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Em 2017, o Brasil registrou queda nos índices de cobertura vacinal e esse comportamento coloca em risco a volta de doenças já eliminadas no País

Especialistas destacam a importância da vacinação para que outras doenças não retornem ao Brasil
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Especialistas destacam a importância da vacinação para que outras doenças não retornem ao Brasil

Quem ainda se lembra da época em que os números de casos de rubéola, difteria, coqueluche e varicela eram alarmantes? No passado, todas essas doenças causaram impactos significativos na saúde pública brasileira, mas, graças aos esforços do governo para conscientizar a população sobre a importância da vacinação, hoje quase não se ouve falar sobre os perigo dessas infecções.

Leia também: Pesquisa aponta que 64% dos adultos não estão com a vacinação em dia

Contudo, o tempo fez com que a importância da vacinação  contra doenças que já foram esquecidas deixasse de ser uma prioridade para a sociedade e, infelizmente, esse comportamento reflete na queda das taxas de cobertura vacinal registradas no País nos últimos anos, tornando as chances de todas elas voltarem a assombrar os brasileiros cada vez mais reais.

“Muitas pessoas nunca viram essas doenças, portanto, não têm na memória o risco que elas representam para a saúde da população”, avalia a Coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Carla Domingues.

“O Ministério da Saúde avalia que o próprio sucesso das ações de imunização no Brasil – que tiveram como resultado a eliminação da poliomielite, do sarampo, da rubéola e síndrome da rubéola congênita – tem causado, em parte da população e até mesmo em alguns profissionais de saúde, a falsa sensação de que não há mais necessidade de se vacinar.”

As baixas coberturas vacinais obtidas pelo País nos últimos anos indicam que há pessoas não vacinadas e, consequentemente, suscetíveis às doenças imunopreveníveis.

Dados do Ministério da Saúde mostram que os índices de cobertura vacinal caíram nos últimos sete anos. Segundo o Sistema de Informações do PNI, a pentavalente (DTP+HIB+HB), que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e outras infecções, por exemplo, já chegou a ter cobertura de 99,6%, em 2011, porém, no último ano, ficou na casa dos 77,9%. ( Veja tabela abaixo com a série histórica de algumas vacinas )

Coberturas Vacinais por Imunobiológico e Ano; baixa cobertura vacinal nos últimos anos alerta para importância da vacinação
Fonte; http://pni.datasus.gov.br
Coberturas Vacinais por Imunobiológico e Ano; baixa cobertura vacinal nos últimos anos alerta para importância da vacinação

Diante de um cenário de baixa cobertura vacinal , Domingues alerta sobre o risco do retorno de algumas  doenças que já haviam sido eliminadas como poliomielite, sarampo, rubéola e rubéola congênita, bem como o aumento do número de casos de outras doenças imunopreveníveis, como a difteria, coqueluche  e a varicela.

A volta dessas patologias pode marcar um retrocesso significativo na área da saúde. “A principal ferramenta que contribuiu para o aumento da expectativa de vida do brasileiro foi a vacinação. Com queda na cobertura vacinal, além do adoecimento e morte precoce, teremos uma sobrecarga na Saúde”, pontuou a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Isabella Ballalai.

“Hoje, o Brasil consegue, mesmo com toda a dificuldade, dar atenção para outras patologias que não sejam essas. Mas, há alguns anos, nós tínhamos enfermarias inteiras dedicadas aos cuidados com sarampo e difteria, então não podemos voltar a ter essa concorrência”, conclui.

Além disso, Ballalai destaca outros impactos práticos caso as pessoas deixem de se vacinar. “Se as coberturas caem, nossa sociedade volta a ter casos de doenças que não assustavam mais, de crianças morrendo por consequências de doenças que não matavam mais”.

Volta do sarampo é exemplo da importância da vacinação

Vírus do sarampo trazido pelos venezuelanos aponta a importância da vacinação; brasileiros não seriam afetados se imunização estivesse em dia
Marcelo Camargo/Agência Brasi - 4.5.18
Vírus do sarampo trazido pelos venezuelanos aponta a importância da vacinação; brasileiros não seriam afetados se imunização estivesse em dia

Infelizmente, o exemplo dado pela presidente da SBIm já é realidade. O sarampo, esquecido pelo brasileiro até o ano passado, voltou com tudo porque a cobertura vacinal estava abaixo do ideal. Desde o início de 2018 já foram registrados surtos em Roraima e Amazonas, com mais de 1,5 mil casos, incluindo 12 mortes .

Em 2017, países vizinhos também sofreram com surtos de sarampo, incluindo a Venezuela, que faz fronteira com o Brasil, e deixou de imunizar a população por questões políticas e econômicas.

Com a forte imigração dos venezuelanos nos últimos meses, a doença foi importada para o território nacional. E engana-se quem pensa que a culpa dos surtos é dos refugiados. “Só temos os casos de sarampo porque não estamos vacinados. A doença poderia ter vindo da Europa também, onde mais de 44 mil casos foram registrados neste ano. Não é responsabilidade da Venezuela o que estamos vivendo hoje”, destacou Ballalai.

A tríplice viral, vacina que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é oferecida gratuitamente pelo Programa Nacional de Imunizações. A proteção deve ocorrer na infância, e em duas doses: com 12 e 15 meses. Na segunda dose, a vacina também protege contra a varicela, infecção viral que causa a catapora.

No entanto, a segunda dose da vacina não atinge a meta de 95% da cobertura vacinal desde 2012.

Baixa cobertura vacinal pode causar a volta da pólio

Importância da vacinação: brasileiros devem se vacinar contra pólio para evitar retorno da doença
Marcelo Camargo/Agência Brasil - 18.8.18
Importância da vacinação: brasileiros devem se vacinar contra pólio para evitar retorno da doença

De acordo com relatório divulgado em julho deste ano pelo Ministério da Saúde, todos os estados brasileiros - com exceção apenas de Rondônia, Espírito Santo e do Distrito Federal - possuem municípios que são considerados lugares de risco para a poliomielite .

A infecção, que não é registrada há 28 anos no Brasil, e que desde 1994 foi considerada erradicada das Américas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pode ser prevenida por duas vacinas: a Vacina Oral Poliomielite (VOP), administrada oralmente aos dois, quatro e seis meses de vida, com reforços entre 15 e 18 meses e entre quatro e cinco anos; e a Vacina Inativada Poliomielite (VIP), que é injetada aos 15 meses e outra aos quatro anos de idade.

Das vacinas que as crianças de dois e quatro meses devem receber, a de pólio é a única que não ultrapassa 85% de vacinados nas duas doses, conforme dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus).

Com o fluxo de turismo e comércio entre países, pessoas não vacinadas podem contrair a doença e criar condições para o retorno da transmissão. “É importante frisar que o vírus ainda circula pelo mundo, sendo altamente contagioso. A transmissão se dá forma direta, por meio de secreções expelidas ao tossir, espirrar, falar ou respirar. Por isso, manter toda a população com a vacina em dia é a única maneira de evitar a volta da doença no Brasil, considerando que hoje em dia há uma grande circulação de pessoas por turismo e negócios”, afirmou Domingues.

Febre amarela e a dificuldade de ampliar a vacinação

Febre amarela e a importância da vacinação: epidemia pode voltar caso a população não se proteja contra a doença
Rovena Rosa/Agência Brasil
Febre amarela e a importância da vacinação: epidemia pode voltar caso a população não se proteja contra a doença

O Brasil vive hoje a maior epidemia de febre amarela da história e, mesmo assim, a cobertura vacinal continua baixa, segundo a representante da SBIm. Para ela, o brasileiro ainda precisa entender que deve se vacinar contra a infecção mesmo quando os casos não estão em destaque na mídia. “Aquilo que não temos medo, não damos prioridade.”

“A febre amarela não foi embora. Nós estamos no período de intersazonalidade, a época do ano em que a doença não aparece. Mas entende-se que ela volte em dezembro, com a mudança climática”, alertou.

O ciclo urbano da doença foi erradicado em 1942, no entanto, o ciclo silvestre não é passível de erradicação e atualmente há cerca de 4.200 municípios com recomendação de vacinação, portanto, as pessoas que vivem nestas áreas devem ser vacinadas de acordo com o Calendário Nacional de Vacinação.

A coordenadora do PNI reconhece que recomendar a cobertura vacinal homogênea no Brasil é um trabalho constante do Ministério da Saúde. “Periodicamente, a coordenação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) emite notas técnicas para estados e municípios sobre o monitoramento e avaliação das coberturas vacinais.”

Carla Domingues ressalta que cabe aos municípios definirem as estratégias de vacinação. “No entanto, o Ministério da Saúde recomenda, dentro destas ações, a busca de faltosos, a realização da vacinação de casa a casa e dos postos volantes, bem como ampliar os horários de funcionamento dos postos de vacinação, de acordo com as políticas municipais e a integração com o setor educação visando a sensibilização de professores, alunos e suas famílias sobre a importância da vacinação.”

Conheça algumas doenças eliminadas que poderiam voltar: 

  • Sarampo

Essa é uma doença infecciosa aguda, de natureza viral, grave, transmissível e extremamente contagiosa. Complicações infecciosas contribuem para a gravidade do quadro, particularmente em crianças desnutridas e menores de um ano de idade.

Os sintomas incluem febre alta acima de 38,5°C; erupções na pele; tosse; coriza; conjuntivite; e manchas brancas que aparecem na mucosa bucal, conhecidas como sinais de Koplik e que antecedem de um a dois dias antes do aparecimento da erupção cutânea.

A transmissão do sarampo acontece de quatro a seis dias antes e até quatro dias após o aparecimento do exantema (erupção cutânea). O período de maior transmissibilidade ocorre dois dias antes e dois dias após o início da erupção cutânea.

  • Poliomielite

Causada por um vírus que vive no intestino, o poliovírus, a poliomielite geralmente atinge crianças com menos de quatro anos de idade, mas também pode contaminar adultos.

A maior parte das infecções apresenta poucos sintomas e há semelhanças com as infecções respiratórias como febre e dor de garganta, além das gastrointestinais, náusea, vômito e prisão de ventre.

Cerca de 1% dos infectados pelo vírus pode desenvolver a forma paralítica da doença, que pode causar sequelas permanentes, insuficiência respiratória e, em alguns casos, levar à morte.

  • Difteria

Em abril, a OMS também notificou surtos na Venezuela e no Haiti de difteria, que causa dificuldade de respirar. Na Venezuela, 142 pessoas já morreram da doença desde 2016. No Brasil, seis casos suspeitos da doença relatados neste ano aguardam confirmação.

Doença transmissível aguda causada por bacilo que frequentemente se aloja nas amígdalas, na faringe, na laringe, no nariz e, ocasionalmente, em outras mucosas e na pele. A presença de placas branco-acinzentadas, aderentes, que se instalam nas amígdalas e invadem estruturas vizinhas é a manifestação clínica típica da difteria.

A transmissão acontece ao falar, tossir, espirrar ou por lesões na pele. Portanto, pelo contato direto com a pessoa doente. O período de incubação da difteria é, em geral, de um a seis dias, podendo ser mais longo. Já o período de transmissibilidade dura, em média, até duas semanas após o início dos sintomas.

  • Rubéola

Por ser uma doença prevenida com a mesma vacina que protege contra o sarampo, a tríplice viral, a rubéola também pode voltar a atingir os brasileiros.

A doença aguda, de alta contagiosidade, é transmitida pelo vírus do gênero Rubivirus . No campo das doenças infectocontagiosas, a importância epidemiológica da rubéola está associada à síndrome da rubéola congênita, que atinge o feto ou o recém-nascido cujas mães se infectaram durante a gestação.

A infecção na gravidez acarreta inúmeras complicações para a mãe, como aborto e natimorto (feto expulso morto), e para os recém-nascidos, como surdez, malformações cardíacas e lesões oculares.

Os sintomas da rubéola, que também é uma das doenças erradicadas no Brasil, incluem febre baixa e inchaço dos nódulos linfáticos, acompanhados de exantema. A transmissão acontece de pessoa para pessoa, por meio das secreções expelidas pelo doente ao tossir, respirar, falar ou respirar. 

Para evitar todas essas doenças novamente, é preciso que toda a sociedade se lembre da importância da vacinação

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