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Além das questões emocionais, tratamento também tem consequências fisiológicas; retomada do prazer sexual é importante para qualidade de vida do paciente

Logo no começo do tratamento era um misto de todos os medos. Medo de morrer, de retirar o seio, do tumor de oito centímetros. Medo de não suportar. Também existia o medo do tratamento, de ficar feia e que o casamento de 27 anos fosse ralo abaixo. A urgência era garantir a vida que escorria pelo lado direito do corpo. O coração, mais para o lado esquerdo, precisava de acalanto e o sexo precisava esperar.

“Durante o tratamento, a minha vida sexual ficou espaçada. O corpo não colabora. A cabeça até está boa. Há libido, mas com a quimioterapia não há o que resista. Quem vai querer transar com todo aquele enjoo?", questiona a enfermeira Maria José Silva, de 49 anos. Ela iniciou a quimioterapia em novembro de 2012 e em maio de 2013 retirou a mama direita. "Sentia dor no seio, vergonha do meu corpo. Como poderia cobrar que o meu marido tivesse desejo por mim, se nem eu queria me olhar? Fui mutilada e a mama é o carro chefe do sexo, não é?”

Maria José Silva, 49 anos, teve câncer de mama em 2012
Arquivo pessoal
Maria José Silva, 49 anos, teve câncer de mama em 2012

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O relato de Maria José não é exceção e nem resultado de qualquer negligência médica ou coisa similar. Além das questões emocionais que impactam na retomada da vida sexual, o tratamento contra o câncer também tem consequências fisiológicas. Principalmente quando os tumores estavam localizados na mama, ovários e útero e, no caso dos homens, na próstata. 

“A quimioterapia traz alterações hormonais, muitas vezes ocorre a secura vaginal", explica a psicóloga Daniela Barsotti Santos, da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto.

O oncologista clínico José Fernando do Prado Moura do IMIP, no Recife, explica que cerca de 5% dos pacientes curados do câncer de próstata apresentam problemas de ereção. “Há a libido, mas a radioterapia pode ocasionar alterações no nervo que não transmitem a libido para o pênis", explica.

Moura também foi um dos pesquisadores de um estudo sobre a vida sexual de pacientes que tiveram câncer de colo de útero . “Este câncer tem uma particularidade, pois ocorre na parte final da vagina. A paciente percebe que algo está errado por causa de sangramentos e de dor no ato sexual. Outra coisa é que ele causado pelo vírus HPV que se transmite sexualmente”, diz. O câncer de colo de útero tem curabilidade de 60 a 70%.

O oncologista explica que quando a radioterapia é irradiada na pelve da mulher, atinge também a parte saudável da vagina. ”Ocorre o ressecamento e o estreitamento do órgão, o que causa dor no ato sexual. Além disso, o ovário diminui as funções do estrógeno e da progesterona, antecipando, em muitos casos, a menopausa”, disse.

Ele explica que tratamento de reposição hormonal recupera a atividade dos ovários. Métodos de dilatação ou o ato sexual durante o período de tratamento de radioterapia são indicados para evitar o estreitamento da vagina.

O bom pode voltar a ser ótimo

Apesar das consequências fisiológicas do tratamento, boa parte dos pacientes conseguem reaver o prazer da vida sexual. Uma retomada que depende muito do estímulo do parceiro.

O marido de Maria José é um bom  exemplo. Durante o tratamento - tempo em que ela sentia muita dor - ele fazia os curativos, além de cuidar da casa e da filha de nove anos. "A estrutura familiar e o amor que ele me deu foi o que mais me ajudou a superar esta fase. Minha vida sexual está voltando. Antes era dia sim e dia também. Hoje está 70% do que era”, disse. Atualmente Maria José fez a primeira parte da cirurgia de reconstituição, mas ainda falta o mamilo e a auréola. 

O projeto Sexualidade e Cancêr de Mama entrevistou 139 mulheres afetadas pelo câncer de mama e mostrou que, pelo menos um ano após o diagnóstico, quase metade mantinha vida sexual ativa . “Muitas mulheres relataram que a vida sexual tinha acabado após o câncer, mas outras disseram que tinha até melhorado. O medo de ser abandonada pelo parceiro era algo presente, mesmo que por apenas um período, em quase todas elas”, diz a psicóloga Daniela Barsotti Santos, que fez parte da equipe pesquisadora. 

De acordo com Daniela, foi possível notar a prevalência de duas características entre as mulheres que reconquistaram a vida sexual. “Tem a questão do amparo afetivo e também de como a mulher vê o próprio corpo. É uma fase de autoconhecimento e reflexão", disse. 

E, apesar de algumas pessoas acreditarem que sobreviver ao câncer já é sorte suficiente - não se importam de não ter mais prazer sexual -, os médicos discordam. O sucesso do tratamento depende da qualidade de vida pós câncer, e a satisfação sexual é um dos fatores que a compõem. 

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