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Relato é da diretora-geral da ONG no Brasil, Susana de Deus; orçamento de 16 milhões de euros para doença pode se esgotar

Médico oferece água a paciente com o vírus do ebola
Sylvain Cherkaoui/Cosmos/MSF
Médico oferece água a paciente com o vírus do ebola

A diretora-geral do Médicos sem Fronteiras (MSF) no Brasil, Susana de Deus, afirmou que a organização está perto do limite tanto de pessoal como de recursos para atuar no combate ao surto de ebola na África. “Chegamos a nosso limite. O MSF tem mais de mil pessoas em campo, e não temos como realocar profissionais de outros surtos que continuam a acontecer como pena de sacrificarmos outros pacientes", disse ela, em encontro com jornalistas.

Só de investimento financeiro, completou Susana, a ONG também está prestes ao esgotamento. "Na MSF, de março até dezembro, o orçamento é de 16 milhões de euros só para ebola. Não esgotou, mas no caminho que estamos, vamos esgotar sim”, avisou.

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Segundo os dados mais recentes da organização, 1310 pessoas admitidas nos centros de tratamento de MSF em Serra Leoa, Libéria e Guiné, 508 confirmados com ebola e 157 curados. “O cenário é bem diferentes daquele que encontramos em outras situações de epidemia. Libéria e Serra Leoa são prioridades urgentes. Falta muita coisa, de água e saneamento até laboratoristas, médicos, enfermeiros, faltam equipes de educação em saúde e logística para organização. Tudo isso para encerrar essa epidemia de forma rápida e eficaz. A resposta não está coincidindo com as declarações. Está lenta e precisamos urgente para que esse esforços sejam mais rápidos para evitar mais mortes todos os dias”, declarou Susana.

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Para ela, falta apoio e engajamento de outros países. “Criou-se um grande estigma, uma grande resistência por parte da população. Se fosse, por exemplo, um pós-tsunami, já teríamos muitas organizações em campo (...) É preciso conter esse surto. Senão, cada vez que um novo foco é descoberto, precisaremos de mais médicos, mais equipes, mais centros de tratamento."

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Nina Ramos/iG Rio
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O médico brasileiro Paulo Reis, que esteve em Serra Leoa até o mês passado e deve seguir de volta ao país africano para continuar atendendo os infectados pelo vírus, conta que trabalha com o ebola desde 2012 e que a grande diferença que enxerga nessa epidemia na África Ocidental é alto número de pacientes. “Nunca antes tivemos um número tão grande. E essa epidemia não está localizada. Está se espalhando. Não conseguimos restringir e controlar, por isso se tornou um problema amplo que está afetando uma área muito grande”, disse.

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Um dos motivos pode ser hábitos culturais das regiões afetadas, segundo o médico: “A população tem, em geral, um nível de informação muito baixo, e é difícil convencer sobre os problemas da doença e sobre o que fazer para prevenir. Existem hábitos que também facilitam o contágio, como no enterro. Eles têm contato direto com o corpo do falecido, e isso ajuda a propagar a doença”.

Risco de chegar ao Brasil

De acordo com Paulo, o risco de ter um caso importado para o Brasil sempre existe, “já que as pessoas se movem, viajam, não dá para excluir essa possibilidade. Mas não seria um problema de saúde pública. Os hábitos culturais daqui são muito diferentes daquela região da África. O surto seria controlado prontamente, na minha opinião”.

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Antes de embarcar para o Brasil, Paulo, que viajou em um voo comum, respondeu a um questionário e teve a temperatura verificada por um sensor infra-vermelho. “Só porque você esteve em um país com regiões infectadas não significa que você foi contaminado. Quando eu chego aqui, durante 21 dias verifico minha temperatura duas vezes ao dia, e caso tenha alteração ou sintoma, aviso ao escritório de MSF e eles vão tomar providências. No mais, é vida normal, atividade normal. A meu ver, esse controle é suficiente”, esclareceu.


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