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Médico desfaz mitos sobre o zika vírus: "Mensagens em grupos de conversa podem conter dados alarmantes e desprovidos de fundamentação, o que só gera pânico em geral"

O Brasil está passando por um aumento significativo nos casos de infecção por Zika Virus. Este vírus pertence à família Flaviviridae, conhecida por possuir vírus que causam outras doenças - velhas conhecidas de nossa população - como a dengue. Ele recebe essa denominação por ter sido descrito, inicialmente, próximo a uma floresta em Uganda, que se chama Zika.

Zika vírus: médico fala sobre microcefalia e outras manifestações neurológicas e desfaz mitos
Frederico Haikal / Vertica Tecno
Zika vírus: médico fala sobre microcefalia e outras manifestações neurológicas e desfaz mitos


Como toda infecção viral, o acometimento pelo Zika virus leva a um mal-estar geral, dores pelo corpo, podendo haver também dor nas articulações e febre. Apresenta ainda manchas avermelhadas pelo corpo e vermelhidão ocular.

Sintomas

Os sintomas em geral duram cerca de sete dias e, em 80% dos casos, podem ser confundidos com os de uma gripe forte, doença também causada por vírus.

Outros países já apresentaram, no passado, epidemias de Zika vírus, sendo a mais recente na Polinésia Francesa.

No Brasil, o aumento da incidência vem sendo notado pelas autoridades desde o final do ano passado, mas somente agora, ao se notar um aumento na incidência de microcefalia associada a regiões com aumento da incidência do Zika virus, ganhou ampla divulgação na mídia.

Tire algumas dúvidas sobre a ação do zika vírus nas mulheres grávidas:

Microcefalia

A microcefalia é uma má formação do crânio, que por sua vez se desenvolve graças ao crescimento e desenvolvimento do cérebro no feto.

Existem outras causas já bem conhecidas de microcefalia, sendo as principais toxoplasmose, citomegalovirus, rubéola, desnutrição e abuso de substâncias tais como alcool e drogas ilícitas.

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A  microcefalia é causada na fase de desenvolvimento fetal; a  criança já nascida não está sujeita a esse risco
BBC
A microcefalia é causada na fase de desenvolvimento fetal; a criança já nascida não está sujeita a esse risco

Gestantes

Em todas as causas, o período de maior risco para a gestante e para o bebê está compreendido entre a oitava e a décima-sexta semanas de vida intra-uterina, ou seja, entre o segundo e o quarto mês de gestação. Neste período, o cérebro está em franco desenvolvimento, com rápida multiplicação de suas células e aumento de tamanho. O aumento de tamanho cerebral, por sua vez, “empurra" os ossos do crânio (ainda não solidificados) de dentro para fora, fazendo com que a circunferência cefálica aumente de tamanho.

Qualquer fator externo como os acima citados (toxoplasmose, citomegalovírus, rubeola, alcool, drogas) pode interferir no desenvolvimento cerebral adequado, fazendo com que o encéfalo não aumente tanto de tamanho e, por consequência, não “empurre" os ossos do crânio em desenvolvimento como deveria, resultando na microcefalia.

O que as autoridades brasileiras corretamente identificaram foi um aumento significativo dos casos de microcefalia (que atualmente têm uma incidência cerca de dez vezes maior do que o habitual). Buscando um fator em comum entre estes casos, foi identificada a infecção por Zika em vários deles. A isto, em medicina, se dá o nome preliminar de associação.

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O que isto quer dizer?

Quer dizer que os casos de microcefalia estão associados aos de Zika virus, acontecem em conjunto. Esta conclusão não afirma, necessariamente, que o Zika virus é a causa da microcefalia, pois é necessária uma ampla investigação para afastar outros fatores conhecidos que podem causar microcefalia.

Para melhor compreensão, vamos imaginar a seguinte situação: a rubéola é uma causa conhecida de microcefalia, já bem definida. E se, hipoteticamente, todos os pacientes que tenham sido diagnosticados com microcefalia possuirem o histórico de infecção por Zika e por Rubéola? Nesta hipótese, está claro que a presença da Rubéola justifica o aumento da microcefalia, apesar da associação ao Zika ser observada.

O mesmo raciocínio se repete para todos os outros fatores causadores de microcefalia. Desta forma, é necessária a ampla investigação para excluir outras causas que possam causar microcefalia, para somente aí afirmar, sem sombra de dúvidas, que a microcefalia é mesmo causada pelo Zika.

No momento o que existe é esta forte associação, indícios muito grandes de que realmente há uma relação de causa e efeito.

E é exatamente por esta associação e pela prevenção ser relativamente simples que as autoridades desencadearam amplo processo de combate ao transmissor do vírus, o Aedes aegypti.

Vitaminas e citronela

O combate ao transmissor envolve medidas de eliminação dos focos de reprodução do mosquito, tais como locais em que a água fique parada, e medidas para prevenção da picada do mosquito, tais como uso de repelentes, aumento na ingestão de vitaminas do complexo B e uso de soluções caseiras como Citronella (em óleo ou in natura) diluída e empregada na limpeza de ambientes.

Neste sentido, é de fundamental importância a conscientização e colaboração de todos, que além de preservarem sua própria saúde e de familiares, contribuirão para livrar a nação de mais este mal.

As autoridades já iniciaram ampla campanha de divulgação e estão empregando todos os recursos para que equipes visitem os locais mais propensos à proliferação do mosquito no intuito de vistoriar e aplicar remédios específicos nos possíveis focos.

Há que se destacar neste esforço o emprego do Exército Brasileiro, que disponibilizou 25 mil homens e mulheres para atuarem junto às autoridades, somando forças para eliminar o mosquito e reduzir a incidência dos casos na região nordeste.

Muito se tem falado e mensagens tem se espalhado por grupos de conversa, por vezes com dados alarmantes e desprovidos de fundamentação, o que só propicia pânico em geral.

Alguns mitos precisam ser desfeitos: 

1.  foi detectada presença do vírus em amostras de leite materno e no sêmen humano.  O que não se encontrou até o momento, no entanto, foi nenhum paciente que tenha sido infectado por essa via. Desta forma, pode ser que apesar do vírus estar presente ele não tenha condições de promover doença. Essa via de contágio deve ser considerada como potencial, ainda não comprovada, ou seja, trata-se  de uma possibilidade, e não de uma probabilidade;

2. não foi comprovado ainda que a infecção pelo Zika virus seja capaz de desencadear, por si só, manifestações neurológicas graves. Sabe se que houve um aumento na incidência da Síndrome de Guillain Barré (doença neurológica auto-imune, que pode provocar alterações como fraqueza, diminuição da sensibilidade e incoordenação motora, usualmente de caráter transitório) em pacientes que tiveram Zika virus. Há que se ressaltar, no entanto, que a associação entre Zika e Guillain Barré não é tão forte e evidente quanto entre Zika e microcefalia;

3.  a microcefalia não se desenvolverá em crianças já nascidas se forem picadas pelo mosquito e desenvolverem a doença do Zika virus. A microcefalia é causada na fase de desenvolvimento fetal, então a criança já nascida não está sujeita a este risco; 

4.  não existe, até o momento, qualquer comprovação do aumento de incidência de doenças ou complicações neurológicas em crianças abaixo de 7 anos ou idosos devido à infecção por Zika;

5.  a recente redução de parâmetro do perímetro cefálico considerado normal, de 33 para 32 centímetros, não tem por finalidade “reduzir o número de casos diagnosticados” como se tem espalhado. A definição do perímetro cefálico considerado normal se baseia no biotipo da população, em estatísticas populacionais de amplo espectro. A faixa de normalidade em crianças brasileiras pode ser diferente, por exemplo, da de crianças alemãs ou africanas, da mesma forma como a existência de olhos e cabelos claros são mais ou menos frequentes conforme o biotipo desta ou daquela população;

6.  não existe, até o momento, recomendação da Organização Mundial de Saúde para que mulheres evitem engravidar, justamente por considerar as medidas de prevenção eficientes e eficazes (combate aos focos de mosquito, uso de repelentes na pele e nos ambientes, uso de roupas tais como calças e camisetas de manga comprida etc)

Como mensagem final, sintetizando tudo que foi dito acima, gostaria de enfatizar a necessidade de encarar o momento com naturalidade, sabendo que a solução não será a curto prazo (assim como a dengue, que convive em nosso meio há anos) mas, por outro lado, está ao alcance de todos: PREVENÇÃO .

Use repelentes, ingira uma quantidade maior de vitamina B, lave ou passe pano na casa com Citronella, elimine os focos de mosquito em sua casa. Colabore com os agentes públicos, permita que as equipes e o Exército Brasileiro entrem na sua residência para combater o mosquito. Lembre-se: estes homens e mulheres estão se expondo para diminuir o seu risco e de sua família. Não custa recebê-los com cortesia e carinho.

Paulo Porto de Melo
VieiraPress
Paulo Porto de Melo

**Dr Paulo Porto de Melo é neurocirurgião formado pela UNIFESP, especialista em Neurocirurgia pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e colaborador do Departamento de Neurocirurgia da Universidade de Saint-Louis (EUA). Às quintas-feiras, escreve coluna aqui no iG Saúde .

Facebook: @DrPauloPortoDeMelo e Instagram @ppmelo.

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