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Além dos danos que os raios solares podem causar na pele ao longo do tempo, algumas consequências já são sentidas em poucas horas; saiba porque é importante o uso do filtro solar até mesmo em dias nublados

Uso do filtro solar deve ser feito diariamente, mesmo em dias nublados e pode prevenir as chances de câncer de pele
shutterstock/Reprodução
Uso do filtro solar deve ser feito diariamente, mesmo em dias nublados e pode prevenir as chances de câncer de pele

Já dizia o famoso texto narrado por Pedro Bial: “use filtro solar”. A recomendação é mais séria do que você imagina. A exposição ao sol, por mais “inocente” que possa parecer, seja no caminho de casa ao trabalho, ou durante uma corrida no parque, precisa ser feita todos os dias - incluindo os nublados .

Isso porque os efeitos da radiação solar na pele sem filtro solar são cumulativos, ou seja, as consequências podem surgir depois de anos. As sequelas podem ser desde manchas na pele, diminuição da imunidade, envelhecimento precoce e até câncer de pele, que é o tipo de tumor mais comum e com maior incidência em todo o mundo.

“Após os 30 anos já é possível perceber quem se protegeu ou não, pois é a partir dessa idade que os efeitos da falta de cuidados com a pele sem filtro solar começam a aparecer”, alerta a pediatra e gerente de Global Scientific Engagement na divisão Consumo da Johnson & Johnson Sabrina Battistela.

Mas não é preciso esperar tanto tempo para que a influência do sol na pele sem proteção comece a causar danos. Para entender melhor sobre esse processo, é preciso conhecer os dois tipos de radiação que causam problemas à saúde quando há exposição sem cuidado.

“Os raios UVA são os principais responsáveis pelo envelhecimento precoce, como o surgimento de manchas e rugas, sendo um tipo de radiação que atravessa nuvens, vidro e epiderme e penetra na pele em grande profundidade, até as células da derme – sendo o principal produtor de radicais livres” explica a dermatologista Thais Pepe, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia. Entre os prejuízos, estão lesões mais simples até, em casos mais graves, câncer de pele .

“Enquando os UVB deixam a pele vermelha e queimada, danifica a epiderme e são mais abundantes entre às 10 da manhã e às 4 da tarde. Essa radiação pode furar o bloqueio dos filtros químicos e aumentar o risco de cancerização”, comenta a dermatologista. “Além disso, já nos primeiros 20 minutos de exposição solar a radiação é capaz de reduzir nossas defesas da pele em um dano que vai perdurar”, acrescenta.

Primeiros 20 minutos

Desde o primeiro contato com os raios a pele já começa a sofrer oxidação em razão dos radicais livres, que geram vasodilatação, inflamação e vermelhidão que podem variar de intensidade de acordo com a potência da radiação. Por isso, a proteção deve ser feita antes mesmo de sair de casa.

“Não adianta chegar à praia ou à piscina e esperar para passar o protetor solar nesse momento, porque há necessidade de, pelo menos, 20 a 30 minutos para que esse filtro solar comece a agir e nesse período já ocorre um ‘ataque’ importante em relação às células da pele”, recomenda Thais.

Após 3 horas

O dano imediato da radiação persiste e se intensifica a partir de três horas. Thaís explica que a célula começa a ficar mais danificada e seu material genético sofre, por consequência, mutação, no qual há produção de dímeros no DNA, ou seja, a troca de informações de ligação, desestabilizando esse material genético.

“Todo esse dano ao DNA leva à expressão do P53, uma proteína que em alta quantidade é ruim, pois vai gerar deficiência de agentes antioxidantes, genes que vão levar à morte celular, resultando no envelhecimento”, afirma.

 Mas não é só isso. A formação de dímeros cria uma alteração significativa e irreversível principalmente no melanócito, conhecida como a célula protetora de cor, que vai continuar por até três horas tendo lesões posteriores e que podem inclusive levar a um processo de cancerização - por isso a pele fica vermelha.

O câncer de pele melanoma , apesar de ser menos comum, tem a exposição solar como um dos fatores de risco mais importantes para que ele se desenvolva, principalmente quando há um histórico grande de queimaduras solares pelo corpo.

“O melanoma é um câncer de pele extremamente agressivo, com alta capacidade de metástase e é oriundo dessas células que são os melanócitos”, afirma.

De acordo com dados da (Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o Brasil registrou em 2016, aproximadamente, 3973 novos casos da doença. Estes dados justificam uma maior atenção das autoridades para a questão da fotoproteção uma vez que o câncer de pele já se tornou um problema de saúde pública no país.

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De 48 a 72 horas

Depois de certo tempo no sol, já é possível adquirir o tão esperado bronzeado - aquele transitório, que deixa o corpo rosa avermelhado e depois dourado - que ocorre nas primeiras horas depois da exposição solar e é tido como sinônimo para pele saldável. Porém, diferente do que muitas pessoas pensam, dependendo da maneira como esse efeito foi adquirido pode acarretar em muitos problemas para a saúde.

“Após 48 a 72 horas é que vamos ter a resposta da produção da melanina, seja ela castanha enegrecida ou amarela avermelhada, dependendo do fototipo do paciente. Esse bronzeado vai se depositar na pele como uma resposta fisiológica contra a agressão sofrida”, esclarece a dermatologista.

Todo esse processo ocorre quando há a exposição solar de um dia. Esse bronzeado pode durar até três ou quatro semanas e depois pelo próprio processo natural de renovação da camada mais superficial da pele, há uma perda gradual dessa pigmentação.

“Outro dado importante e comum nas peles fotoenvelhecidas, aquelas peles que se expuseram muito ao sol, é a presença das sunburn cells, as células queimadas pelo sol”, comenta.

Segundo a médica, as sunburn cells estão presentes quando há a quebra da barreira, ou seja, quando a pele não consegue se proteger, o filtrosolar está aquém da necessidade para aquele fototipo, ou o estímulo solar é prolongado demais, ou não houve a reaplicação desse filtro solar.

“E por conta disso, a pele começa a sofrer uma série de alterações, todas em razão de um primeiro processo inflamatório, onde ocorre o eritema, a vasodilatação, o aumento da perfusão sanguínea, a sensação de calor local, depois o processo de ardência e, então, já começam os processos oxidativos, que é a formação dos radicais livres e superóxidos que causam um envelhecimento precoce das nossas células", alerta a especialista.

Além disso, pela exposição solar contínua, a defesa imunológica deixa de ser feita pelas células de Langerhans, e quando isso acontece, as chances de cancerização da pele também ficam maiores.

Maioria dos brasileiros não usa filtro solar

Mesmo com todos os efeitos negativos que a radiação pode causar quando entra em contato com a pele, o assunto ainda não é reconhecido com a devida importância pela população brasileira. 

De acordo com o Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele 72,5% da população não aplicam o fotoprotetor diariamente
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De acordo com o Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele 72,5% da população não aplicam o fotoprotetor diariamente

Apesar dos esforços da mídia para o uso de filtro solar, o número de brasileiros que não aplica o creme diariamente aumentou drasticamente deste 2014 e já chega a quase três quartos da população, conforme afirma o consultor e pesquisador em Cosmetologia Lucas Portilho, farmacêutico e diretor científico do Instituto de Cosmetologia e Ciências da Pele, que liderou uma pesquisa para verificar os hábitos de fotoproteção no Brasil.

De acordo com o resultado, 72,5% da população não aplicam o fotoprotetor diariamente — em 2016, esse percentual era de 65%, em 2015 de 53% e em 2014 de 57%. “Essa redução no uso diário do filtro mostra que a conscientização não convenceu a população a usar correta e diariamente o fotoprotetor", analisa Portilho.

No entanto, é importante levar em conta outros fatores que ajudam a enfraquecer o comportamento de proteção à pele. "Talvez pelo alto custo e situação de crise financeira que se instaurou, a proteção solar ficou como segundo plano de consumo”, acrescenta o pesquisador.

Para realizar a pesquisa, foram entrevistadas 1.793 pessoas de 27 estados diferentes. “Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maiores índices ultravioleta do mundo por se localizar numa região tropical do planeta e onde a exposição solar é uma cultura que está comumente associada a hábitos saudáveis; o que, como já se sabe, nem sempre é verdade”, finaliza.

Como deve ser feita a fotoproteção?

Para evitar qualquer tipo de dano à pele, o filtro solar deve ser passado na pele do corpo todo sem qualquer vestimenta, trinta minutos antes da exposição solar e reaplicado a cada duas horas em média. “Além disso, aqueles que querem ir à praia, devem respeitar os horários recomendados que são: até 10h da manhã e depois das 4h da tarde”, orienta, Thaís.

O uso de roupas escuras, que cubram a pele, chapéu, boné e óculos escuros também ajuda a manter a pele protegida. Tomar bastante água é outra recomendação para deixar o corpo hidratado e diminuir os danos causados pela exposição ao sol.

Em sua pesquisa, Portilho afirmou que questionou os entrevistados sobre a aplicação correta da quantidade de fotoprotetor. “Percebemos que 80% dos brasileiros não têm a mínima ideia de quanto aplicar, portanto mesmo a proteção de quem usa fotoprotetores fica comprometida, pois sem saber o quanto aplicar, uma pessoa pode usar achando que está se cuidando quando na verdade está desprotegida”, afirma.

A pediatra da Johnson & Johnson Sabrina Battistela explica uma regra simples, que ajuda a saber quanto de protetor solar deve ser aplicado. "Para não errar é só seguir a regra das nove colheres de chá, que serve para os adultos, e para as crianças é só usar meia porção".

Veja como funciona:

  • Rosto, cabeça e pescoço: 1 colher de chá
  • Frente e atrás do tronco: 2 colheres de chá
  • Braço e antebraço direitos: 1 colher de chá
  • Braço e antebraço esquerdos: 1 colher de chá
  • Coxa e perna direitas: 2 colheres de chá
  • Coxa e perna esquerdas: 2 colheres de chá

Além disso, Sabrina reforça que o ideal é reaplicar o filtro solar a cada duas horas depois de entrar na água ou após sudorese intensa.

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