Tamanho do texto

Ainda há mais de 8 mil casos sob investigação; situação do sarampo no Brasil deve diminuir ou então o País perderá certificado de eliminação da doença

Casos de sarampo no Brasil podem fazer com que País perca certificado de eliminação da doença, concedido pela Opas
shutterstock
Casos de sarampo no Brasil podem fazer com que País perca certificado de eliminação da doença, concedido pela Opas

Desde janeiro até o dia 15 de outubro, o Ministério da Saúde já recebeu a confirmação de 2.192 casos de sarampo no Brasil. O dado foi atualizado pela pasta nesta quarta-feira (17), de acordo com as informações repassadas pelas secretarias estaduais de saúde sobre a situação do sarampo no país.

Leia também: Casos de sarampo nas Américas aumentam 32% em apenas um mês, aponta OMS

Do total de casos de sarampo no Brasil , a maioria concentra-se em Roraima e Amazonas, estados onde, atualmente, acontecem surtos da doença. No Amazonas são 1.776 casos e 7.801 em investigação, e em Roraima, com o registro de 330 casos da doença, sendo que 93 continuam em investigação.

Segundo o Ministério da Saúde , os surtos estão relacionados à importação do vírus, já que o genótipo, conhecido como D8, que está circulando no país é o mesmo que circula na Venezuela, país que enfrenta um surto da doença desde 2017.

Além de Amazonas e Roraima, alguns casos isolados e relacionados à importação também foram identificados em outros estados. Rio Grande do Sul confirmou 37 casos; Rio de Janeiro teve 18 registros; Pará, 17; Sergipe e Pernambuco, 4; São Paulo, 3; Rondônia, 2 e Distrito Federal, apenas 1 .

Segundo o governo federal, a pasta da Saúde permanece acompanhando a situação e prestando o apoio necessário aos Estados. “Cabe esclarecer que as medidas de bloqueio de vacinação, mesmo em casos suspeitos, estão sendo realizadas em todos os estados”, comunicou.

Até o momento, no Brasil, foram confirmados 12 óbitos por sarampo, sendo quatro óbitos no estado de Roraima (3 em estrangeiros e 1 em brasileiro), 6 óbitos no estado do Amazonas (todos brasileiros, sendo três do município de Manaus, dois do município de Autazes e um no município de Manacapuru) e dois no Pará (indígenas venezuelanos).

A situação coloca o País sob risco.  De acordo com a assessora regional de Imunizações da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Lúcia Helena de Oliveira, o Brasil tem até fevereiro de 2019 para reverter os surtos de sarampo registrados em diversas áreas do país para não perder o certificado de eliminação da doença, concedido pela Opas em 2016.

O critério adotado pela entidade para conferir transmissão sustentada é que o surto se mantenha por um período superior a 12 meses. As autoridades sanitárias brasileiras, portanto, correm contra o tempo, já que os primeiros casos da doença no Norte do país foram identificados no início do ano.

“Sabemos que os casos no Brasil são de importação, lamentavelmente, pelas condições de saúde em que vive a Venezuela. Mas só estamos tendo casos de sarampo no Brasil porque não tínhamos cobertura de vacinação adequada. Se tivéssemos, esses casos viriam até aqui e não produziriam nenhum tipo de surto”, destacou a assessora da Opas.

Casos de sarampo no Brasil estimularam vacinação

Com o aumento de casos de sarampo no Brasil, vacina contra a doença teve maior adesão do que nos anos anteriores
Marcelo Camargo/ABr
Com o aumento de casos de sarampo no Brasil, vacina contra a doença teve maior adesão do que nos anos anteriores

Ao todo, o Ministério da Saúde, encaminhou aos Estados de Rondônia, Amazonas, Roraima, Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe e Distrito Federal o quantitativo de 13.2 milhões de doses da vacina tríplice viral durante o ano todo.

A medida serviu para atender a demanda dos serviços de rotina e a realização de ações de bloqueio, intensificação e campanha de vacinação para prevenção de novos casos de sarampo.

“Em relação à Campanha Nacional de Vacinação contra sarampo, todos os estados que apresentam casos confirmados de sarampo alcançaram a meta mínima de 95% de cobertura vacinal, com exceção do Distrito Federal”, informou a pasta, que realizou em agosto e setembro, a Campanha Nacional de Vacinação contra Sarampo e Poliomielite, que colaborou para que outros estados atingissem a meta de imunização.

Vacinação é altamente recomendada para evitar a volta do sarampo

Além dos casos de sarampo no Brasil, outras doenças já eliminadas podem voltar, caso população não receba imunização
REPRODUÇÃO/AGÊNCIA BRASIL
Além dos casos de sarampo no Brasil, outras doenças já eliminadas podem voltar, caso população não receba imunização

O sarampo não assustava os brasileiros há tempos, até que dois surtos eclodiram em território nacional no início deste ano e fizeram a vacina contra a infecção voltar a ser fortemente recomendada pelo governo. Contudo, mesmo com ações do Ministério da Saúde , dez estados e 1.180 municípios não conseguiram atingir o índice de cobertura vacinal no prazo estipulado pela pasta

Ao todo, cerca de 516 mil crianças não haviam tomado ambas as doses em setembro. Na faixa etária de 1 ano, a cobertura registrada era de 88%. A falta de adesão às vacinas preocupa a presidente da SBIm, Isabella Ballalai.

“Já falamos e não nos cansaremos de repetir: o risco de o sarampo voltar a circular de forma endêmica e da pólio reaparecer é real”, alertou.

“Se enfermidades imunopreveníveis se instalarem porque não nos vacinamos, a culpa será única e exclusivamente nossa. É preciso lembrar que nós também podemos levar doenças para outros países e que devemos demonstrar solidariedade a qualquer população que enfrente situações sociais adversas”, completou, ao se referir a casos recentes de comportamento hostil contra imigrantes venezuelanos.

Dados da entidade apontam para um histórico recente de expansão de doenças imunopreveníveis no Brasil. Autoridades sanitárias também tiveram de lidar com surtos de febre amarela no país em 2017 e este ano. Já a cidade de São Paulo enfrenta, desde o ano passado, surtos de hepatite A que já afetaram mais de mil pessoas.

O cenário, segundo Isabella, torna-se mais preocupante se considerada a facilidade de locomoção entre grandes distâncias propiciada pelo maior acesso ao transporte, principalmente aéreo.

Uma doença que levaria meses para atravessar um continente, por exemplo, atualmente consegue cumprir o mesmo trajeto em poucas horas. É o que acontece na Europa, que recebe e envia viajantes de todo o mundo e passa por surtos de sarampo há pelo menos dois anos.

“Campanhas nos moldes da atual [contra o sarampo e a poliomielite] são para lidar com situações pontuais ou emergenciais. É inviável promover iniciativas semelhantes para as 14 vacinas oferecidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). As campanhas de multivacinação realizadas nos últimos anos tentaram abranger o calendário de forma mais ampla, mas, infelizmente, não geraram a adesão desejada”, afirmou Ballalai.

O tempo fez com que a importância da vacinação contra doenças que já foram esquecidas deixasse de ser uma prioridade para a sociedade e, infelizmente, esse comportamento reflete na queda das taxas de cobertura vacinal registradas no País nos últimos anos, tornando as chances de todas elas voltarem a assombrar os brasileiros cada vez mais reais.

“Muitas pessoas nunca viram essas doenças, portanto, não têm na memória o risco que elas representam para a saúde da população”, avalia a Coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Carla Domingues.

“O Ministério da Saúde avalia que o próprio sucesso das ações de imunização no Brasil – que tiveram como resultado a eliminação da poliomielite, do sarampo, da rubéola e síndrome da rubéola congênita – tem causado, em parte da população e até mesmo em alguns profissionais de saúde, a falsa sensação de que não há mais necessidade de se vacinar.”

As baixas coberturas vacinais obtidas pelo País nos últimos anos indicam que há pessoas não vacinadas e, consequentemente, suscetíveis às doenças imunopreveníveis.  

Dados do Ministério da Saúde mostram que os índices de cobertura vacinal caíram nos últimos sete anos.

Segundo o Sistema de Informações do PNI, a pentavalente (DTP+HIB+HB), que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e outras infecções, por exemplo, já chegou a ter cobertura de 99,6%, em 2011, porém, no último ano, ficou na casa dos 77,9%.

Diante de um cenário de baixa cobertura vacinal , Domingues alerta sobre o risco do retorno de algumas doenças que já haviam sido eliminadas como poliomielite, sarampo, rubéola e rubéola congênita, bem como o aumento do número de casos de outras doenças imunopreveníveis, como a difteria, coqueluche e a varicela.

A volta dessas patologias, que reflete nos casos de sarampo no Brasil , pode marcar um retrocesso significativo na área da saúde. “A principal ferramenta que contribuiu para o aumento da expectativa de vida do brasileiro foi a vacinação. Com queda na cobertura vacinal, além do adoecimento e morte precoce, teremos uma sobrecarga na Saúde”, pontuou Isabella Ballalai.

*Com informações da Agência Brasil

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.