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Sociedades médicas recomendam uso de no máximo até 2 ml, usados para preencher rugas ou deformidades faciais

Andressa Urach
Léo Franco/AgNews
Andressa Urach

A modelo e apresentadora Andressa Urach, de 27 anos, está internada na UTI de um hospital em Porto Alegre com quadro de infecção generalizada causada por uma complicação da bioplastia que fez nas coxas. Andressa recebeu 400ml de líquido preenchedor em cada coxa, quando a recomendação de especialistas é de no máximo 2 ml.

Quando se trata do líquido preenchedor hidrogel, que é absorvido pelo corpo em algum momento, a quantidade deve ser mínima. "O recomendado pelas sociedades médicas é de no máximo 2 ml, usados para preencher rugas ou deformidades faciais", alerta o cirurgião-plástico Marcelo Olivan, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Para ele, utilizar 400 ml é a mesma coisa que implantar uma bomba-relógio.

"Os 400 ml se espalham, ficam ramificados desde a pele até o osso, no meio da gordura, de alguns tendões, dos músculos", explica. Nos casos de complicação, retirar todo o produto é impossível.

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E é aí que mora o perigo. O risco de infecção e complicações aumentam quanto mais tempo o produto ficar no corpo. E há um agravante: segundo Olivan, que não foi o médico de Andressa, a modelo também aplicou o polimetilmetacrilato, mais conhecido por PMMA, que é um gel "eterno", não absorvido pelo corpo. Os riscos desse preenchedor são ainda maiores.

Veja Andressa Urach em 45 imagens:

A presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Denise Stainer, explica que pelo hidrogel ainda ser recente, os dermatologistas tendem a ter cuidado com as aplicações, já que não se sabe o efeito e complicações dele a longo prazo.

O risco de o material ficar cada vez mais tempo no organismo é uma situação chamada biofilme. "Quando a substância é injetada no organismo, pode levar junto alguns tipos de bactérias, formando uma espécie de matriz. Essa matriz começa a agir de uma forma diferente, não cresce como uma bactéria em estado normal, é como se aquele grupo de bactérias tivessem uma personalidade própria", explica Steiner. 

"De repente, quando acontece alguma baixa de imunidade ou doença autoimune, essa matriz começa a se transformar, causando infecção. É como se a baixa imunidade fosse um gatilho para a infecção".

Denise também aponta os riscos do procedimento em si, já que é necessário conhecer muito bem a anatomia do local a ser aplicado. "Por exemplo, perto do queixo passa uma artéria super importante. Se aplicar errado, pode causar necrose no tecido e outras complicações", exemplifica a médica.

Além de o médico precisar conhecer muito bem sobre a droga, é necessário que, para qualquer tipo de preenchimento, o paciente passe por uma série de exames.

"Se estamos aplicando uma substância estranha no organismo, precisamos de um bom histórico do paciente", diz a dermatologista. Esse histórico envolve saber se o candidato ao preenchimento não tem doenças autoimunes, lúpus eritematoso, dermatites, se toma medicamentos imunossupressores ou tem crises de asma frequentes, o que impediria que o preenchimento seja feito.

O caso de Andressa, segundo Olivan, é complicado porque, além do hidrogel, provavelmente há o PMMA junto. "E não tem como retirar, uma vez aplicado", alerta. 

Consequências

"Quando há um problema grande, é necessário fazer uma limpeza cirúrgica, tirar o músculo que morreu, as bactérias, os tecidos sem sangue, para sobrar apenas o vascularizado, onde o antibiótico vai poder agir e controlar a infecção", diz. A consequência dessa limpeza passa longe do objetivo estético, já que podem ficar deformidades. Segundo ele, retira-se partes da perna, e, se não o fizer, é possível que se perca a perna e entre em uma sepse, que é infecção generalizada. "Temos que preservar a vida".

Olivan não recomenda preenchimentos assim, mas sim a prótese de silicone, já que os efeitos dela são conhecidos a longo prazo, e o silicone é encapsulado, permanecendo somente em um lugar. "Se der alguma complicação no silicone, é possível retirar tudo", explica o médico. 

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