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Secretária Geral da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica explica por que casos de câncer estão aumentando e como tratamento com imunoterapia pode mudar esse cenário

Um estudo publicado no periódico JAMA mostrou que os casos de câncer têm aumentado em todo o mundo. Entre 1990 e 2013, a mortalidade aumentou de 12% para 15%, embora as pesquisas para tratar a doença tenham mostrado resultados promissores. Diante de um cenário em que prevê que o número de casos de câncer no mundo pule de 14 milhões em 2012 para 22 milhões em 2025, é preciso entender a razão de a humanidade estar vivendo praticamente uma pré-epidemia da doença e quais são as chances individuais de sobreviver a uma neoplasia.

Estar bem fisicamente e mentalmente é essencial para o combate de um grande número de doenças e também do câncer, afirma oncologista
Thinkstock/Getty Images
Estar bem fisicamente e mentalmente é essencial para o combate de um grande número de doenças e também do câncer, afirma oncologista

A oncologista Clarissa Mathias, membro do Comitê Internacional da ASCO (Sociedade Americana de Oncologia Clínica) e Secretária Geral da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica sobre câncer e imunoterapia, explica a razão de os casos de câncer estarem aumentando e quão promissora é a imunoterapia, uma nova forma de tratamento em que o próprio sistema de defesa do corpo se livra do tumor.

iG: Se as terapias contra o câncer estão se tornando mais eficazes, porque a mortalidade pela doença aumentou de 12% para 15% entre 1990 e 2013?
Clarissa Mathias:  É preciso lembrar que houve um grande avanço da medicina na detecção da doença. Nos últimos 20 anos, os diagnósticos ganharam em precisão e abrangência. Essa evolução tecnológica, aliada aos estudos desenvolvidos, permitiu a descoberta de novas terapêuticas mais assertivas. Nesse contexto, surgem as terapias-alvo como uma importante inovação no tratamento para o câncer porque atingem somente a célula doente do paciente. Outro fator importante é que foi reduzida a incidência de outras causas de mortalidade mais evidentes no passado como, doenças infecciosas e cardiológicas. Com isso, houve aumento da expectativa de vida, cenário que propiciou uma incidência maior de câncer.

Clarissa Mathias é membro do Comitê Internacional da ASCO e Secretária Geral da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica
Divulgação
Clarissa Mathias é membro do Comitê Internacional da ASCO e Secretária Geral da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica

iG: Diante desse aumento, o que é possível fazer para prevenir o câncer?
Clarissa Mathias:  O câncer é um tipo de doença que acomete as células saudáveis do paciente, causando mutações genéticas. A classe médica não considera que esta seja uma doença passível de prevenção pela adoção exclusiva de hábitos saudáveis. No entanto, os especialistas defendem que a junção de medidas importantes possa vir a contribuir com a prevenção de uma série de doenças, incluindo o câncer. Isso envolve controlar o peso, adotar hábitos saudáveis (tais como evitar o tabagismo e a ingestão excessiva de álcool), ter uma dieta equilibrada e a praticar regularmente exercícios físicos.

De forma geral, estar bem fisicamente e mentalmente é essencial para o combate de um grande número de doenças e também do câncer. Porém, a origem da mutação das células que causa o desenvolvimento de tumores e cânceres está diretamente relacionada com o tipo de câncer e com o órgão acometido pela doença de cada paciente. Por exemplo, no caso do câncer de pulmão, os cientistas atribuem ao tabagismo à causa central para o desenvolvimento da doença. No caso do câncer do colo de útero, o principal agente é o HPV (vírus) e assim por diante, com cada tipo de câncer.

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iG: Quão importante é uma boa alimentação para prevenir o câncer? O que acontece quando uma pessoa negligencia esses cuidados ao longo da vida?
Clarissa Mathias:  Não existem estudos que comprovem a importância da alimentação. Mas, há o fato de que pacientes orientais apresentam uma baixa incidência de câncer de mama quando expostos à dieta oriental, e esta incidência se iguala àquela da população ocidental quando essas pessoas migram para o ocidente e mudam sua dieta. A obesidade também aumenta muito o risco de desenvolvimento de neoplasias.

iG: Como funciona a nova terapia, chamada de imunoterapia, no tratamento do câncer?
Clarissa Mathias:  A imunoterapia é um tratamento que estimula o sistema imunológico do paciente para combater o câncer. Esse anticorpo consegue reverter o bloqueio de um processo que o tumor realiza nas células dos pacientes e que impede a atividade do sistema imunológico. Ou seja, fortalece as defesas do próprio paciente a combater a doença.

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iG: Podemos considerar a imunoterapia um tratamento promissor?
Clarissa Mathias:  As expectativas para o uso da imunoterapia nos tratamentos para diferentes tipos de câncer são muito positivas. O tratamento permite que o próprio sistema imunológico (de defesa) do organismo reconheça as células tumorais como inimigas e as destrua. Algumas vezes, de forma permanente.

Nessa última edição do ASCO 2015, tivemos a apresentação do estudo POPLAR que verificou a ação do anticorpo monoclonal atezolizumabe para o tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células, o mais letal em todo o mundo. Essa molécula, que pode se transformar em um medicamento futuro para o tratamento de câncer de pulmão de não pequenas células, apresentou resultados impressionantes. Demonstrou dobro de sobrevida em 287 pacientes, em relação ao tratamento prévio com quimioterapia docetaxel. Isso comprova combate efetivo da doença com o fortalecimento do próprio sistema imunológico do paciente. 

iG: Em tese, essa nova terapia de fazer com que o próprio organismo ataque o tumor valeria para qualquer variação da doença?
Clarissa Mathias:  É preciso confirmar a efetividade de cada imunoterapia, por meio de testes, antes de afirmarmos tal possibilidade. O estudo POPLAR, por exemplo, tem foco em verificar a ação da molécula atezolizumabe no tratamento dos tipos de cânceres de pulmão de não pequenas células. E mesmo assim, os resultados ainda estão em fase preliminar.

iG: A imunoterapia já é uma realidade em hospitais brasileiros? Se sim, para quais tipos de câncer ela é usada?
Clarissa Mathias:  Sim, mas o único imunoterápico aprovado no Brasil é o ipilumumabe, aprovado para o tratamento de melanoma, que é um tipo de câncer de pele.

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