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Especialistas afirmam que maioria dos programas de reabilitação não dá atenção à nutrição; açúcar também era considerado um substituto inofensivo para drogas e álcool

Rodney Zimmers tinha 21 anos e 61 quilos quando se livrou da heroína e da cocaína. Três anos depois, continuava livre das drogas, mas alcançou quase 115 quilos. Ele atribui o ganho de peso à comida altamente calórica e com muito açúcar servida na clínica de reabilitação.

"Quando fiquei sóbrio, continuei comendo toda essa coisa horrível", disse Zimmers, agora com 29 anos e fundador da Blueprints for Recovery, centro de tratamento para homens nos arredores de Prescott, no Arizona. "Aprendi a ficar sóbrio, mas não a cuidar de mim mesmo em todos os aspectos. Não sabia cozinhar nem fazer compras no mercado porque nunca havia feito nada disso. Não aprendi nenhuma habilidade para a vida, nem a viver como adulto".

Médica Marianne Chai prepara uma refeição saudável para jovens em recuperação em Nova York
James Estrin/The New York Times
Médica Marianne Chai prepara uma refeição saudável para jovens em recuperação em Nova York



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Sua história é conhecida por todos em recuperação, que costumam ganhar peso no caminho para o bem-estar. Nem tudo é culpa deles; a maioria dos programas de reabilitação não deu muita atenção à nutrição.

"O foco principal era 'tirá-los da substância' e o resto tomará conta de si mesmo", afirmou a Carolyn Coker Ross, especialista em distúrbios alimentares e tratamento de dependências de Denver que foi consultora de várias clínicas de reabilitação.

Embora frutas, verdura, legumes e proteínas sejam servidos na clínica, o mesmo acontece com açúcar refinado, refrigerantes, bebidas energéticas, sucos açucarados, salgadinhos e docinhos cheios de açúcar, gordura ou sal (chamados "hiperpalatáveis"). Eles são relativamente baratos e fáceis de comprar em grande quantidade.

O açúcar também era considerado um substituto inofensivo para drogas e álcool. Na verdade o "grande livro" com os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos sugere que dependentes em recuperação mantenham doces à mão, o que poderia explicar porque biscoitos, café e cigarros são itens básicos nas reuniões.

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Porém, embora os doces tenham diminuído o desejo por drogas de muitas pessoas, diversas terminaram transferindo o vício em uma substância para o açúcar.

"Uma vez livre das drogas, o cérebro anseia pelas grandes recompensas dos hiperpalatáveis – balas, biscoitos, qualquer tipo de açúcar. A recompensa da maçã não adianta", disse a Dra. Pamela Peeke, professora assistente de medicina da Universidade de Maryland e autora de um livro sobre o tema.

"Assim, você termina transferindo a dependência", ela acrescentou. "Sai da cocaína para o bolo de caneca".

Sistema de recompensa

Pesquisa constatou que alimentos e drogas atuam de forma similar no centro de recompensas do cérebro. Estudo de 2013 publicado em The American Journal of Clinical Nutrition informou que é o açúcar, não a gordura, que estimula a ânsia.

E um estudo amplamente citado daquele ano constatou que o biscoito Oreo ativava o uma parte do cérebro considerada o centro de prazer ou recompensa, da mesma forma que a cocaína e a morfina, pelo menos em ratos de laboratório.

Isso tem efeito não apenas nas vias neurais do dependente como também em sua psique e autoestima.

"Alguns têm recaídas porque ficam aborrecidos com o ganho de peso", afirmou a Marianne Chai, diretora médica do New York Center for Living, centro para recuperação de adolescentes, jovens adultos e suas famílias em Manhattan. "A mentalidade é querer resultados imediatos. Eles não querem investir de quatro a seis meses em dieta severa e exercícios. Assim, vivem de cafeína e estimulantes ou, às vezes, cocaína para perder o peso".

Agora, com maior consciência dos efeitos do açúcar no cérebro, algumas clínicas de recuperação estão transformando as dietas e contratando "nutricionistas culinários", mestres-cucas diplomadas que também são formados em nutrição.

"Não estamos pedindo que eles comam apenas rúcula", disse Peeke, que também é consultora de ciências da Elements Behavioral Health, que administra centros para tratamento de distúrbios alimentares e clínicas de reabilitação. "Nós oferecemos entradas e salgadinhos criativos e deliciosos que vão competir com todo esse lixo que eles vêm comendo, para retomar aquele centro de recompensa. Nós os transformamos em pessoas saudáveis."

O Center for Living oferece aulas de culinária no local para pacientes e pais, além de palestras sobre nutrição e alimentação saudável. Os pacientes cultivam ervas e legumes numa horta no telhado, e não podem consumir açúcares processados, cafeína nem bebidas energéticas.

"A maioria dos adultos jovens não sabe nada sobre escolher comida; eles vivem de lanchonete, e muitos pais não sabem se cuidar e nem ensinar a se cuidar", afirmou Chai, que acredita que manter uma dieta adequada pode desempenhar um papel fundamental na recuperação de um "jeito sustentável e duradouro".

Victoria Abel, nutricionista especializada em dependentes em Prescott, no Arizona, que personaliza programas de nutrição em centros de recuperação, afirmou desconhecer "o quanto esta área estava desesperada por algo assim".

"Os pacientes estão desnutridos, seu corpo passa fome", ela acrescentou.

Ela conduz excursões semanais de compra no supermercado, onde os clientes aprendem sobre alimentos saudáveis e a ler os rótulos das comidas. Eles não podem comprar um artigo se os quatro primeiros ingredientes forem algum tipo de açúcar, e a sobremesa só está liberada uma vez por semana. "Eu tento ensinar a moderação", afirmou a nutricionista.

Nem todo especialista concorda com esse tipo de tratamento. Mark Willenbring, fundador da Alltyr, clínica para dependentes químicos e consultor de St. Paul, em Minnesota, diz não acreditar que a alimentação saudável seja o ingrediente que falta para ajudar os pacientes a ficarem longe de drogas e álcool.

"É responsabilidade da clínica fornecer uma dieta nutritiva com muitas frutas e vegetais, pouca carne vermelha e sem muita gordura, porque é saudável", declarou Willenbring, ex-diretor da Divisão de Pesquisa de Recuperação e Tratamento do Instituto Nacional de Alcoolismo e Abuso do Álcool. "Mas isso vai afetar a recuperação? Eu acho que não".

Outros consideram irreal esperar que um dependente abandone tudo de uma vez, mas quem está na linha de frente espera que o foco na nutrição seja uma medida positiva.

Christopher Kennedy Lawford, autor de muitos livros sobre dependência, disse que "quando você está acostumado a injetar heroína ou beber uma garrafa de vodca, o açúcar parece algo benigno. É difícil levar isso a sério".

Entretanto, Lawford, que contou estar livre das drogas e do álcool há 23 anos e que sua primeira droga foi o açúcar, é inflexível ao afirmar que os programas de reabilitação deveriam tratar os dependentes de forma holística.

"Não dá para colocar um dependente em recuperação até lidar com todos os aspectos de sua vida. O que você pensa, como pensa, como se relaciona às pessoas, o que põe na boca, como se exercita – está tudo relacionado. E nós precisamos começar a agir de forma inteligente em relação a isso."

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