Tamanho do texto

No dia mundial de saúde mental, OMS afirma que número de pacientes com a doença deve triplicar até 2050; mal atinge 6% dos idosos, só no Brasil são 1,2 milhão de casos

Há seis anos, Angelo Scatigno, marido de Júlia, foi diagnosticado com Alzheimer
Arquivo pessoal/ Eduardo Scatigno
Há seis anos, Angelo Scatigno, marido de Júlia, foi diagnosticado com Alzheimer

Mãe e filha vão quase que diariamente visitar o homem de 86 anos que já não fala mais, pouco demonstra lembrar das coisas e quando olha, às vezes, parece que não está vendo o que se passa na sua frente. Elas mostram fotos e objetos, esperando por um sorriso ou um suspiro que reflita, lá no fundo, alguma recordação. Angelo Scatigno vive há três anos numa clínica especializada para pacientes com Alzheimer, no bairro do Belenzinho, em São Paulo. A doença foi diagnosticada quando ele tinha 80 anos, mas nunca ninguém contou isto para ele.

Conheça a nova home do Último Segundo

“Não foi de uma hora para outra. Meu pai começou a falar as mesmas coisas repetidas vezes, depois se lembrava de fatos muito antigos e esquecia rapidamente de coisas recentes. Teve também a época que ele ficou mais agressivo, desconfiava da minha mãe, checava várias vezes se o portão estava fechado”, conta Eduardo Scatigno, de 45 anos.

Angelo, como todo bom comerciante era do tipo que falava com todo mundo. De acordo com o filho, nunca bebeu, fumou e chegou inclusive a jogar futebol profissional pelo Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. Até os 80 anos, fazia caminhadas diárias. “É triste. É sofrido. Ele era falante, religioso. Fisicamente ele está 100%. Vai morrer com 150 anos assim. Fazer o que?”, lamenta Eduardo.

Leia mais:  Descoberta de substância química pode levar à cura do mal de Alzheimer

Angelo é um dos 1,2 milhão de pessoas no Brasil com Alzheimer, doença neurodegenerativa que atinge, principalmente, idosos e provoca de forma gradual a perda de funções cognitivas como a memória, orientação, atenção e linguagem. De acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) 6% dos idosos desenvolveram a doença que não tem cura. A tendência é que este número cresça.

“Com o aumento da população de idosos e a maior detecção do Alzheimer, este número certamente vai aumentar”, disse ao iG o geriatra Paulo Camiz, do Hospital das Clínicas. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas com a doença, que hoje no mundo é de 15 milhões, irá triplicar até 2050.

Em breve, o mundo terá uma população com maior número de idosos que de crianças. A preocupação com políticas públicas para tratamento e internações de pacientes com é tamanha que hoje, dia mundial de saúde mental, tem como tema justamente o idoso. Entre as demências que mais acometem os idosos, o Alzheimer está em primeiro lugar no ranking.

Origem do esquecimento
Ainda não se sabe quais são as causas do Alzheimer, sabe-se apenas que há um componente genético e que nestes casos a doença tende a se manifestar antes dos 60 anos. Fatores como a prática de atividade física, atividade intelectual são limitadores da doença. “Nota-se que quanto maior o nível de escolaridade, mais tardiamente a doença se manifesta”, diz Camiz.

Os outros dois irmãos de Angelo também tiveram Alzheimer. Isso somado aos esquecimentos do ex-comerciante fez com que os filhos e a esposa não fossem pegos completamente de surpresa quando o geriatra deu a notícia terrível. Angelo precisava de remédios para uma doença que eles já conheciam bem e sabiam o quanto limitaria a vida.

“A família sofre mais que o portador da doença. Meus pais são casados há 62 anos. Dá para imaginar? Ele ficou na casa dele até o momento que vimos que não dava mais para a minha mãe cuidar sozinha dele. Na clínica ele tem uma atenção 24 horas por dia”, disse, Eduardo.

Ele e a irmã convivem com outro problema: o medo real de no futuro passar pelas mesmas limitações que o pai está passando. “A gente se preocupa. O negócio é não deixar de ler, fazer palavra cruzada. Essas coisas”.

Paulo Camiz afirma que a estratégia de Eduardo é boa e que cada vez mais vai se ouvir falar em check-up cognitivo. “Cada vez mais vamos trabalhar o cérebro como um músculo, com atividades para fortalecê-lo”.

No entanto, o geriatra alerta que não adianta trabalhar apenas uma das várias funções cognitivas. “Se a pessoa tem facilidade para palavras-cruzadas e dificuldade para cálculo e só trabalha palavras cruzadas, não vai adiantar nada”, disse.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.