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Fabiana passou meses de angústia e de espera por um milagre até Gabriel, de 15 anos, ser apontado como doador. Família agora atua unida para ampliar número de transplantes no País

O Brasil ainda estava em ritmo de carnaval enquanto, naquela sexta-feira dia 20 de fevereiro, Fabiana Ikeda se recuperava do procedimento cirúrgico. O sono tinha a vigília de Gabriel, filho mais velho da funcionária pública. Ele exibia singelas marcas no braço que denotavam o que ocorrera horas antes: naquela data, o garoto de 15 anos foi protagonista do transplante que prometia salvar a vida da mãe.

Fabiana convivia com a leucemia e a cura só seria uma possibilidade caso recebesse doação do tecido medular compatível. A técnica é indicada para os casos em que o tratamento por quimioterapia não é suficiente para sanar este tipo de câncer que adoece as células do sangue.


Até a cirurgia ser realizada e Gabriel ser apontado como uma luz no fim do túnel, a angústia pontuou a espera de Fabiana. "Meu irmão fez os exames de compatibilidade, meu marido Daniel também. Nos dois casos, o resultado foi negativo. Já tinha assimilado que precisaria contar com o milagre de encontrar algum anônimo compatível e, assim, aumentar as minhas chances de sobrevivência", lembra ela, que é paulistana e mora em Brasília.

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Com a impossibilidade entre os adultos consultados da família Ikeda, os médicos foram em busca de um doador no banco formado pelo Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Em geral, os transplantes entre família costumam ser de pais para filhos ou entre irmãos. Talvez, por isso, a relativa demora em pensar no Gabriel como doador.

A esperança era impactada por mais um complicador: há ainda mais dificuldade de encontrar doações para pacientes orientais, como é o caso de Fabiana.

Fabiana recebe o transplante do filho Gabriel
Arquivo pessoal
Fabiana recebe o transplante do filho Gabriel

A notícia

O estalo de que algo não estava bem com Fabiana veio com o cansaço permanente e as dores no corpo que não cessavam. Mãe de Gabriel e Tarsila, 10 anos, profissional  e esposa, ela passou algum tempo creditando os sintomas às complicações da tripla jornada. Então as manchas roxas pelo corpo acederam a luz vermelha. Os resultados laboratoriais, divulgados em outubro de 2014, evidenciaram que ela fazia parte dos 11 mil casos novos de leucemia registrados todos os anos no País, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Ainda que o mundo tivesse virado de ponta cabeça com aquele diagnóstico, ainda que o processo desconfortável com a quimioterapia fosse uma necessidade cada vez mais próxima, Fabiana Ikeda relembra que o mais difícil foi a ausência imposta. "Precisei ficar afastada dos meus filhos e do meu marido. Como qualquer infecção oportunista poderia ser fatal por causa da leucemia, fui internada em São Paulo, sendo que a nossa vida estava em Brasília", rememora.

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Mas foi imediatamente após a notícia se instalar que Fabiana conta que sua família já começou a endossar que seria o caminho de sua salvação.

"O Daniel, meu esposo, imediatamente começou uma campanha na internet ( Ajuda Fabiana ) para aumentar o número de doadores de medula . O Gabriel, mesmo sem nem imaginar que poderia ser meu doador, fazia panfletagem sobre a importância do transplante na escola, na igreja, com os amigos. A Tarsila era de um carinho sem fim. Até apresentação de balé ela fez no quarto do hospital", pontua.

O encontro

A ampulheta das horas corria, quando Daniel aventou: "Nosso Gabriel já está tão grandão, com 1,78 de altura. Será que ele não poderia doar a medula a você?".

A dúvida foi levada aos médicos e o "sim, é possível" foi reforçado quando os testes laboratoriais mostram compatibilidade de 60% entre mãe e filho.

'Encontrar um doador compatível  é como encontrar sua alma gêmea', diz Fabiana
Arquivo pessoal
'Encontrar um doador compatível é como encontrar sua alma gêmea', diz Fabiana

Naquele dia de ressaca carnavalesca, o menino - que chegou ao mundo de forma inesperada quando Fabiana tinha só 22 anos - arregaçou as mangas. Doou o sangue para que as células tronco fossem filtradas e a medula pudesse ser implantada na mãe.

Além de uma nova vida, iniciava ali uma parceria da família para conseguir ampliar o número de doadores de medula no Brasil.

Persistência

A persistência em encontrar um doador mostrou que, neste caso, a compatibilidade estava no próprio núcleo familiar. Mas nem sempre é assim. Por isso, Fabiana, Daniel, Tarsila e Gabriel continuam empenhados e persistentes em conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. "Encontrar um doador compatível  é como encontrar sua alma gêmea. É um gesto que só faz bem. Tanto para quem doa quanto para quem recebe", diz Fabiana que comemorou sua vitória familiar com pão caseiro feito pela Tarsila em um piquenique ao ar livre organizado por Gabriel.

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