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Durante debate, David Uip, secretário da Saúde de SP, criticou tratamento de Aids do Governo Federal, baseado nos médicos da família, e defendeu atendimento feito por infectologistas

O Governo Federal e o Estado de São Paulo seguem conceitos completamente diferentes no que se refere ao tratamento de pessoas que vivem com HIV/Aids. Para o Ministério da Saúde o foco é promover o atendimento já na atenção básica. Já para a Secretaria Estadual de Saúde, Aids é assunto para centros especializados e de alta complexidade. Basicamente, a União defende que o paciente seja atendido pelo médico da família, ou o clínico geral, enquanto que o governo paulista afirma que o atendimento seja encargo de infectologistas em Hospitais ou em Serviços de Atendimento Especializados.

Secretário Estadual David Uip e Fábio Mesquita participam de debate sobre estratégias nos programas de combate a DST/Aids
Wanezza Soares/Divulgação
Secretário Estadual David Uip e Fábio Mesquita participam de debate sobre estratégias nos programas de combate a DST/Aids

O secretário estadual, David Uip bateu o pé para manter a estratégia paulista. “Enquanto for secretário, o Estado de São Paulo vai ter a sua política. Daqui a alguns anos a gente vai ver qual foi o melhor programa. São Paulo representa 44% do atendimento de alta complexidade do País. A saúde pública do Estado é muito melhor que a de qualquer lugar do País”, gabou-se, durante debate realizado no Simpósio Infectologia em Evidência, do Hospital Emílio Ribas. Na ocasição, Uip debateu o tema com o diretor do departamento de DST/Aids do Ministério de Saúde, Fábio Mesquita.

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A falta de concordância entre as esferas federal e estadual não inviabiliza que os dois programas andem paralelamente. Isto se torna apenas uma questão conceitual. Porém, levando em conta que a União destina R$ 1,3 bilhão em recursos por ano para o combate de DST/Aids no País, seria interessante que os objetivos estivessem alinhavados.

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A OMS parabenizou o Brasil no ano passado pelo esforço de oferecer a terapia antirretroviral para todos os soropositivos, independentemente do estágio da doença. Mesmo com o elogio, Mesquita ressalta que existem no Brasil 45 mil pessoas com HIV positivo e que ainda não iniciaram o tratamento.

“Precisamos manejar o tratamento para a atenção básica, pois a gente saiu de um cenário onde a Aids era morte, com poucos medicamentos disponíveis e hoje temos a queda da mortalidade e o alto sucesso terapêutico. Diabetes e colesterol matam muito mais e são manejados em atenção básica. A tendência é discutir isso também nas hepatites virais”, disse Mesquita.

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Uip rebateu: “Infelizmente, continuo não concordando com a estratégia do Ministério. Porque prefiro ver o Brasil igual a São Paulo que São Paulo igual ao Brasil.”

Não falta dinheiro

O Estado de São Paulo recebe de recursos da União R$ 45 milhões. No ano que vem, pela primeira vez na história, deve destinar recursos próprios para o combate à doença. A previsão é de que R$ 30 milhões de recursos da Secretaria de Saúde sejam destinados para os municípios implementarem ambulatórios e investirem em treinamento e campanhas de prevenção.

“Destinar 30 milhões é extraordinário, mas acho que o problema da Aids no Brasil não é financiamento, é como a gente utiliza este recurso. Nesse caso, o importante é concentrar onde há mais vulnerabilidade, mais chance de ter o HIV concentrado", disse Mesquita.

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Por ano, no Brasil, são detectados 45 mil novos pacientes e 15 mil pessoas morrem de Aids. “O atendimento especializado fazia sentido quando a gente não tinha tanto medicamento. Agora a gente sabe que quanto antes fizermos o diagnóstico e o tratamento, mais teremos resultados”, disse.

Mesquita afirma que o Brasil tem apenas 724 serviços de assistência especializada, já incluindo o Estado de São Paulo. “O modelo paulista não teria como dar conta de 450 mil pacientes”. No Estado de São Paulo, 200 ambulatórios fazem o atendimento de pacientes com Aids.

Diferente do que ocorre em países na África, a epidemia de Aids no Brasil voltou a crescer e é do tipo concentrada, tendo em algumas populações uma presença muito maior que na população em geral. Em usuários de drogas, por exemplo, a prevalência é doze vezes maior. Para gays e homens que fazem sexo com outros homens o índice é de 24 vezes o da população geral. “Transexuais é a população com maior incidência. A gente precisa ver os dados. Falou-se que crescia em idosos e que as mulheres casadas mereciam maior atenção. Os dados mostram que não é nada disso. A gente precisa chegar agora nestes grupos que de fato há mais casos, ir até eles", disse.

A descentralização dos cuidados de pessoas com HIV/Aids está sendo implantada já neste ano pelo ministério da Saúde. As experiências realizadas em Fortaleza, Curitiba, Porto Alegre e Rio estão servindo de exemplo e de objeto de debate para outros municípios que desejam seguir a tendência.

No Rio, por exemplo, após a constatação de que cada infectologista atendia em média 500 pacientes – em alguns casos chegava a dois mil pacientes –, uma equipe de médicos da família foi treinada para atender estas pessoas. Qualquer dúvida ou comunicação para encaminhamento de pacientes para centro de referência, a equipe se comunica por mensagem de celular. “Cada município usa o jeito que achar melhor para fazer o matriciamento. No Rio de Janeiro, acharam uma forma interessante e que está funcionando bem”, disse o diretor do departamento de DST/Aids do Ministério de Saúde, Fábio Mesquita.

Não há consenso

Mesquita e Uip debateram sobre o assunto para uma plateia composta por infectologistas do Emílio Ribas, hospital referência do tratamento e diagnóstico de Aids no Brasil. Mas até mesmo entre os infectologistas não há consenso. Zarifa Khoury é da secretaria municipal de São Paulo e fez o treinamento da equipe de médicos que trabalham na região da Cracolândia. “Acho que as duas estratégias não são contraditórias. Em São Paulo, a maioria dos pacientes que vai para o Emílio Ribas não adere ao tratamento de antirretrovirais. Não adianta ter infraestrutura se a população não acessa esta infraestrutura”, disse.

Ela afirma que durante o trabalho na Cracolândia foi possível notar que as pessoas não iam aos serviços de atendimento especializado. “A gente viu que a guerra estava perdida. Não adiantava marcar uma consulta para a próxima semana, tal dia e tal hora, se nem relógio eles têm. Com o treinamento, a equipe vai à rua ou nos hotéis dar o medicamento”, afirma.

O infectologista Chaie Feldman, do Emílio Ribas, alerta que a questão não está limitada apenas à administração dos antirretrovirais. “A atenção básica já está sobrecarregada e para entender paciente com HIV não é tão simples assim. Não é só seguir uma receita de medicamento. Existem outras complicações, têm os efeitos colaterais das medicações só para citar um exemplo.”

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