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Apesar de incluído no SUS, País ainda tem poucos centros especializados; cuidados paliativos focam na diminuição da dor quando a medicina não consegue curar o doente

Aos 75 anos a mulher não aguenta mais o sofrimento causado pela quimioterapia. “Eu não tenho mais forças para suportar isso”, diz à geriatra. Ela tem um linfoma e os médicos já decretaram que não há como reverter o quadro da doença. Não há cura e ela recebeu a sentença de que tem apenas seis meses de vida.

Nesta quarta (7), ela decidiu com a família que não quer mais fazer a quimioterapia. Vai tratar a dor, mitigá-la. Também vai deixar o hospital e passar seus últimos dias em casa. Antes disso, planejou uma viagem com os filhos. Precisa se preparar para a morte. Ela decidiu por parar de esticar o fiapo de vida que restava e viver os últimos dias com qualidade ao lado de quem ama.

Cuidados paliativos: médicos focam em amenizar a dor de ajudar o idoso a repensar o fim da vida
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Cuidados paliativos: médicos focam em amenizar a dor de ajudar o idoso a repensar o fim da vida

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Os filhos também estão resignados. Assim como diz o escritor Mia Couto, morto amado nunca para de morrer. É urgente aproveitar o que ainda há de vida ao lado da mãe.

“Nestes casos de doenças terminais, vemos duas situações. Uma é suspender o tratamento e ir para casa, ficar com a família. Outra é a do paciente que quer morrer lutando, mesmo que já não tenha mais o que fazer. O que não é bom, pois mostra uma negação aos fatos. De qualquer forma, é importante se preparar e discutir a questão. De uma jeito ou de outro, morrer não é bonito e não cheira bem”, diz Theodora Karnakis médica geriatra e vice-presidente da Associação Brasileira de Cuidados Paliativos.

Ela afirma que a decisão é sempre difícil. Quem já pensou em que qualidade de morte quer ter? Como lidar com uma doença grave e progressiva, que a medicina ainda não conseguiu curar? “Cabe ao médico ajudar o paciente na tomada de decisão que deve ser feita também com a família”, disse.

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Desde 2006, há uma resolução no Brasil, que tem força de lei, que permite ao médico suspender medicamentos e procedimentos médicos em pacientes no fim da vida, desde que provado que não trazem benefício. A suspensão precisa ser protocolada e estar de acordo com o desejo do paciente e da família. Além disso, os cuidados paliativos foram incluídos em 2002 no Sistema Único de Saúde, embora ainda não haja orçamento governamental para o desenvolvimento e investigação de Cuidados Paliativos.

O tema tem ganhado muito espaço no Brasil por conta do aumento da expectativa de vida, da maior ocorrência de doenças crônicas e dos avanços tecnológicos que permitem manter uma pessoa viva. “Com o avanço da medicina, as pessoas morrem de uma forma diferente. Há a possibilidade de tratamentos que podem prolongar a vida, embora causem muito sofrimento e baixa qualidade de vida ”, disse Theodora.

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Nos últimos anos, os cuidados paliativos começam a ganhar espaço no Brasil. No ano passado foi criada a residência médica na especialidade Medicina Paliativa, no Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) e também cursos de Pós-Graduação em Cuidados Paliativos.

“Mesmo assim, isto ainda é muito difícil. A medicina nunca soube lidar muito bem com o fim da vida. Além disso, os cuidados paliativos surgiram em 1960, na Inglaterra. Cinquenta anos é pouco tempo na história”, Maria Goretti Sales Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).

O cuidado paliativo tem o objetivo de cuidar da pessoa e da doença, e não apenas da doença. “Muitas vezes, a pessoa já não suporta mais a dor, as náuseas. Tratamos desta dor com o mínimo de medicação possível. Além disso há o suporte emocional. É um momento difícil. Mas não é impossível nem intolerável. É doloroso”, disse Maria Goretti.

Embora para muitos pareça algo como colocar panos quentes em uma situação dura, a origem da palavra paliativo vem de palium que é cobertor ou manto que protege das intempéries. Cabe ao médico discutir com o paciente o controle de sintomas, da dor e dar a possibilidade de ir para casa.

“É preciso acolher e ouvir para tecer o que virá para o futuro. O paciente precisa reavaliar a vida. A medicina tem limite. Precisa mostrar para o paciente que foi feito de tudo e que não tem como curar”, diz o geriatra Toshio Chiba, coordenador do Programa de Cuidados Paliativos do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

Maria Goretti afirma que os cuidados paliativos não devem ocorrer só no fim da vida, mas deve começar tão logo se inicie o tratamento da doença que ameaça a vida. “Como isso não acontece, vemos idosos com péssima qualidade de morte, sujeitos a tratamentos dolorosos, inconvenientes e que não trazem benefício nenhum”, diz. 

Chiba, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, conta que muitas vezes o paciente não quer falar sobre o assunto. “Eu pergunto, e ele diz: ‘Doutor, não vamos falar sobre isso, vamos comentar sobre o futebol’. É sinal de que ele não está preparado para ouvir. Mesmo assim, o filho ou a esposa precisam saber”, diz.

Cabe ao médico de cuidados paliativos indagar o paciente como ele quer viver os últimos dias de vida, o que não significa só a decisão de tomar ou não remédio. “Tem casos de empresários que precisam fazer a sucessão das empresas, ou pessoas com filhos fora do casamento, que precisam avaliar se querem aproximar as duas famílias”, explica. Existem também os casos de demência, onde o paciente vai viver mais 15 anos ou 20 anos e precisa tomar várias decisões como quem vai cuidar dele, de seu dinheiro. É o chamado testamento vital.

"Os cuidados paliativos são o  modus operandi para uma doença progressiva e sem cura", conclui o médico.

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