Tamanho do texto

Até 2% das crianças são alérgicas à proteína do leite de vaca, condição também conhecida pela sigla APLV; mães relatam dificuldade em encontrar rotulagem clara sobre as substâncias

Mães que têm filhos com alergia à proteína do leite de vaca (APLV) vivem em alerta constante. Não basta apenas restringir o leite de caixinha do filho, mas sim esmiuçar rótulos em busca de nomes como caseína, lactoalbumina, lactoglobulina, lactoferrina, e outra série de termos complicados ou compostos. Tudo isso é leite, que pode acabar com o dia de uma criança, e inclusive colocá-la em sério risco de morte, se a alergia não for controlada a tempo.

Daniele Gehrke Curzel é um exemplo. Mãe de Arthur, de 11 meses e com alergia à proteína do leite de vaca, Daniele leva uma lista de compostos proibidos ao supermercado. A partir de então, é um trabalho de detetive: ler todos os rótulos com atenção e comparar com a lista de mais de 30 itens proibidos. Basta um traço de elementos do leite para Arthur ter reação alérgica. Um carinho descuidado, como um beijo de alguém que acabou de comer biscoitos que contêm leite, por exemplo, é suficiente para o rosto do pequeno inchar. “Não ofereço nenhum alimento ao meu filho antes de ligar no Serviço de Atendimento ao Consumidor”, diz.

>> Confira alimentos que podem conter leite ou traços de leite:


Arthur foi diagnosticado com APLV aos oito meses de idade. “Ele sempre teve muita cólica, refluxo, constipação intestinal, rinite e febre, mas os sintomas tinham diminuído e achávamos que era normal. Com oito meses, no entanto, ele chorou por quatro noites seguidas, com cólicas e intestino preso, usando spray nasal para rinite quatro vezes ao dia”, conta a mãe. O sinal de alerta se acendeu: “O pediatra tinha receitado remédios laxantes, mas nenhum fazia efeito, então pediu o exame de alergia, pelo sangue. Ele fez para 14 tipos de alergias alimentares e outras para alergias respiratórias. A alteração que deu foi no leite”, conta a mãe.

Leia também: Alergia a alimentos pode piorar o humor e causar até depressão

Depois de excluir qualquer coisa com traços de leite da dieta de Arthur, Daniele trocou a substância por soja. “Os sintomas continuaram, só foi melhorar depois da exclusão do leite e da soja”, conta.

Daniele se preocupa quando o filho crescer. “Como ele ainda é pequeno, eu controlo a alimentação dele. A maior dificuldade que encontramos são os produtos industrializados, que não rotulam traços de leite ou soja na embalagem, e isso fez desencadear vários sintomas novamente, ao comer um simples macarrão que não dizia nada que continha leite ou soja”, desabafa.

Daniele é mãe de Arthur, que foi diagnosticado com APLV aos oito meses de idade
Arquivo pessoal
Daniele é mãe de Arthur, que foi diagnosticado com APLV aos oito meses de idade

Coisa séria

O gastroenterologista do Hospital 9 de Julho, Guilherme Andrade, explica que até 2% das crianças nascem com essa predisposição a ter APLV. “A partir do primeiro contato com o leite, elas desenvolvem uma cascata inflamatória, causando a reação alérgica. Isso pode se manifestar em vários órgãos”, conta. “A forma mais comum de se manifestar é por meio de uma diarreia muito grave, em que o intestino da criança fica todo inflamado. Ela pode vomitar e ter diarreia com sangue”, alerta.

O alergologista presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia explica que, diferente da intolerância à lactose, que é a falta de uma enzima para digerir o açúcar do leite, o organismo do alérgico não reconhece a proteína do leite e a trata como uma invasora. “O corpo produz um anticorpo contra ela”, diz. Essa reação, segundo ele, pode ser muito grave. “Pode dar anafilaxia, urticária, dificuldade para respirar, pode levar ao choque anafilático e até à morte em casos graves”, alerta.

Veja ainda:
Crianças com alergia ao leite não devem tomar vacina contra sarampo
Confira quais são os 10 alimentos que mais provocam alergia

É possível, em alguns casos, dessensibilizar uma pessoa para que o organismo acostume com a proteína e não tenha mais reações fortes. Com o acompanhamento médico, algumas crianças se adaptam a consumir leite em pequenas quantidades sempre crescentes, de 15 a 20 dias, até chegar ao leite pleno, explica Perini. Se o organismo tiver se adaptado, vem outra fase: “A criança terá que, obrigatoriamente, consumir leite todos os dias da vida”, explica ele.

Sem a dessensibilização, normalmente, essa alergia se resolve naturalmente depois de dois anos de vida. “Depois disso, pode ser que a criança vá desenvolvendo uma tolerância, porque entra em contato com outros tipos de proteína e pode ser que passe a aceitar o leite. Mas isso não é regra”, diz Andrade.

#PõeNoRótulo

Mãe de um garoto alérgico à proteína do leite de vaca, Cecília Cury foi uma das fundadoras da campanha #põenorótulo. Ela comprovou na prática a falha na rotulagem de alimentos. Cecília defende que os rótulos sejam claros, com um “contém leite” ou “pode conter traços de leite”, em vez de ter de procurar nomes de compostos nos rótulos, bem como ter que investigar se o alimento pode ter ou não traços de leite.

“No começo da dieta do meu filho, caímos em muitas ciladas. Eu não imaginava que produtos que não alertavam sobre traços de leite poderiam ter traços. Oras, se esse produto pode ter traços e avisa, porque o outro omite? Aprendi na marra, com reações”, conta ela.

Cecília passou a ligar nos Serviços de Atendimento ao Consumidor para questionar sobre os componentes de cada alimento. “Só que os SACs não atendem 24h e nem sempre aceitam chamadas de celular, na hora em que o tema é crítico: posso comprar ou não?”, reclama ela. “Além disso, há SACs que se limitam a dizer: ‘leia o rótulo ou pergunte ao seu médico’, mas isso não resolve”, rebate ela.

“Há SACs ainda que não fazem ideia de como é a produção e nos responde por impulso: tem traços de tudo ou é seguro. Já tivemos reações por causa de SACs que respondem baseados apenas nos rótulos”, ressalta.

Cecília comemora que, depois da pressão da campanha #põenorótulo, algumas empresas estão sinalizando melhor os componentes dos alimentos. “Em síntese, caminhamos muito, há rótulos mudando ‘por conta’, mas ainda há muito o que trilhar, porque os rótulos ruins são um cenário mais perigoso para alérgicos, já que acabam comparando informações que partem de premissas diferentes”, diz ela, se referindo à falta de uma lei que exija uma padronização.

Leia também:
Como atenuar crises de alergia
Produtos cosméticos podem ter efeitos colaterais

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.