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Kamila enfrentou o diagnóstico devastador já suspeitando da gestação; tratamento quimioterápico teve de ser feito enquanto o bebê crescia dentro do útero dela

Kamila Kaiper Sauze, na época com 35 anos, havia voltado de uma consulta no ginecologista em que fazia exames anuais de rotina, como Papanicolaou, mama e outros. Já em casa, ao tomar um banho depois da consulta, notou que havia um nódulo duro ao lado da mama direita, abaixo da axila. Achou estranho, mas esperou duas semanas para ver se desaparecia. Como não sumiu, ligou para a clínica e informou que o médico não havia percebido essa alteração no dia do exame, marcando assim uma nova consulta.

O médico pediu uma biópsia, e o resultado veio suspeito. Para confirmar o que o especialista previa, Kamila passou por uma biópsia maior. “Ao ver a assistente do médico entrar com uma caixa de lenços, já deduzi o resultado: câncer”, relembra.

Arquivo pessoal
"O bebê veio para me dar forças, porque se eu desistisse, não estaria desistindo apenas da minha vida, mas também da vida de um ser pequenino e inocente”, conta


O diagnóstico caiu como uma bomba para a ela, que suspeitava estar grávida. “Comentei com o médico que havia uma possibilidade muito grande de que eu estivesse grávida. Ele perguntou se eu tinha certeza, eu disse que quase 100%”.

Kamila conta que uma enfermeira trouxe um teste de urina, mas o resultado veio negativo. “Continuei afirmando que estava grávida e que, por causa da concepção ter acontecido há poucos dias, o nível dos hormônios não era alto o suficiente para acusar no exame”, diz.

Choque

Com o noivo fora da cidade e sem família no país (Kamila mora nos Estados Unidos), o mundo desabou, lembra ela. “Simplesmente entrei no carro e voltei ao trabalho. Só então me dei conta de que não fiz perguntas, tão grande foi o choque. Fiquei dormente, muda, nem sequer sabia qual tipo de câncer tinha. Depois, soube que era um carcinoma ductal invasivo”.

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Quando a gravidez foi confirmada, Kamila continuou atordoada. “Não conseguia pensar direito ou criar um plano de ação. Já tinha um filho de oito anos e esperava outro. Como iria conciliar o tratamento com a gravidez?”, desesperou-se. “Será que eu iria resistir? E o bebê? Fiquei muito preocupada, apreensiva, nervosa, mas ao mesmo tempo acreditava em Deus, e que tudo acontece por um motivo. O bebê veio para me dar forças, vontade de vencer, porque se eu desistisse, não estaria desistindo apenas da minha vida, mas também da vida de um ser pequenino e inocente”, conta.

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Kamila passou por uma cirurgia e foram retirados 19 nódulos linfáticos, sendo um deles positivo para o câncer. A quimioterapia só pôde ser feita depois que ela completou três meses de gestação, pelo alto risco de má-formação fetal nesse período.

“O oncologista não gostava muito da ideia de que eu estivesse grávida. Ele afirmou que a gravidez me colocaria em risco e que também ao final do tratamento eu não poderia ser mãe novamente”.

O noivo de Kamila, que até então não tinha filhos, disse para o médico que trabalhasse em prol dessa gravidez e que ela não iria abortar o bebê. “A agonia e fraqueza começavam no terceiro dia depois da quimioterapia e duravam até o sexto ou sétimo dia. Quando eu melhorava e voltava ao trabalho até ser o dia da quimioterapia de novo. O intervalo era de três semanas”, conta.

Contrações

Depois disso, outro problema apareceu. Kamila começou a ter contrações leves a cada sessão de quimioterapia. “Dia 25 de dezembro fui para o hospital com dores fortes e contrações. Eu estava com 25 semanas de gestação”, conta. Dois dias depois, teve de começar quimioterapia com uma droga mais forte. “Essa droga tem muita ocorrência de reações, e, com apenas 6 ml intravenoso, eu tive um choque anafilático. Meu peito apertou, não conseguia respirar e a barriga endureceu e contraiu muito. Em questão de segundos a minha sala de infusão se encheu de enfermeiras e o médico oncologista me aplicando injeções anti-histamínicas”.

Com isso, Kamila foi levada ao centro de maternidade imediatamente, pois as contrações aconteciam de três em três minutos. “Essa foi a segunda vez que tiveram de parar o parto com injeções. Desse dia em diante, as contrações eram frequentes e muito dolorosas”, relembra.

Apesar de tantas dores e sofrimento, o filho de Kamila estava crescendo firme e forte. “No dia 15 de janeiro meu médico me ordenou repouso completo, pois com 27 semanas de gestação o colo do útero já estava fininho e dilatando. Um pouco mais de uma semana depois, após outra quimioterapia, fiquei internada 13 dias em repouso, monitorada 24 horas e tomando medicações para controlar as contrações, além de narcóticos para as dores fortes”.

Kamila conta que, psicologicamente, estava destroçada, mas teve muito apoio do marido, que passava todas as noites no hospital com ela. A família também teve papel importante para que ela continuasse sua luta.

O ginecologista de Kamila não queria que ela recebesse mais quimioterapias grávida. E dia 11 de março foi a data da alegria: Joaquim nasceu. “Foi lindo e também um alívio. Por tanto tempo tive dores e contrações, estive tantas vezes no hospital em trabalho de parto precoce, tantas noites sem dormir”, conta.

Com 2,4 kg, o bebê nasceu saudável, embora um mês prematuro. “Sua cabecinha veio coberta de cabelos, enquanto eu estava careca”, emociona-se ela.

Alguns dias depois, Kamila fez a última sessão de quimioterapia, e depois outras 33 sessões de radiação no seio afetado, costas e pescoço. “Após esse tratamento, iniciei um regime de quimioterapia oral que durará 10 anos. No dia 26 de junho, depois de um dos testes mais avançados para detectar câncer, fui declarada em remissão, ausência de câncer ativo”, comemora ela.

“Hoje, meu ‘bebê-milagre’ está com um ano de vida. Milagre porque foi isso o que os médicos falaram: ‘seria um milagre se ele sobrevivesse a tudo’”.

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