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Estudante de educação física ficou internada por quase um mês, após passar por um procedimento estético realizado na clínica de Geysa Leal Corrêa

Gabriela Nascimento Moraes fez lipoaspiração no dia 10 de julho e teve o intestino perfurado
Reprodução/Record TV
Gabriela Nascimento Moraes fez lipoaspiração no dia 10 de julho e teve o intestino perfurado

Depois de quase um mês, a estudante de educação física Gabriela Nascimento Moraes, de 23 anos, que teve o intestino perfurado depois de passar por uma cirurgia de lipoaspiração, teve alta nesta segunda-feira (13) do Hospital Federal Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

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A jovem estava internada desde o dia 18 do mês passado. A complicação por conta de uma lipoaspiração , que ocorreu no dia 10 de julho, fez com que Moraes fosse submetida a duas cirurgias no intestino.

O procedimento foi realizado na clínica da médica Geysa Leal Corrêa, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a médica Geysa Corrêa é otorrinolaringologista e não tem especialização em cirurgia estética.

De acordo com o depoimento da paciente - que foi ouvida pela delegada do caso Raíssa Telles no quarto do hospital, após ter recebido alta do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) - Moraes detalhou como foi o procedimento estético e qual a conduta da médica após a paciente se queixar de fortes dores no abdômen e ter voltado de quatro a cinco vezes ao consultório.

Com o intestino perfurado, a estudante chegou a contar à médica que, no dia seguinte à cirurgia , pelo orifício deixado pela cânula usada para a lipoaspiração, estavam saindo restos de uma sopa que a estudante tinha tomado na noite anterior.

Moraes disse que voltou várias vezes ao consultório de Corrêa e que não fez tomografia do abdômen para determinar os motivos das fortes dores. As dores não passavam apesar da bateria de antibióticos e anti-inflamatórios que a paciente tomava.

Antes de chegar ao Hospital Cardoso Fontes, onde foi operada às pressas, a estudante passou pelo  Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca.

Investigação continua

De acordo com a SBCP, Corrêa não teria autorização para realizar lipoaspiração, por ser otorrinolaringologista
Reprodução/Facebook
De acordo com a SBCP, Corrêa não teria autorização para realizar lipoaspiração, por ser otorrinolaringologista

Segundo o advogado da jovem, na primeira cirurgia, os médicos do Cardoso Fontes fizeram um pequeno corte e costuraram o intestino da jovem, mas, como as dores continuavam, foi necessária a segunda intervenção cirúrgica, no último dia 30, que durou seis horas e terminou com a retirada de 20 centímetros do intestino. Moraes foi levada para o CTI e, no dia 2, para o quarto.

O advogado da família da universitária, Guilherme Frederico, disse que amanhã (14) vai à Delegacia 77, em Icaraí, comunicar à delegada Raíssa Telles a alta da paciente e protocolar alguns documentos ao inquérito, relacionados à intervenção cirúrgica feita pela estudante.

Guilherme Frederico disse também que já solicitou o prontuário de Gabriela Moraes à direção do Hospital Cardoso Fontes, que é um documento detalhado das duas cirurgias a que a estudante foi submetida.

A médica Geysa Leal Corrêa também está sendo investigada pela morte da pedagoga Adriana Ferreira Pinto, de 41 anos, seis dias após lipoescultura feita em julho deste ano. Corrêa responde a mais três processos por erro médico em procedimentos estéticos . O marido da pedagoga disse que ela fez uma lipoaspiração no abdômen e um implante de gordura nos glúteos. Passou mal em casa, foi levada ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas já chegou sem vida.

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Cuidados com lipoaspiração e outros procedimentos estéticos

Implante de silicone, lipoaspiração e procedimentos faciais estão entre as principais cirurgias procuradas pelas brasileiras
Shuttersock
Implante de silicone, lipoaspiração e procedimentos faciais estão entre as principais cirurgias procuradas pelas brasileiras

Na busca por um corpo ideal, muitos pacientes acabam não avaliando os perigos de cada procedimento e avaliando se o profissional é habilitado para tal atividade. “No Rio de Janeiro, tem muita gente tentando fazer estética sem estar com a formação habilitada adequadamente. E como a gente tem essa procura muito grande, as pessoas acabam se submetendo a um risco desnecessário”, alerta o presidente da SBPC regional Rio de Janeiro, André Maranhão.

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Nelson Nahon, destaca que o exercício ilegal da medicina por não médicos deve ser denunciado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e à polícia.

Nelson Nahon esclarece que, do ponto de vista legal, qualquer médico pode assumir o que vai fazer, mas ressaltou que o ideal é que seja qualificado. “Ninguém vai colocar um ‘stent’ [pequeno dispositivo expansível de forma tubular que objetiva evitar o entupimento das artérias] no coração se não for com um cardiologista. O mesmo ocorre em relação a procedimentos invasivos que devem ser feitos por cirurgiões plásticos”.

É o caso do médico Denis César Barros Furtado, de 45 anos, preso em um centro empresarial na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro, por causa da morte da bancária Lílian Calixto. Ela morreu horas depois de ter passado por uma bioplastia – aumento dos glúteos – no apartamento do médico. Ele não tinha especialização em cirurgia plástica. Conhecido como Dr. Bumbum, Denis Furtado vai responder pelos crimes de homicídio doloso duplamente qualificado e associação criminosa.

Cerca de 6,3 mil profissionais estão credenciados pela SBCP em todo o país. A entidade alerta que cirurgia plástica só deve ser feita em ambiente hospitalar.

Só no mês de julho, pelo menos  três mulheres morreram por complicações em procedimentos estéticos no Rio de Janeiro. Lilían Calixto , Adriana Ferreira e Mayara Silva dos Santos faleceram depois de terem procurado profissionais que se diziam qualificados para realizarem as cirurgias. Os casos acendem o alerta para os cuidados que devem ser tomados na hora de buscar este tipo de tratamento.

No Brasil, a procura por procedimentos estéticos e cirurgias plásticas é grande. No ranking mundial, ficamos atrás somente dos Estados Unidos. Só em 2017, foram realizadas 1,5 milhão de cirurgias plásticas no País, sendo 60% estéticas e 40% reparadoras, conforme informações da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC).

Do total de pacientes, 80% são mulheres e 20% são homens. As cirurgias mais procuradas são implantes mamários de silicone, lipoaspiração e na face.

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