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Fabiola Minson, especialista no tratamento de dor crônica, lança livro com relatos de pacientes que aprenderam a controlar a dor; até 40% dos brasileiros sofrem deste mal

Médica Fabiola Minson lança livro voltado para pacientes com dor crônica
Divulgação
Médica Fabiola Minson lança livro voltado para pacientes com dor crônica

Dor crônica, aquela que atormenta pelo menos há mais de três meses, não é um sintoma e deve ser tratada como a doença em si. Seguindo esta máxima, a médica especialista em dor Fabiola Peixoto Minson, resolveu lançar o livro Ufa! chega de dor , contando a história de superação de dez pacientes que sofreram por fibromialgia, dor no câncer, dores de cabeça, lombalgias, endometriose, dor na criança e no idoso, dor pós-cirurgia de coluna, entre outras.

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Os números no Brasil são alarmantes: estima-se que 60 milhoes de pessoas sofram com o problema, que pode, inclusive, desencadear uma série de outras doenças tanto físicas, quanto emocionais. Na metade dos casos, o paciente fica parcialmente ou totalmente incapacitado. De acordo com Fabíola, embora exista tratamento especializado para a dor em todo o País, poucos pacientes sabem da possibilidade de superar o sofrimento causado.

Leia a entrevista abaixo:
iG: Não existe um método único para tratar as várias dores. É preciso investigar, certo?
Fabiola Peixoto Minson: O tratamento é individualizado. Cada dor tem um tratamento específico e para cada pessoa. O médico de dor é de uma especialidade relativamente nova, se a gente compara com outras especialidades da medicina, como cardiologia e ginecologia. Existe desde a Segunda Guerra Mundial fora do Brasil. Por aqui existe há 35 anos.

iG: Tem crescido o número de pessoas com dor?
FPM: Não sei se o número está crescendo, só sei que o número é alarmante: de 30% a 40% da população brasileira sente dor crônica – dor que permanece por mais de três meses e não precisa ser todos os dias. Eu trabalho com isso há 15 anos e não acho que tenha menos dor que há 15 anos, mas hoje o paciente sabe que existe tratamento. Antes era preciso que outro médico indicasse um especialista. Mas hoje tem crescido a procura devido à divulgação da especialidade. O paciente não quer mais sentir dor desnecessariamente.

iG: Por que a senhora decidiu escrever o livro?
FPM: Eu senti que os pacientes não tinham onde se apoiar, que achavam que estavam sozinhos, sem saber que outras pessoas também passaram pelo mesmo problema e superaram. Eu também achava que o paciente no Brasil era muito passivo. Ele chegava e falava: "Me dá um remédio que eu preciso curar a minha dor que eu já tenho há três anos". Não é assim, né? Em muitos serviços que visitei fora do Brasil, a realidade era outra. O paciente chegava e diz: “Já li o livro, doutor. Duzentas páginas”. Dava para ver que, com isso, ele chegava mais aberto para receber todas as orientações. No Brasil, não tinha nenhum livro brasileiro escrito para paciente, apenas algumas poucas traduções de livros estrangeiros. É preciso falar sobre a realidade deles. Para as pessoas se verem no espelho e verem que existem casos semelhantes de sucesso e que o tratamento em parte depende deles e da equipe multidisciplinar. Assim, o paciente vai saber que existe tratamento. Entender que o tratamento tem de ser precoce e que precisa ser seguido seja fazendo exercício, não tendo medo do opioide. São vários os pontos em que o paciente pode se ajudar.

iG: Quais são as principais dores crônicas?
FPM: Dores de cabeças e dores nas costas são as mais frequentes na população. As pessoas vão convivendo e achando que é assim mesmo, que não tem jeito. Só que quanto mais tempo demora para buscar o tratamento, mais difícil é conseguir o alívio. Por isso, todas estas iniciativas, como o próprio livro, são para mostrar que o tratamento precoce é mais eficiente.

iG: Isso porque a dor pode desencadear outros problemas?
FPM: Uma dor mal tratada gera prejuízos físicos e emocionais. A pessoa fica mais inativa, deixa de se movimentar melhor, não dorme bem, fica irritada. Então, isso vai trazendo consequências para o longo prazo.

iG: Inclusive existe uma relação forte entre dor (ou inflamação) e depressão, não é mesmo?
FPM: Toda dor é uma experiência física e emocional desagradável. A dor crônica sempre vai ter estes dois fatores: o físico e o emocional. As vias da dor passam muito próximas das vias da depressão. Tanto que a gente usa antidepressivo para tratar dor, por conta destes neurotransmissores. Pode ser que a depressão venha antes, mas na maioria das vezes a dor crônica é a desencadeante de depressão e ansiedade. A dor leva à depressão e a depressão leva à dor, ou evita que a dor melhore. Aí vai ficando um circulo vicioso. Na verdade, não se sabe o que vem primeiro a dor ou a depressão. Tanto faz. É preciso tratar as duas coisas concomitantemente.

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iG: Normalmente se diz que a dor é um sintoma de algo. Por que tratar a dor?

FPM: A dor não é um sintoma é a própria doença. A dor aguda, dor pós-operatória, por uma queda, um traumatismo, é um sintoma, é uma alerta de que tem alguma inflamação, ou infecção. Mas, a dor crônica, aquela que persiste, é a própria doença.

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iG: O melhor a fazer é atacar a dor e o que ela desencadeia?
FPM: O paciente chega aqui no consultório querendo identificar a causa da dor. E, às vezes, ele fica buscando exames desnecessários, ou até cirurgias desnecessárias. Isso gera muito custo para o sistema de saúde e ele não encara a dor como uma doença. Isso também é um motivo para fazer este livro: mostrar que é preciso encarar a dor por si só. Um exemplo, que está no livro, é a degeneração dos discos da coluna, que começa aos 20 anos de idade. A pessoa pode ter dor dos 20 anos aos 30 anos, aos 40 anos. O desgaste da coluna vai piorar ainda mais com o processo de envelhecimento e é impossível dar uma coluna nova para a pessoa. Não tem como falar em tratar a causa. É preciso tratar esta dor que gera inúmeras consequências.

iG: Tem que ser com analgésico mesmo?
FPM: Muitas vezes vem aquele pensamento: “Ah, não vou usar o analgésico para mascarar a dor”. Não é isso. É preciso usar o analgésico para não deixar que a dor leve a outras consequências como atrofia muscular, consequências psicológicas como depressão. Todo remédio tem efeito colateral, mas a gente sempre tenta combinar o medicamento com baixas doses para ter o mínimo de efeitos colaterais.

iG: Tem serviços de dor em todo o Brasil?
FPM: Sim. Tem serviços públicos e privados. Existe uma gama de possibilidades. Novas técnicas de infiltração de bloqueio, por exemplo, foram descobertas. Novos analgésicos e novas abordagens foram desenvolvidos. Hoje temos equipes multidisciplinares que trabalham de forma integrada. Então, a pessoa está com dor e depressão, por exemplo, já é atendida pelo psicólogo, médio e fisioterapeuta.

iG: Mesmo que não tenha cura, tem como administrar a dor.
FPM: Tem como controlar. Por exemplo, a fibromialgia, que é uma doença que não tem cura e a dor de cabeça com seus altos e baixos. A pessoa tem que aprender a usar alguns artifícios pessoais, como alimentação, fazer exercício físico para ter mais qualidade de vida. É como diabetes e hipertensão. Não tem cura, mas a pessoa pode viver muito bem com estas doenças. O sofrimento é opcional e o tratamento da dor pode dar qualidade de vida.

iG: Existem fatores que ajudam a controlar a dor?
FPM: Sim. Obesidade e sedentarismo pioram a dor, isso é fato. Má postura também piora. Além da falta de sono. Resumindo, é preciso ter uma vida equilibrada. Mas tem outros fatores que a gente não consegue interferir como, a genética e a parte hormonal, por exemplo.

iG: O livro conta as histórias de dez pacientes com diferentes dores crônicas. O que estes pacientes têm em comum?
FPM: A demora em achar uma equipe especializada em tratamento da dor e a incompreensão. Muitos deles estavam se tornando as pessoas chatas. Ninguém da família, ou os próprios médicos, estava acreditando naquela dor. A peregrinação deles me chamou a atenção.

iG: A senhora acha que esta demora no tratamento tem relação com o fato de a dor não ser tratada como doença?
FPM: Tem a ver, sim. Porque às vezes a pessoa olha a ressonância e diz para o paciente que não achou motivo para a dor. Mas pequenas alterações na ressonância da região lombar podem significar muita dor. Já outras alterações maiores podem não resultar em dor nenhuma. São muitas variáveis. A dor é totalmente individual. É preciso não julgar e compreender o paciente.

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