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Rubens Belfort Junior, oftalmologista da Unifesp e que atua há mais de 30 anos como voluntário na Amazônia, recebe neste domingo o Prêmio Internacional de Prevenção da Cegueira

O médico examina um ribeirinho na amazônia. Carente de médicos, a população é beneficiada com o voluntariado da equipe da Escola Paulista de Medicina (EPM - Unifesp)
Rubens Belfort Neto
O médico examina um ribeirinho na amazônia. Carente de médicos, a população é beneficiada com o voluntariado da equipe da Escola Paulista de Medicina (EPM - Unifesp)

É em fazer com que as pessoas possam literalmente enxergar o mundo que o oftalmologista Rubens Belfort Junior, 68 anos, dedica a sua vida. Professor titular do departamento de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina (EPM, da Universidade Federal de São Paulo, Unifesp), Belfort é parte de uma família com quatro gerações de médicos dedicados à saúde ocular: o avô, o pai, ele e o filho trilharam o mesmo caminho. E, apesar de haver uma influência inconsciente, Belfort conta que a escolha pela profissão foi apenas uma “feliz coincidência”.

E é por causa dessa feliz coincidência que a população ribeirinha da Amazônia tem acesso a um atendimento muito restrito por aquelas bandas. Tudo começou com o avô de Belfort. Lá pelos idos de 1950, seu avô já andava por lá em companhia do antropólogo Darcy Ribeiro. Depois, foi a vez de Rubens Belfort se engajar neste trabalho voluntário. Há cerca de 30 anos, Rubens Belfort Junior vai ao menos quatro vezes ao ano atuar na prevenção da cegueira nos ribeirinhos. Desde a última década, tem a companhia do filho, Rubens Belfort Neto, o mais novo a seguir a tradição.

“Pode não parecer, mas minha família nunca pressionou para que eu também fosse oftalmo. Em minha casa, por exemplo, tenho três irmãos. Eu sou médico, minhas duas irmãs são administradoras e meu irmão economista", conta Neto. Quando começou a faculdade de medicina, a ideia era ser cirurgião pediátrico. "Optei pela oftalmologia depois do quinto ano. É claro que tem uma influência inconsciente, afinal cresci vendo meu pai lecionando e atendendo pacientes. Mas minha decisão foi sem pressão alguma."

Haja motivos para admirar o pai. E não só Neto viu isso. O mundo também. Rubens Belfort Junior receberá neste domingo (19) o Prêmio Internacional de Prevenção da Cegueira, concedido pela Academia Americana de Oftalmologia, a mais conceituada do setor. Belfort é o primeiro brasileiro a receber essa honra.

De prêmio na mão, o médico vai continuar sua missão. Daqui a duas semanas, Belfort Junior viaja novamente para a Amazônia onde vai operar 400 pessoas da catarata, doença ocular que pode fazer com que o verde da mata fique apenas na memória dos ribeirinhos. Sua equipe viaja antes, para triar os pacientes que precisam do procedimento.

As cirurgias são oferecidas com a mesma segurança de que se fossem feitas dentro de hospitais especializados no Brasil ou mundo afora, bem como o acompanhamento no pós-operatório. “O que caracteriza esse grupo é que a gente consegue dar o mesmo tipo de técnica cirúrgica que é feita nos lugares mais avançados do mundo”, diz Belfort, orgulhoso da sua equipe de médicos voluntários da Escola Paulista de Medicina.

Com o apoio das companhias que fabricam o aparelho, o trabalho feito na Amazônia é totalmente voluntário: ele e seus parceiros de viagem custeiam os gastos com recursos próprios e com os de uma fundação filantrópica portuguesa chamada Champalimaud, que doa uma quantia para apoiar esse trabalho.

Além daqueles que precisam de uma intervenção cirúrgica, há os casos mais simples, mas incapacitantes: a falta de óculos. Como uma população que também vive de pesca poderia encontrar seus peixes... sem enxergá-los bem? Distorções visuais comuns no mundo todo, míopes, astigmatas e hipermétropes são frequentemente encontrados entre a população ribeirinha.

A qualidade de vida dessa população melhora muito com a correção desses problemas. Com apoio de óticas, Belfort conseguiu doação de 25 mil óculos só para esta próxima expedição. Os exames serão feitos, as lentes de grau confeccionadas, os óculos entregues e os olhos de muita gente poderão brilhar por enxergar o redor com nitidez.

E as doenças comuns nas grandes cidades também se manifestam em uma região com menor densidade demográfica. O câncer é um exemplo que não faz distinção de latitudes ou longitudes. Pensando nisso, um projeto para contemplar a região foi inaugurado em novembro passado. O Centro de Oncologia Ocular da Amazônia, coordenado pelo caçula dos oftalmos, Rubens Belfort Neto, atende toda a região Norte.

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