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Maioria dos casos envolve crianças – intoxicadas com remédios, produtos de limpeza e até mesmo plantas venenosas–, mas há relatos de tentativas de suicídio frustradas

Catharina Cardoso, Bianca Bergamini, Cristina Andrusaitis e Raquel Perea fazem parte do corpo de saúde do Ceatox
Elioenai Paes
Catharina Cardoso, Bianca Bergamini, Cristina Andrusaitis e Raquel Perea fazem parte do corpo de saúde do Ceatox

No fundo de um dos corredores do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo há uma porta com uma discreta placa: Ceatox. A sigla significa Centro de Assistência Toxicológica. Dentro da pequena sala, trabalha a equipe que recebe as ligações do telefone gratuito que estampa praticamente todos os rótulos dos produtos de limpeza nacionais.

Mas não são só ingestões acidentais de produtos de limpeza que as pessoas do outro lado da linha relatam. Há também ingestão de remédios, seja por acidente ou por tentativa de suicídio, acidentes com pesticidas, plantas e até mesmo veneno, como os raticidas.

No Ceatox, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, atuam estudantes e formados em medicina, farmácia e enfermagem, treinados especificamente na área de toxicologia. Para auxiliar no trabalho, todos os computadores contam com um sistema para consulta de medicamentos e substâncias, bem como suas interações.

O centro recebe cerca de 80 ligações por dia. A demanda maior é por conta da ingestão acidental de medicamentos, mas há casos também daqueles que tentaram tirar a própria vida e desistiram antes do fato consumado ou de outros encontrados ainda com vida por algum parente que liga ao Ceatox aflito por ajuda. 

As crianças e os remédios

As manhãs são mais tranquilas. Como a maior parte dos atendimentos se dá por causa de crianças que ingeriram remédios ou produtos de limpeza, a farmacêutica e coordenadora do Ceatox, Cristina Andrusaitis Sandron, explica que é nas horas em que as crianças sentem mais fome que os acidentes acontecem com maior frequência, ou seja, mais perto do horário do almoço.

De repente, o telefone toca. Catharina Cardoso Januário de Souza, estudante de medicina de 24 anos, atende uma mãe preocupada após o filho de dois anos ter ingerido uma pequena quantidade de um produto químico. Apesar de o teor da substância assustar, Catharina tranquiliza a mãe: nesse caso, especificamente, basta deixar o pequeno sem beber água, leite ou qualquer outra substância durante duras horas. Depois desse período, alimentar a criança com uma fruta pode ajudar. Claro, cada caso é um caso, e a intoxicação também depende da quantidade de produto ingerido, por isso o ideal é sempre, absolutamente sempre, ligar para o Ceatox.

Antes de desligar, Catharina alerta a mãe: é possível que a criança venha a ter algum outro problema mais sério, como a pneumonite química. Caso o menino tenha tosse e febre de três a quatro dias depois da ingestão do produto químico, a mãe precisa procurar o serviço médico.

Veja as principais coisas que podem causar intoxicação:

Os acidentes com medicamentos acontecem mais na faixa etária de um a quatro anos, época em que a criança quer explorar o ambiente e se sente atraída pelas cores chamativas dos remédios. O comportamento de alguns pais também não ajuda. Muitos, para convencer a criança a tomar o remédio necessário, dizem que é “balinha, docinho, que vai deixar bem forte”. Diante disso, a criança pode entender que não é algo perigoso e pode voltar a tomar escondido dos pais.

Em segundo lugar no ranking de intoxicações estão os produtos de limpeza. E, novamente, o perigo maior está em crianças de até quatro anos. “As cores da embalagem dos produtos chamam a atenção das crianças, pois são rosinhas, amarelinhos”, alerta a coordenadora do Ceatox. Já nos adultos, essa intoxicação acontece na maioria das vezes por pura confusão. “Há muitos produtos de limpeza clandestinos, vendidos em garrafas PET. Muitas vezes a pessoa bebe achando que é água, depois vê que bebeu produto de limpeza”, conta.

Papel preventivo

Não só pessoas intoxicadas têm vez no Ceatox. O centro também está disponível para tirar dúvidas sobre interações medicamentosas, por exemplo. “Às vezes, um paciente não sabe se pode tomar um determinado remédio junto com outro e liga para a gente”, explica a farmacêutica. Os profissionais também ajudam quem tem dúvida se pode tomar certo medicamento na gravidez ou durante a amamentação.

Vez ou outra, o Ceatox recebe ligações sobre intoxicação de bichinhos de estimação ou até mesmo animais de maior porte, como ovelhas e bois. “O princípio de absorção de substâncias é quase o mesmo, então a gente consegue orientar”, diz Cristina.

Recomendações em caso de intoxicação

Ninguém melhor que o Ceatox (0800 0148110) para orientar em casos de intoxicação. No entanto, é importante saber que algumas coisas não devem ser feitas em nenhuma hipótese: dar leite ou água para a pessoa que ingeriu alguma substância, seja ela medicamento ou produtos químicos, é piorar o problema. “Se a pessoa ingeriu soda cáustica, por exemplo, que é super corrosiva, e toma água, não adianta nada. A água vai diluir um pouco da soda, que continuará corrosiva e vai atingir mais partes do estômago ainda”, alerta.

O mesmo vale para o leite. Além de espalhar o problema, ele pode ainda ajudar na absorção de produtos derivados do petróleo, como querosene, removedor, gasolina e outros, fazendo com que a proporção do dano seja muito maior do que seria.

Provocar vômito também não é uma boa ideia. Só vale quando é orientado pelo Ceatox. Se a criança bebeu algo corrosivo, por exemplo, vomitar só vai queimar ainda mais o caminho que o líquido vai percorrer ao voltar pela boca.  

Por isso, a recomendação é ligar para o Ceatox para orientações e, nunca, jamais, tentar solucionar o problema sem ajuda médica.

Serviço

Ceatox - 0800 0148110 ou (11) 2661-8800 / 2661-8571.

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