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Exame é o procedimento mais utilizado para detectar lesões causadas pelo HPV, principal causador do câncer; realizar o procedimento regularmente pode prevenir a doença que, se detectada cedo, tem 100% de chance de cura

Câncer do colo do útero é o terceiro tipo de tumor que mais afeta as mulheres no Brasil, segundo o INCA
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Câncer do colo do útero é o terceiro tipo de tumor que mais afeta as mulheres no Brasil, segundo o INCA

Quando a pesquisadora Aline Dantas, de 32 anos, se mudou para a Holanda, em agosto de 2016, levou algum tempo até que ela se adaptasse e voltasse a cuidar da saúde, como fazia no Brasil. “Passei um ano e meio sem fazer Papanicolau”, conta. Considerando a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda a repetição do exame anualmente, na maioria dos casos, esse período foi relativamente curto, “mas o suficiente para que o tumor se desenvolvesse”, alerta ela, que foi diagnosticada com câncer do colo do útero .

Antes de deixar o Brasil, Aline chegou a procurar um ginecologista para tratar de um sangramento que acontecia esporadicamente. Ao passar por alguns exames, ela descobriu o resultado positivo para o HPV e foi submetida a algumas cauterizações no colo do útero que deveriam solucionar o problema, conforme seu médico a orientou.

“Ninguém nunca me alertou sobre a importância desse procedimento. Eu sempre ouvia que estava tudo certo, que já ‘tiraram’ o que tinha que tirar e que eu não iria sangrar mais”, lembra ela, que só mais tarde foi entender o que realmente estava acontecendo.

Naquela época, Aline não sabia que 80% da população sexualmente ativa já teve ou terá contato com o HPV em algum momento da vida, e que a doença, também conhecida como Papilomavírus Humano, é a principal causa do câncer do colo do útero - o terceiro tumor que mais atinge a população feminina no Brasil, segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer).

Ela só foi ter conhecimento sobre a seriedade do seu caso em junho do ano passado, quando, depois de ter percebido sua imunidade baixa, teve um sangramento mais considerável ao urinar, que a fez buscar por ajuda. Ao realizar o Papanicolau – também conhecido como preventivo –, lhe foi dito que ela estava com uma lesão pré-cancerosa. A alteração no exame levou a um outro procedimento, uma colposcopia com biópsia, cujo resultado detectou um tumor de 3,3 centímetros.

O caso de Aline não é uma excessão. Muitas mulheres, principalmente em países subdesenvolvidos, onde o acesso à saúde e a realização de exames preventivos são precárias, descobrem o câncer em estágio avançado.

Câncer do colo do útero

Por isso, o mês de janeiro foi escolhido pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês) para ser o período de destaque à cor verde piscina, que simboliza o alerta para a prevenção e combate ao câncer do colo do útero , ou câncer cervical , como também é conhecido.

De acordo com o INCA, esse tumor é a quarto tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil e, em relação ao número de casos que atinge a população feminina, fica em terceiro lugar, perdendo apenas para o câncer de mama e colorretal.

A doença se trata de uma desestruturação das células dos revestimentos interno e externo do canal do colo uterino que, na maioria dos casos, é causada pelo Papilomavírus Humano, o HPV, vírus transmitido por via sexual.

Porém, nem sempre o fato de ter o diagnóstico de infecção genital pelo vírus significa que a mulher terá o câncer. Especialistas reforçam que, apesar de ainda não estar claro para a medicina todos os fatores que colaboram com a progressão ou regressão da infecção, aspectos ligados à imunidade, genética, comportamento sexual e tabagismo podem influenciar na evolução para o câncer.

Apesar de ser assintomática, alguns sintomas como corrimento, coceira, dor durante a relação sexual, sangramentos, aumento do fluxo menstrual e alteração de odores podem ser indícios da doença. Em estágios avançados, pode causar emagrecimento e alteração dos hábitos intestinal e urinário.

Depois de diagnosticado, o tratamento do câncer cervical é feito com cirurgias, radioterapias e quimoterapias, de acordo com o estágio de desenvolvimento da doença.

HPV

O HPV é o nome genérico de um grupo de vírus, com mais de 150 tipos diferentes, sendo que 40 deles podem infectar o trato ano-genital. De acordo com o INCA, pelo menos 13 tipos do vírus são considerados oncogênicos, ou seja, “possuem maior risco ou probabilidade de provocar infecções persistentes e estar associados a lesões precursoras”. O instituto afirma que, “considerando os HPV de alto risco oncogênico, os tipos 16 e 18 estão presentes em 70% dos casos de câncer do colo do útero”.

A transmissão do vírus acontece predominantemente por meio do ato sexual, e para prevenir é fundamental o uso de preservativos durante as relações, incluindo quando a prática acontece pelas vias orais e anais.

Tabu

A falta de informação sobre a prevenção do câncer e sobre a própria doença colaboraram para que o tratamento de Aline fosse mais difícil. “Quando recebi diagnóstico eu fiquei arrasada, não tinha ideia do que era e tive muitas perguntas. Me senti muito sozinha”, recorda.

Apesar da grande incidência - somente em 2017, o INCA estima que surgiram mais de 20 mil novos casos da doença -, que ainda é desconhecida para uma em cada dez mulheres, segundo uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Por se tratar de um câncer que tem ligação direta à vida sexual da mulher, falar abertamente sobre a condição e seus métodos de prevenção pode ser visto como um tabu, o que contribui para a desinformação e para aumento dos casos. “É muito mais acessível falar sobre seios do que sobre a sexualidade da mulher, especialmente em países mais religiosos”, afirma Aline, fazendo uma comparação com o câncer de mama.

Diferente de outros tipos de câncer, o do colo do útero não apresenta sintomas na maioria das vezes e também só pode ser detectado por meio de exames realizados por médicos. A Dra. Andreia Melo, Diretora da SBOC, reconhece que esses fatores podem reforçar a falta de um diagnóstico precoce e acesso à informação sobre o tema.

“A mulher tem, de certa maneira, pudor para fazer o exame e isso pode impedir que procure assistência ginecológica adequada.  Mas precisamos desmitificar isso. O Papanicolau é um exame simples, não dói e pode salvar vidas”, ressalta a médica.


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Como detectar

O Papanicolau, tecnicamente chamado de colpocitologia oncótica, é o principal procedimento para detectar o problema, e previne até 80% dos casos. Considerado simples, ele é capaz de identificar tanto alterações invasoras no colo do útero quanto lesões precursoras, que podem evoluir para quadros de câncer. O INCA considera o exame fundamental para a cura de quase todos os casos da doença, quando identificadas por meio desta técnica.

O procedimento foi o responsável por evitar que Juliana Castro desenvolvesse o câncer cervical. Em 2012, após cinco anos sem colher o preventivo, a administradora de empresas estava pensando em engravidar e realizou os exames de rotina – papanicolau e colposcopia –, que acusaram uma grave lesão no útero, a chamada NIC III.

De acordo com a ginecologista e obstetra Dra. Maria Elisa Noriler, as neoplasias intraepiteliais cervicais (NIC) são “desestruturações da camada de células de revestimento do colo uterino”, que são causadas pelo HPV, possuem três estágios de desenvolvimento (I, II e III) e se não tratadas, podem evoluir para o câncer.

“Na época, eu não entendi direito, fiquei muito confusa. A médica me explicou que o HPV é inerente a mais de 80% da população feminina, mas que em menos de 30% ele trazia algum problema. E eu fiz parte desses 30%”, explicou Juliana, que descobriu a lesão aos 31 anos.

Como desestruturação estava no último grau de desenvolvimento antes do câncer, Juliana foi submetida a um procedimento simples e não-invasivo, uma cirurgia chamada conização, realizada para tratar as lesões causadas pelo HPV, seguida de uma cauterização. Após o procedimento, o problema foi resolvido e as chances de evolução para um câncer, descartadas.

Desde então, a única mudança na rotina da administradora diz respeito à periodicidade de seus exames. Ela precisa repetir o papanicolau e a colposcopia de seis em seis meses, enquanto a recomendação geral dos especialistas é da repetição do exame preventivo no intervalo de um a três anos, indicação que varia de acordo com o quadro de cada paciente.

Prevenção pode salvar vidas

Seja por falta de conhecimento, difícil acesso ao exame, medo, vergonha ou qualquer outro motivo, mais da metade das mulheres brasileiras não realiza o Papanicolau, segundo dados da SBOC.

Papanicolau é um exame simples e indolor; deve ser realizado anualmente e quando não há alteração, a cada dois anos
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Papanicolau é um exame simples e indolor; deve ser realizado anualmente e quando não há alteração, a cada dois anos

O número é alarmante, ainda mais considerando que o exame é o principal, e único oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), utilizado de detectar esse tipo de câncer. “Quando o tumor é descoberto na fase inicial, as chances de cura são de 100%. Por isso é tão importante realizar esse procedimento”, explica o médico patologista e presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, Dr. Clóvis Klock.

O especialista chama a atenção para o que ele chama de subvalorização do procedimento de rastreio, que também é um fator decisivo para definir a probabilidade de cura das pacientes. Segundo o especialista, os laboratórios de anatomia-patológica que realizam a análise de amostras coletadas, e emitem o diagnóstico citológico do exame, estão sendo pagos pelo sistema público com valores defasados, o que pode interferir na qualidade dos resultados lançados.

“O SUS paga apenas R$ 6,97 pelo Papanicolau, sendo que no sistema particular o exame custa cerca de R$ 100. A diferença é discrepante, e é um indício de que o trabalho não está sendo feito direito”, critica.

A vacina também é um método de prevenção que pode ser complementada ao uso do preservativo. Desde 2014, o SUS oferece a imunização gratuita contra o HPV em meninas de 9 a 13 anos de idade. Em 2017, as garotas de 14 anos e meninos de 11 a 14 anos também foram incluídos ao público-alvo.

O sistema privado também oferece a vacina à adolescentes e adultos que não tiveram contato com o vírus, já que a vacina não tem efeito terapêutico e não funciona para pessoas já infectadas. Por isso a indicação é que a dose seja administrada antes de o indivíduo iniciar a vida sexual.

Ajuda

Pensando em ajudar mulheres que, assim como ela antes do diagnóstico, ainda possuem muitas dúvidas sobre a condição, Aline resolveu criar um grupo no Facebook para acolher e trocar informações entre pessoas na mesma situação.

“Eu fiz o grupo assim que terminei meu tratamento. Antes, participei de um grupo semelhantes, mas em inglês, e foi muito importante para mim. Foi assim que eu consegui lidar com tudo que estava acontecendo comigo”, conta.

Conhecer mais pessoas que estavam passando pelo mesmo processo que ela e conversar sobre isso foi fundamental para que a pesquisadora seguisse forte em busca da cura. Para participar, é só acessar a página Câncer de Colo de Útero - Grupo de Apoio.

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