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Maior parte dos procedimentos envolve congelamento de óvulos ou sêmen e acontece antes da químio ou radioterapia

Receber a notícia de um câncer não significa mais dizer adeus ao sonho de ser mãe. Congelar óvulos, embriões ou tecido ovariano é saída para uma gestação futura
Thinkstock/Getty Images
Receber a notícia de um câncer não significa mais dizer adeus ao sonho de ser mãe. Congelar óvulos, embriões ou tecido ovariano é saída para uma gestação futura

Ao receber a notícia de que se está com câncer, muitas pessoas acham que o plano de ser mãe ou pai terá de ser esquecido. A preocupação faz sentido. Alguns quimioterápicos podem causar infertilidade e a radioterapia, dependendo de onde for aplicada, pode também afetar a função ovariana.

Mas existe solução. Hoje, já existem técnicas que preservam a fertilidade. A maioria delas envolve a criopreservação, que é o congelamento de óvulos ou sêmen, embriões, tecido ovariano ou testicular.

O importante é avisar o oncologista já no momento do diagnóstico, porque todo o processo deve ser feito antes do início do tratamento. Veja abaixo como funciona cada tipo de procedimento:

Congelamento de óvulos ou sêmen  - É a técnica mais usada. “No caso das mulheres, congela-se 10 a 12 óvulos, dependendo do estímulo que a mulher receber”, explica a ginecologista Graciela Morgado

Esse estímulo a que ela se refere é a medicação dada para a mulher ovular e, então, ter seus óvulos retirados. Quanto mais nova a mulher for, maior será o sucesso do estímulo que ela vai receber. Os óvulos devem ser mantidos congelados e armazenados até o momento em que o tratamento contra o câncer terminar e a mulher desejar ser mãe.

Já para os homens, basta coletar o sêmen como acontece num exame de espermatograma. As taxas de sucesso dessa técnica giram em torno dos 40% para homens ou mulheres.

Congelamento de embriões - Para quem já tem um parceiro(a), outra opção é congelar os embriões, que posteriormente serão implantados no útero materno. Congela-se cerca de quatro embriões, com taxa de sucesso semelhante ao congelamento de óvulos ou sêmen.

Mas há um porém envolvendo essas duas técnicas. Como elas dependem de estímulos medicamentosos hormonais, alguns desses remédios podem “alimentar” o tumor em andamento e fazer com que ele cresça mais em um curto período de tempo. Quando o oncologista avalia esse risco e não indica a indução de ovulação, outro procedimento entra em cena: o congelamento do tecido ovariano.

Congelamento do tecido ovariano - Maria Cecília Erthal, especialista em reprodução humana da Clínica Vida, centro de fertilidade da rede D’Or do Rio de Janeiro, explica que essa é ainda uma técnica experimental, usada quando há risco de avanço do câncer pela estimulação da ovulação e também em meninas pequenas, que estão com câncer e ainda não começaram a ovular. “Faz-se uma cirurgia por videolaparoscopia, como uma biópsia, e extrai-se uma parte do tecido”, explica a médica.

O mesmo vale para meninos ainda crianças: extrai-se parte do tecido testicular para preservação da fertilidade, técnica igualmente experimental. A taxa de sucesso de gravidezes por essa técnica é menor do que a de congelamento de óvulos em embriões.

A polêmica em torno dessa técnica está por que não se sabe se o tecido retirado (cerca de dois centímetros), ao ser implantado novamente, carregará ou não as células cancerosas. "E se o câncer já tinha afetado o tecido no momento da coleta? Há esse risco", explica a médica, informando que esse procedimento é feito quando não resta outro.

"Por mais que se estude os fragmentos de células para descobrir as cancerosas, se estudar todo o tecido, você o destroi e não sobra nada para congelar. Para estudar é preciso colocar fixadores, corantes, e isso faz com que ele não viva mais", explica a especialista.

Nem todo tratamento causa infertilidade

Graciela explica que alguns quimioterápicos não causam infertilidade e, inclusive, podem até serem usados durante uma gravidez. Mas, como sempre, cada situação é individual e o oncologista é o profissional que vai decidir o melhor a ser feito. 

Quando a quimioterapia não afeta os ovários, a mulher continua ovulando durante o tratamento. No caso dos medicamentos que alteram a função ovariana, é como uma menopausa precoce. Algumas mulheres, porém, voltam a ovular naturalmente depois do tratamento, mas, segundo a ginecologista, existe o risco de o óvulo estar com alguma alteração genética. O mesmo vale para os homens: depois de uma quimioterapia que afeta sua função reprodutiva, o sêmen pode sofrer alterações genéticas. 

A radioterapia só prejudica os óvulos quando é feito na região da pelve ou na região dos testículos. “Na mulher, essa radioterapia é normalmente feita no câncer de útero, por exemplo”, diz a médica.

Quando o risco de falência dos órgãos reprodutores é iminente por causa da radioterapia, há ainda outra saída: esconder o ovário. Essa técnica, chamada de transposição de ovários, consiste em uma cirurgia videolaparoscópica em que o ovário é “descolado” do local em que se encontra e escondido atrás do útero ou um pouco acima da pelve, mantendo a irrigação sanguínea do local. Depois do câncer tratado, outra cirurgia traz o ovário para o lugar original.

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