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Projeto em Interlagos oferece tratamento de graça como complemento de atividades clínicas

Mesmo sem saber ainda os dias da semana, é só dar terça-feira que Artur, de seis anos, já acorda animado sabendo que é dia de andar a cavalo. ”Eu sou um cowboy”, diz o menino, já montado no animal, com o chapéu e fazendo “muque”, todo prosa. Ele tem autismo e neste último ano, desde que ganhou uma bolsa e passou a fazer equoterapia, muita coisa mudou.

“Ele era incontrolável. Agressivo. Nunca gostou de contato físico. Não dormia e era compulsivo por comida”, lembra Vanusa de Souza, de 36 anos, mãe de Artur.

Olhando o menino hoje, nem dá para acreditar nos problemas que ele tinha. Não sobrou nada da agressividade. Ele interage com as outras crianças, dá beijo, abraço, conversa rapidamente, sorri e adora jogar futebol. Com o cavalo, foi amor à primeira vista. Ele adora.

“Hoje a gente consegue ter contato com ele. Antes não dava nem para abraçar. Só pode ter a ver com a equoterapia. Ele adora, se sente um cowboy. Está no paraíso”, sorri Alaor Mendes, 64 anos, pai do Artur. Para que o menino se sinta no paraíso, ele e a mulher saem de Jardim Eliana, na zona sul de São Paulo, para levar o filho ao centro de equoterapia em Interlagos.

Dados: No Brasil, apenas 10% das pessoas diagnosticadas com autismo são tratadas

A mesma mudança rápida aconteceu com David, de seis anos, e morador do Jardim Selma. Há dois anos, ele faz equoterapia toda segundas-feiras. Também não paga nada por isso. Um padrinho faz a doação de R$ 360 por mês para que o menino tenha as aulas de meia hora, uma vez por semana. “Meu objetivo era que ele se comunicasse mais, interagisse. E isso aconteceu. Na segunda, ele já calça as botas e me avisa que precisamos buscar a Lívia, nossa vizinha que também faz equoterapia com ele”, conta Fátima Gomes, 43 anos, mãe de David.

Para quem gosta de cavalos, fica claro que a interação com o animal vai ajudar a criança a desenvolver a socialização. Antes das aulas, as crianças fazem carinho no animal, conhecem e só depois montam. Crianças com autismo geralmente têm uma dificuldade de inclusão social por apresentarem muitas vezes comportamentos agressivos, repetitivos, além de não gostarem de contato físico nem de interagir com outras pessoas.

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“A melhora acontece de uma forma muito rápida, mais rápido do que nas terapias em consultórios. É muito difícil uma criança ter medo do cavalo. Não sei o que acontece, o autista pode ter medo dos outros animais, mas do cavalo eu nunca vi. As crianças fazem carinho no animal, coisa que não têm com humanos”, diz Andrea Ribeiro, fonoaudióloga e coordenadora do Walking Equoterapia, centro de equoterapia em Interlagos, São Paulo.

A mãe de Lívia, de nove anos, em apenas dois meses já começou a perceber que a filha gosta da atividade. "Ainda não notei desenvolvimento motor, mas sei que ela gosta dos animais. Logo que chega, ela já levanta o pé e sorri”, diz Eliana Silva, 32 anos. Ela explica que tem dificuldade de se comunicar com a menina, que pouco fala.

Além da socialização

Além de instigar a socialização, a interação dos cavalos com as crianças autistas ou com deficiências motoras também auxilia no desenvolvimento motor e cognitivo. Isto porque o movimento do cavalo, seja o andar ou o trote, é sequenciado e estimula o corpo inteiro, tanto a parte física quanto a mental. É o chamado movimento tridimensional do cavalo (para frente/ trás; para cima/baixo; para os lados). “Ao andar a cavalo, o movimento estimula sinais elétricos que percorrem a medula e vão para o cérebro das crianças. O cérebro faz toda uma reorganização neurológica. Isto é evidente”, explica Andrea.

Veja depoimento de Wanusa de Souza:

Essa reorganização neurológica foi notada em Giulia Postiglione, de 17 anos, que tem um grau de autismo mais grave. A menina não fala e anda com dificuldade. Mas é só andar a cavalo que a postura melhora. “Notei que ela teve uma evolução muito grande na postura, na atenção e no modo de andar”, conta Vera Postiglione, 54 anos, mãe da menina.

Por ser um dos poucos centros de equoterapia a oferecer o serviço para crianças carentes, há uma fila de espera de 400 crianças para as aulas de equoterapia. Normalmente, as aulas custam em torno de R$ 680 reais por mês, mas no centro da Associação dos Cavaleiros de Guarapiranga as aulas saem a preço de custo, por R$ 360. Há ainda a possibilidade de pedir para que “padrinhos” façam a doação do dinheiro da mensalidade. "Iniciamos com 30 praticantes de equoterapia, hoje estamos com 150, sendo que 50% do atendimento é para crianças carentes", afirma Andrea.

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