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No México e Estados Unidos proliferam clínicas que promovem tratamentos à base de células-tronco sem aprovação de órgãos reguladores

Maggie Alejos, que sofre de enfisema crônico, e seu marido: tratamento com células-tronco em Tijuana
The New York Times
Maggie Alejos, que sofre de enfisema crônico, e seu marido: tratamento com células-tronco em Tijuana

Em junho, Maggie Alejos viajou de St. Anne, Illinois, a Tijuana, no México, com o marido, a filha e um cheque de 13.500 dólares a pagar ao Instituto de Medicina Regenerativa.

Magérrima, com um tubo de oxigênio ancorado acima do lábio superior, Alejos, de 65 anos, uma enfermeira aposentada do exército, enfrentava um enfisema há mais de 10 anos. Quando chegou perto de conseguir um transplante de pulmão que os médicos haviam providenciado para a cirurgia, descobriu que o pulmão do doador não era adequado para ela.

Em um hospital de Tijuana, os médicos filiados ao instituto extraíram cerca de sete gramas de gordura de suas coxas, com a esperança de colher cerca de 130 milhões de células-tronco e implantá-las nos pulmões de Alejos, que estavam falhando.

Na internet – onde Alejos ficou sabendo do instituto Tijuana – as células-tronco adultas são promovidas como uma cura para todas as mazelas, desde flacidez da pele até lesões na medula cervical.

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Superficialmente, essa alegação é plausível. Os cientistas descobriram que a gordura, a medula óssea e outras partes do corpo contêm células estaminais, células em desenvolvimento que podem rejuvenescer, pelo menos no tecido em que são naturalmente encontradas.

Entretanto, ainda não há provas de que essas células podem se regenerar independentemente de onde forem colocadas, ou das condições em que isso possa ocorrer. Além disso, dúvidas quanto à segurança continuam sem resposta.

Esses fatos não parecem ter desacelerado o surgimento de uma indústria de abastecimento internacional para clientes que têm como pagar dezenas de milhares de dólares para ter uma chance de obter um milagre pessoal. (Alguns profissionais estrangeiros proporcionam variações criativas sobre o tema, como células de tubarões e ovelhas).

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Também nos Estados Unidos há fornecedores que podem ir além dos limites. Em julho, por exemplo, um ex-patologista da Universidade Médica da Carolina do Sul se declarou culpado por ter processado e transportado células-tronco de forma ilegal para tratamento sem a aprovação da universidade nem da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA).

O número de clínicas e de produtos chegou a tal ponto que os cientistas temem repercussões negativas para o trabalho que eles próprios realizam. O Dr. Hesham Sadek, do Centro Médico da Universidade do Sudoeste do Texas, em Dallas, que está estudando a regeneração do músculo cardíaco, teme que o marketing excessivo tenha dificultado que os pacientes distingam a ciência da fraude, assim como tudo que reside no espectro entre elas.

"Isso realmente tem o potencial de minar a legitimidade do campo como um todo", disse ele.

Experimento ou tratamento?
Apesar de Tijuana ter aproximadamente 20 clínicas que oferecem tratamento com células-tronco adultas, o Dr. Javier Lopez, fundador do Instituto de Medicina Regenerativa, diz que a dele se tornou "a empresa cartaz para derrubar. "

Nascido e educado em Tijuana, ele morou e trabalhou do outro lado da fronteira, em San Diego, por mais de 30 anos, principalmente como administrador de assistência médica. Ele se interessou pelas células-tronco depois de acompanhar um amigo médico em uma conferência em Palm Springs, na Califórnia, em 2008.

"Foi revelador", disse ele. "Pensei imediatamente: 'Este é o futuro da medicina, e eu quero fazer parte disso."

Ele diz que dirigir o instituto dentro dos padrões aceitos nos ensaios clínicos: pacientes assinam formulários de consentimento reconhecendo que o tratamento é experimental. Os estudos são registrados na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.

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Ser aceito para o tratamento não depende só de dinheiro. Os protocolos e procedimentos são aprovados pelo Conselho de Revisão Institucional (IRB) no Hospital Angeles Tijuana, e são administrados pelos médicos do hospital. "O foco do nosso estudo, desde o primeiro dia, tem sido a segurança", disse Lopez.

Ainda assim, os céticos norte-americanos não estão convencidos. Leigh Turner, bioeticista da Universidade de Minnesota, diz que o Instituto de Medicina Regenerativa torna pouco clara a diferença entre o ensaio e o tratamento.

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O formulário de consentimento dos pacientes "não passaria pela IRB americana competente", disse Turner, e os depoimentos no site do instituto enfatizam claramente os resultados.

Além disso, estudar pacientes que pagam por um atendimento prejudica a validade científica dos ensaios, disse Turner. A amostra do paciente se limita àqueles que têm condições de viajar, e seu investimento financeiro pode ampliar um efeito placebo já forte.

Lopez diz que os cientistas do México não dispõem de um apoio de pesquisa do governo semelhante ao existe nos Estados Unidos, deixando estabelecimentos como o seu sem opção a não ser cobrar dos pacientes.

Ele concorda que muitos fornecedores de células-tronco são duvidosos, e diz que trabalha juntamente com as autoridades mexicanas em uma tentativa de estabelecer padrões uniformes. "Estou muito orgulhoso do que estamos fazendo", disse a respeito seu próprio instituto, e acrescentou: "Fico chateado quando as pessoas começam a falar besteira sobre o que é feito ao sul da fronteira com os Estados Unidos."

Uma área cinzenta
Nos Estados Unidos, também é fácil realizar negócios que escapam à supervisão do governo, disse o Dr. George Q. Daley, que estuda o uso de células-tronco para tratar doenças do sangue na Escola de Medicina de Harvard. Quando se fecha uma operação clandestina, ele continuou, logo surgem outras aleatoriamente.

Mesmo formas questionáveis de publicidade não necessariamente prejudicam um negócio. A Regnocyte, uma empresa da Flórida, publicou em seu site uma matéria pouco lisonjeira da CNN intitulada "cobertura especial".

Se o negócio das células-tronco continuar a florescer sem um controle adequado, Daley e outros temem que o avanço das pesquisas seja prejudicado. Os ensaios clínicos dependem de pacientes que estão dispostos a passar por experiências, mesmo sabendo que podem receber um placebo, enquanto clínicas concorrentes oferecem o que pretensamente é o tratamento correto. Além disso, pacientes que já se submeteram a um tratamento com células-tronco podem ser inelegíveis para ensaios.

Além disso, se muitos pacientes experimentarem células-tronco sem sucesso, talvez o público passe a ver todo esse campo como um fracasso, disse Sadek, o cientista de Dallas especializado em células cardíacas. Muitos dos comentários a respeito do seu último estudo, publicado na revista Nature, "foram céticos e indiferentes", continuou ele. "Um deles dizia: 'Eu fiz o tratamento com células-tronco e não aconteceu nada.' Se o público perder a fé na medicina regenerativa em geral, isso pode abalar o financiamento".

A falta de dados
Além dos depoimentos on-line, há poucas evidências para indicar se os tratamentos disponíveis com células-tronco adultas estão funcionando. Paul Knoepfler, pesquisador de células-tronco na Universidade da Califórnia, em Davis, diz que a falta de dados é vexatória.

"Não há absolutamente nenhuma razão legítima para essas clínicas não estarem publicando os dados que obtêm", escreveu ele neste ano em seu blog sobre células-tronco. "No entanto, eles quase nunca fazem isso."

As empresas de células-tronco dizem que têm outras prioridades. "Eu não estou interessado em fazer uma série de pesquisas apenas para fins de publicação", disse Maynard A. Howe, chefe-executivo da Stemedica Cell Technologies em San Diego, que está desenvolvendo um medicamento feito a partir de células-tronco doadas. Howe e seu irmão Roger fundaram a empresa em 2005, depois de uma cunhada se submeter a um tratamento com células-tronco na Rússia por conta de uma lesão na medula cervical.

Howe diz que a sua empresa publica apenas os dados que bastam para atender às exigências do FDA, mas que prefere que seus cientistas dediquem seu tempo a fazer com que um produto chegue ao mercado.

Ele também defende a prática de estudos estrangeiros, em grande parte por razões econômicas. Fora dos Estados Unidos, disse ele, "Podemos fazer uma tomografia por 500 dólares", bem menos do que costuma ser cobrado nos Estados Unidos. "Por que não faríamos um ensaio clínico no exterior?"

Já Lopez diz que está tentando publicar os dados dos 125 pacientes que tratou até agora, mas conta que enfrenta dificuldades. "Ninguém quer falar conosco porque somos de Tijuana", disse ele a respeito de revistas médicas. Ele conseguiu apenas fazer com que uma descrição de caso fosse aceita para publicação.

Então, por enquanto, ele não tem muito a mostrar em termos de ciência. Ele acredita nas células-tronco - e acredita que ele e seus críticos têm pontos em comum. O desafio dos cientistas é promover a promessa das células-tronco tanto com entusiasmo quanto com moderação. A linha que divide as duas pode ser tênue.

"Eu entendo como é difícil - quantos anos e às vezes décadas é preciso antes de descobrir um novo tratamento", disse Daley, de Harvard. "Nós estamos muito entusiasmados com o potencial do tratamento com células-tronco".

"Dito isto, elas não são agentes mágicos que funcionam circulando pelo corpo e consertando as coisas. É frustrante assistir a outras pessoas que, mesmo bem intencionadas, não estão servindo ao bem de seus pacientes."

Nesta semana, a Sociedade Internacional de Pesquisa de Células-Tronco vai divulgar uma declaração descrevendo a utilização de célula-tronco fora de ambientes científicos como "uma ameaça ao bem-estar do paciente, à autonomia do paciente e ao processo científico", segundo o seu presidente de políticas públicas, Jonathan Kimmelman, bioeticista da Universidade McGill.

Trata-se do mesmo grupo que certa vez tentou providenciar um guia online de clínicas de células-tronco, mas o periódico Nature informou que o esforço foi abruptamente abandonado sob a ameaça de ações judiciais.

Alejos diz que aceita a incerteza de sua escolha. Ela veio para Tijuana porque nada mais funcionou. Após o transplante de pulmão ser cancelado, ela recorreu ao Google e encontrou, por toda a Ásia e América Latina, médicos que trabalham com células-tronco e estavam dispostos a tratá-la. Perto de casa, o México pareceu uma opção confortável.

Ela estava bem ciente quanto à controvérsia de viajar para passar por tratamentos com células-tronco. Mesmo a maior parte de sua família não sabia onde ela estava indo.

Já de volta a sua casa em St. Anne alguns dias após o procedimento, ela sofreu um breve surto de pneumonia durante o verão, mas geralmente não se sente melhor ou pior do que antes do tratamento. Ela sabe que não vai ser curada. Seus sonhos são modestos, como não precisar sair com um balão de oxigênio para ir ao cinema.

"Eu fui enfermeira do Exército por 30 anos", disse Alejos. "Sei que não existem milagres no mundo da medicina."

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