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Incidência mundial do Transtorno de Personalidade Borderline chega a 5% da população e representa 20% dos atendimentos nos centros psiquiátricos

Transtorno se caracteriza por vazio, dependência emocional profunda, comportamento manipulador e automutilações
Thinkstock/Getty Images
Transtorno se caracteriza por vazio, dependência emocional profunda, comportamento manipulador e automutilações


Juliana* (nome fictício) começou a se ferir aos seis anos de idade. Se mordia e arrancava os próprios fios de cabelo. Aos 12, vieram as automutilações: começou a se cortar. Hoje, aos 18 anos, se sente confusa e já tentou tirar a própria vida. Um vazio emocional muito grande a invade com frequência. A garota também tem medo de ser abandonada e sabe o porquê de todos esses sentimentos: ela tem Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).

Esse transtorno acomete de 2% a 5% da população mundial - para efeitos comparativos, seria a metade do número de canhotos, que somam 10% - e é responsável por cerca de 20% dos atendimentos nos centros psiquiátricos, segundo o psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, Rodrigo Fonseca Martins Leite.

Segundo Ana Cristina Fraia, psicóloga e coordenadora terapêutica da Clínica Maia Prime, o transtorno costuma aparecer na adolescência e é de difícil diagnóstico. Mas, se tratado, tem controle e tendência a diminuir depois dos 35 anos de idade.O tratamento de maior eficácia é a terapia cognitivo-comportamental associada à medicações para controlar a ansiedade e agressividade.

Leite explica que o transtorno se caracteriza por esse abismo emocional muito grande e que o borderline tem dificuldade no controle de impulsos, corre maior risco de se envolver em brigas e em relacionamentos tempestuosos. “Os borders têm uma expectativa pouco realista do mundo. Sabemos que podemos esperar até certo ponto de uma pessoa, os borders não, querem todo o cuidado e apoio".

Além disso, diz Leite, eles são mais suscetíveis ao uso de drogas e álcool. “Podem também tentar o suicídio e se agredir quando estão irritados.”

É importante dizer que o transtorno tem diferentes graus de severidade. "As pessoas podem ter algum traço border e isso não significa que têm o transtorno. O caso da Juliana é bem extremo, com muitos sintomas"

"Quando vejo que estou ficando ruim, imploro para minha mãe me levar ao psiquiatra"

Aos 14 anos Juliana tentou suicídio e passou uma noite em um hospital psiquiátrico. “Como era muito nova, minha mãe preferiu que não fosse internada", lembra. Nessa época, começou a fazer um tratamento direcionado que a ajudou a perceber quando algo está errado. “Até hoje, quando vejo que estou ficando ruim, imploro para minha mãe me levar ao psiquiatra. Só neste ano, fui internada três vezes”, conta ela, que toma medicação diariamente.

Juliana define o que sente como uma confusão ou um vazio emocional. “Sinto muita falta de ter pessoas junto comigo. Brigo com meus amigos e digo que eles não me dão atenção".

Um traço tipicamente border, segundo os especialistas. “Eles têm medo do abandono e não conseguem tolerar frustrações”, explica Leite. 

Hoje com 52 quilos, Juliana chegou a pesar 46. Com 1,68 de altura, emagreceu 16 quilos em apenas dois meses. “Cheguei a ficar 11 dias sem comer. Acho que tenho tendência para a anorexia. Quando eu tinha 12 anos, tive uma úlcera hemorrágica porque comia apenas uma vez a cada três dias e só bebia coca-cola com bala ardida”.

Seu dependência das drogas - ela usava maconha e cocaína - ela transferiu par aos remédios. "Às vezes o médico me manda tomar 2mg, eu tomo 10mg. É bom para fugir da realidade".

E, mesmo consciente dos sintomas do transtorno de bordeline, ela ainda se machuca. “Aos 12, comecei a me cortar sempre que me sentia confusa. Quando via a cicatriz, ficava com raiva dela e me cortava ainda mais. Hoje, parei de me cortar, mas me queimo com vela”.

Quando questionada sobre a dor dos cortes ou da queimadura, ela explica que não sente nada. “Não sinto dor na hora, eu sinto só alívio. A dor só vem depois que o surto passou, que pode durar horas ou até dois dias”, conta.

Leite explica que a necessidade do border em se mutilar é a de transferir uma dor interna para uma lesão física, sentindo um alívio na sensação de vazio. “Também pode acontecer para chamar a atenção e causar impacto, como chocar e agredir outras pessoas”, explica.

Depois que sua melhor amiga – também borderline - cometeu suicídio, Juliana passou por um período negro em que desacreditou do tratamento. De volta ao consultório, ela conta que hoje se sente inspirada a tentar se controlar e não se machucar. “Vou fazer isso pela Daniela*(nome fictício). Tudo o que faço hoje é pela Daniela”.

Alguns sinais do transtorno

- Dificuldade no controle de impulsos e riscos de se envolver em brigas

- Relacionamentos tempestuosos

- Vício em álcool e em drogas

- Tentativas de suicídio e de autoagressão quando irritadas

- Hipersensibilidade

- Não reconhecer as próprias falhas

- Compras descontroladas

- Transtornos alimentares

- Projetos pessoais caóticos

- Dúvida em relação à própria identidade sexual

- Dificuldade para terminar um curso ou definir qual carreira seguir

- Depressão e ansiedade

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas

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