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Estudo feito com jovens agricultores mostrou possível relação entre uso de agrotóxico e queda da qualidade do sêmen

Agrotóxicos podem ocasionar problemas de infertilidade. Um novo estudo realizado no Brasil mostra que existe uma possível relação entre o uso de agrotóxico por agricultores e alterações no sistema reprodutivo. Ao analisar amostras de sêmen de 370 jovens entre 18 e 23 anos, observou-se que os moradores de áreas rurais, e, portanto com maior exposição aos agrotóxicos, tinham declínio da qualidade seminal em comparação com os que viviam na área urbana.

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De acordo com o autor do estudo, Cleber Cremonese, algumas estruturas químicas do agrotóxico são semelhantes as dos hormônios. A semelhança faz com que aos receptores das células (que se ligam a estas substâncias) se confundam e passem a produzir mais ou até mesmo parem a produção de hormônios.

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A observação das amostras identificou grandes diferenças. A estrutura do sêmen foi reduzida entre 15% e 32% nos moradores rurais e com maiores contatos com agrotóxicos. Outro parâmetro analisado foi a motilidade do sêmen, significativamente menor nos jovens rurais do que nos urbanos. Quanto menor for a qualidade do sêmen, maior será a dificuldade de procriar. Os resultados mostram que há maior risco de infertilidade entre os trabalhadores rurais em comparação com os moradores de áreas urbanas.

“Existe uma possível relação entre a queda da qualidade do sêmen dos guris e o agrotóxico. É importante destacar que isto é multifatorial, pode ter relação também com bebida, comida, assim como o agrotóxico pode ser um fator. Porém, é um fator bem pesado. A gente viu que é bem determinante”, afirmou Cleber Cremonese, autor do estudo realizado durante o doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.

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O estudo foi feito na cidade de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, grande produtora de uva, pêssego e ameixa. “Os produtores utilizam muito agrotóxico porque o comprador não quer uma fruta feia”, explica. Independente da cultura, vale destacar que o Brasil é o maior usuário de agrotóxico do mundo, com  a utilização de 20% do total. Em 10 anos houve um aumento de 190% na compra destes produtos.

Cremonese pretende aprofundar o estudo no tema e fazer a mesma pesquisa daqui a dez anos para ver se a qualidade seminal diminuiu ainda mais. O pesquisador acredita que seja uma questão crônica. “Imagina quando eles tiverem 30 anos?”, questiona. Muitos dos jovens que participaram da pesquisa já trabalhavam no campo, com agrotóxico há 20 anos. “Começaram ajudando os pais desde os 13 anos, por aí”, diz.

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Segundo o pesquisador, com o aumento do consumo nacional de agrotóxicos, tanto no agronegócio como na agricultura familiar, crescem as evidências de que a utilização destas substâncias não está apenas relacionada especificamente à produção agrícola, mas se transforma em um problema de saúde pública.

O estudo mostrou que a exposição a agrotóxicos pode ser determinante na desregulação de hormônios sexuais. Esta relação traz como consequência, as alterações hormonais poderiam provocar distúrbios reprodutivos como, desregulação do ciclo menstrual, infertilidade, declínio da qualidade seminal e malformação de órgãos reprodutores, além de câncer de mama e ovário, câncer de testículo e próstata.

Para Cremonese, a exposição crônica aos agrotóxicos e a falta do uso de equipamento de proteção pessoal durante o manuseio do agrotóxico e colheita da safra estão entre os principais problemas associados ao crescente uso dessas substâncias e, consequentemente, ao aumento de problemas na saúde reprodutiva da população rural. Na pesquisa que ele fez em Farroupilha, apenas 45% relataram usar o equipamento de proteção durante o manuseio do agrotóxico.

“As pessoas não sabem mais produzir sem agrotóxico, mas a gente não sabe o que pode acontecer com elas daqui a 20 anos. A gente está lidando com substâncias que ainda não se sabe bem sobre como elas reagem”, disse.

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