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Por conta de uma compressão na medula, João Panicacci foi parar numa cadeira de rodas; terapia com o animal Lampião tem o auxiliado a recuperar autonomia perdida

Toda a semana João Panicacci, de 57 anos, pede para que a mulher compre cenouras na mercearia. Na segunda-feira de manhã, elas são cortadas em rodelas e mais tarde dadas como um mimo para Lampião, um cavalo que mora no Jockey Club de São Paulo. Nada mais justo, há seis meses o animal tem sustentado os avanços de João na tentativa de recuperar a capacidade de andar. 

A capacidade de sustentar a parte do superior do corpo foi conquistada já na sexta sessão. Em pensar que João ficou apreensivo no começo do tratamento. Como seria possível permanecer equilibrado sobre o animal e ainda dar voltas no picadeiro? Ele não conseguia mexer braços, pernas, nem manter o corpo ereto. 


Mas tudo foi evoluindo rapidamente conforme as semanas e cada sessão de meia hora iam passando. Hoje ele consegue mexer o braço direito e as duas pernas. Uma vitória para quem há seis anos só conseguia movimentar os olhos e falar.

“O caso dele é surpreendente, pois a evolução foi muito rápida e além do esperado”, conta Letícia Junqueira, fisioterapeuta e instrutora de equoterapia. Para João, além de todos os avanços que pode perceber existe também um fator importante: “É muito legal, né?”

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De acordo com Samantha Panicacci, filha de João, além de fazer bem para o desenvolvimento físico do pai, a equoterapia tem aumentado sua autoestima. “Acho que ele se sente bem com o cavalo. Porque no final das contas, é uma coisa imponente. Você está lá em cima. Uma sensação diferente de estar em uma cadeira de rodas”. 

Tudo de repente

O ex-bancário começou a sentir um repentino formigamento nas mãos em 2006, logo depois vieram espasmos e muita dor. Ele tinha uma compressão da medula, entre as vértebras C3 e C4, na altura da cervical. “Os médicos disseram que se ele não operasse ficaria tetraplégico, mas existia um risco alto de sequelas”, conta Samantha Panicacci, filha de João.

Toda a semana João Panicacci pede que a mulher compre cenouras para alimentar o cavalo Lampião
Edu Cesar
Toda a semana João Panicacci pede que a mulher compre cenouras para alimentar o cavalo Lampião



Não se sabe exatamente o que causou a compressão. “Eu costumava jogar bola. Uma vez com uns 20 e poucos anos levei um tombo e bati a cabeça no chão. Mas também pode ser um problema genético ou um acidente qualquer. Bom, pode ser tanta coisa que nem dá para saber”, diz.

Em setembro de 2009, ele fez a primeira cirurgia, mas saiu de lá com o lado esquerdo paralisado. “Eu fui para lá de ônibus e voltei não conseguindo andar, só ficar em pé, apoiado”, relembra João.

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Uma nova cirurgia foi marcada para dezembro do mesmo ano, os riscos também eram altos. “Depois dessa, eu sai completamente paralisado. Até mesmo órgãos internos. Só conseguia mexer os olhos e falar”, diz João. O diagnóstico médico era de tetraparesia espástica, sequela de pós cirúrgico de descompressão medular.

Ele então passou a fazer fisioterapia e aos poucos foi conseguindo mexer o braço direito. Em 2014, chegou a ter alta do tratamento, mas ainda apresentava um quadro muito ruim. Ele não se mexia (só o braço os olhos e a boca), havia fraqueza muscular, alteração do tônus muscular e dos reflexos nos braços e pernas. Hoje ele vive em uma cadeira de rodas.

João pratica um dos exercícios equoterapia com auxílio da fisioterapeuta e do cavalariço
Edu Cesar
João pratica um dos exercícios equoterapia com auxílio da fisioterapeuta e do cavalariço





“Foi aí que a gente descobriu a equoterapia e avancei bastante. Eu costumava andar a cavalo quando era mais novo, em Cajamar (SP). Olha, tudo o que eu puder fazer para melhora, eu vou fazer. O médico disse que avanço mesmo eu teria após cinco anos, então está de acordo com o prognóstico dele, não é?”, disse.

Desde 6 de janeiro deste ano ele passou a fazer aulas de equoterapia toda segunda-feira, no Jockey Club de São Paulo. “Durante o deslocamento que faz com o [cavalo] Lampião, ele recebe cerca de 2 mil estímulos cerebrais e ajustes tônicos que percorrem a coluna através da medula espinhal, chegando ao sistema nervoso central”, explica Letícia. 

Ocorre mais ou menos assim: o movimento do cavalo, seja o andar ou o trote, é sequenciado e estimula o corpo inteiro, tanto a parte física quanto a mental. É o chamado movimento tridimensional do cavalo (para frente/ trás; para cima/baixo; para os lados) que faz este estimulo, algo que João não exercitava numa cadeira de rodas. 

A evolução foi rápida e traz felicidade e também esperança para João e toda a sua família de que ele possa um dia voltar a andar. “Eu não paro de buscar algo que possa me ajudar. Até aqui em casa a gente procura fazer alguma coisa, me mexer para não ficar parado. Tudo que faça eu ir pegando o controle do corpo”, diz. 

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