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Alguns meses após cortar os fios, Giovanna brincou de fazer um exame de vista junto com a mãe e reclamou que a visão estava embaçada e com "uma sujeirinha preta"

Giovanna, de quatro anos, estava com o cabelo batendo na cintura na época do seu aniversário, em abril deste ano. Com o tema ‘Frozen’ já escolhido para a comemoração, ela manteve o cabelo longo para representar melhor a personagem Elsa. A promessa feita à mãe foi que logo depois do aniversário cortaria o cabelo e doaria os fios para a confecção de perucas que cobrissem a cabeça de crianças com câncer, que têm queda causada pela quimioterapia. E ela cortou.

Antes de doar, a pequena Giovanna prepararia uma cartinha expressando o desejo de ver esse cabelo transformado em peruca. Na mesma época, Mariana Campos, mãe da menina, viu um reflexo estranho no olho direito, mas achou que não era nada. “Deixamos passar porque estávamos de férias”, conta.

O tempo, então, foi passando. Em 27 de julho, Giovanna não quis ir ao curso de férias que estava frequentando e, por ser aniversário do pai, preferiu ficar em casa e acompanhar a mãe, que iria renovar a carteira de habilitação.

“Ela foi comigo e quis fazer tudo o que eu estava fazendo no Detran (Departamento Estadual de Trânsito). Na hora do exame médico, ela quis participar e o médico a deixou 'brincar' de fazer. Ela falava que estava vendo o azul, o amarelo e outras cores”, conta Mariana. “Quando cheguei em casa, eu disse para meu marido que estava com dificuldade de enxergar através do olho direito. Giovanna, então, disse que foi difícil para ela também. Me assustei. Como tinha sido difícil?”, relembra a mãe.

Mariana resolveu examinar o olho da filha. “Perguntei como estava enxergando e ela me disse que estava embaçado e com uma sujeirinha preta. O outro olho, no entanto, estava normal”.

Antes de doar os fios, a pequena Giovanna prepararia uma cartinha expressando o desejo de ver seu cabelo transformado em peruca para crianças com câncer
Arquivo pessoal
Antes de doar os fios, a pequena Giovanna prepararia uma cartinha expressando o desejo de ver seu cabelo transformado em peruca para crianças com câncer

Algo de errado

Mais do que depressa, Mariana e o marido marcaram um oftalmologista para consultar a pequena. “Levei minha filha ao médico, que examinou e disse que havia algo de errado na retina, mas não tinha certeza do que era. Ele a encaminhou para outro especialista”, diz.

O outro médico, conta Mariana, diagnosticou um nódulo no olho da menina, mas não soube afirmar se era um câncer. Foi quando um especialista em retinoblastoma, câncer de olho mais comum em crianças de até cinco anos, conseguiu fechar o diagnóstico: era câncer.

A garota começou o tratamento no GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e a Criança com Câncer) com quimioterapia intra-arterial, em que um cateter é inserido pela virilha e percorre o corpo até chegar na artéria ocular, onde o quimioterápico é inserido. “Não é aquela quimioterapia que estamos acostumados a ver. É uma quimioterapia direcionada”, conta Mariana.

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A mãe conta que a rotina se manteve com pequenos inconvenientes. “É vida normal. Ela fica um pouco enjoada no dia do tratamento e não pode fazer muito esforço com a perninha porque o cateter é inserido pela virilha, mas não tem queda de imunidade. O máximo que pode acontecer é cair um pouco dos cílios e sobrancelhas”, conta.

Visita ao médico

Pelo temor de acontecer algo e quimioterapia local não poder ser mais usada, tendo de partir para a tradicional, a garotinha suspendeu temporariamente o envio do cabelo pelos Correios. “Como vimos outro menino em tratamento que a artéria ocular fechou, não permitindo mais que ele fizesse quimioterapia local, achei que, se isso acontecer, poderia usar o cabelo dela mesma”, conta a mãe se referindo a uma possível peruca.

De qualquer forma, a mãe de Giovanna afirma que o cabelo será doado pela filha e vai emoldurar o rosto de alguma criança com câncer. “Com o contato com o GRAACC, ela irá pessoalmente entregar para alguma criança”.

Diante da experiência dolorosamente vivenciada com a filha de quatro anos, Mariana faz um apelo: “Temos que falar sempre da importância de levar as crianças de zero a cinco anos no oftalmologista, de seis em seis meses. Quanto mais cedo se descobre o câncer, maior a chance de cura”.

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