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Aconselhamento atual de substituir gorduras saturadas na dieta estaria baseado em dados falhos da década de 1950

James DiNicolantonio é autor do editorial publicado no periódico científico Open Heart
Arquivo pessoal
James DiNicolantonio é autor do editorial publicado no periódico científico Open Heart

A guerra entre manteiga e a margarina, ou entre a dieta da gordura vegetal e a da gordura animal, ganhou mais um capítulo na semana passada. O editorial do periódico científico Open Heart , do considerado British Medical Journal , afirma que a dieta pregada pela Associação Americana de Cardiologia, pobre em gordura saturada (gordura presente principalmente em produtos de origem animal), não diminui os riscos de doenças cardíacas, nem ajuda a obter uma vida mais longeva.

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No editorial,o cientista cardiovascular James DiNicolantonio afirma que o aconselhamento atual de substituir as gorduras saturadas na dieta é baseado em dados falhos e incompletos da década de 1950. A Associação Americana recomenda o consumo limitado de gordura saturada em menos de 7% do total de calorias diárias e prega a substituição de gordura animal por gordura vegetal.

Veja abaixo entrevista concedida por James DiNicolantonio:

iG: Por que você decidiu escrever este editorial?
James DiNicolantonio: Eu queria passar a mensagem correta, pois acredito que muitas pessoas estão sendo prejudicados pelas atuais orientações. As pessoas precisam saber quão ruim é para a saúde comer açúcar, carboidratos refinados e determinados óleos vegetais processados.

iG: Por que dietas pobres em gordura saturada não refreiam o risco de doenças cardíacas nem ajudam a viver mais?
DiNicolantonio: A gordura saturada é a gordura estável e suscetível ao ataque de radicais livres, assim cozinhar com mais óleos vegetais também não é uma boa ideia, já que os óleos são provavelmente altamente oxidados quando ingeridos. Quando a gordura saturada é substituída por carboidratos refinados, há um aumento na resistência à insulina. Isto causa o surgimento de partículas pequenas e densas de LDL, o mau colesterol, (que oxidam mais facilmente do que as partículas grandes de LDL) e também o maior acúmulo de gordura visceral (obesidade), inflamações no corpo e promove a doença cardiovascular. Se as gorduras saturadas são substituídas por óleo de milho ou de cártamo, estes óleos se incorporam ao LDL, o que faz o LDL muito mais suscetível à oxidação.

iG: Que explicação os cientistas deram em 1950 para afirmar que gordura saturada era prejudicial para a saúde?
DiNicolantonio: Em 1953, Ancel Keys publicou um estudo chamado “As seis cidades” que sugeria que quanto mais calorias de gordura uma pessoa consome, maior é o risco de ter doenças cardíacas degenerativas. Porém, o estudo tinha um problema: pegava apenas seis cidades, quando havia informações sobre 22 cidades. Cinco anos depois de este estudo ser publicado, dois autores publicaram os dados completos das 22 cidades e a relação entre gordura e doenças cardíacas diminuiu muito.

iG:O estudo das seis cidades foi publicado nos anos 1950. Por que esta relação entre gordura saturada e doenças cardíacas ainda é levada em conta atualmente?
DiNicolantonio: Há provavelmente uma porção de razões para isto. Uma delas e, talvez a primeira, é que nos Estados Unidos, nós não queremos admitir que estávamos errados. Mesmo que isso seja tão óbvio. Veja que uma vez que a orientação promoveu a redução de gordura saturada, houve o aumento do consumo de carboidratos refinados e de açúcares, que estão diretamente relacionados com o aumento da obesidade e diabetes. A segunda razão estaria ligada ao fato de muitas orientações de dieta serem tendenciosas e não terem revisões sistemáticas e de meta-análises. Geralmente elas partem de uma noção preconcebida. Promove-se ensaios que apoiam uma ideia e rejeitam os ensaios que não apoiam esta teoria.

iG: Qual foi o motivo desta demonização da gordura saturada? De onde partiu isso?
DiNicolantonio: Quando o presidente americano Eisenhower teve seu primeiro ataque cardíaco, os americanos ficaram desesperados por uma explicação sobre o que causava doenças cardíacas. Nesta época, foi pensado, pela primeira vez, que a gordura animal aumentava o colesterol e que a gordura vegetal o reduzia. Também se pensou que quanto maior o nível de colesterol de uma pessoa, maior o risco de ela ter doenças cardíacas. Então, chegou-se a conclusão de que baixando a gordura animal na dieta diária, substituindo alimentos ricos em gordura saturada por gordura vegetal, isto diminuiria o risco de doenças cardíacas por baixar o colesterol. Porém, esta teoria já se mostrou significativamente falha.

iG: Que estudo recente prova que esta teoria estaria errada?
DiNicolantonio: A pesquisa mais recente que temos é a meta-análise publicada em 2013 por Chris Ramsden no British Medical Journal. Nesta pesquisa ele demonstrou que ao substituir gordura saturada, mais gordura trans, por gorduras omega-6, principalmente óleo de milho e cártamo, cresceram os riscos de morte por doença coronária e cardiovascular em quase 10 mil pacientes que participaram de ensaios clínicos randomizados.

iG: O senhor acredita que o aumento de doenças cardíacas na população está ligado a uma dieta pobre em gordura saturada?
DiNicolantonio: Eu acredito que o aumento de doenças cardíacas na população é devido, principalmente, ao aumento de alimentos processados. Isto incluiria mais açúcar, mais carboidratos refinados e mais óleos vegetais processados.

iG: Qual a sua opinião a respeito da dieta mediterrânea, rica em peixe, frutas, verduras, legumes e cereais, e limitada em carnes vermelhas e laticínios?
DiNicolantonio: A dieta mediterrânica tem baixo teor de açúcar e pouquíssimos alimentos processados ou carboidratos refinados, mas ninguém fala sobre este ponto importante. Ela também desbancou a dieta de baixo teor de gordura, pregada pela da Associação Americana de Cardiologia em dois ensaios clínicos. O estudo PREDIMED (Prevención con Dieta Mediterránea), indica uma redução maior na incidência de doenças cardiovasculares com uma dieta mediterrânea, comparada com uma dieta de baixo teor de gordura. O estudo que ficou conhecido como Lyon Diet Heart Study mostrou que a dieta mediterrânea reduz doenças cardiovasculares se comparada à dieta de baixa gordura saturada. Acho que também trata-se de algo sobre o estilo de vida de pessoas que vivem no Mediterrâneo e não apenas o que é consumido nestas regiões.

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