

Kaptchuk disse que os resultados ressaltam a necessidade de compreender melhor o efeito placebo, incluindo como ele pode estar mudando a performance das drogas nos testes clínicos. Em um nível mais amplo os resultados mostram como a pesquisa científica é complicada, segundo ele.

"As pessoas tendem a pensar que você faz um experimento científico e em seguida já tem a certeza", disse Kaptchuk. "Mas é muito mais complexo do que isso."

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