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Conheça a história de Fábio, 16 anos, que recebeu um rim do próprio pai e todo suporte da mãe

Conheça a história de Fábio, que recebeu o rim do pai e todo suporte para uma nova vida da mãe
Amana Salles / Fotoarena
Conheça a história de Fábio, que recebeu o rim do pai e todo suporte para uma nova vida da mãe
Fábio está faminto. Há dois meses, ele descobriu muitos sabores. Lagosta, coxinha, hambúrguer e até salada ficaram tempos frequentando só os seus sonhos e agora são sensações diferentes no paladar do garoto. Ele passou 296 dias com um rim doente, que tirou dele até o prazer de comer. Apesar de não ver a hora de atacar o chester que a mãe promete preparar para o dia de Natal (ele imagina a ceia lambendo os beiços), não é só fome de comida que esbanja hoje, já livre da máquina de hemodiálise.

Desde maio de 2010, o iG Saúde acompanha a história do menino de 16 anos que saiu de Brasília para fazer tratamento renal em São Paulo e conseguiu a chance de uma nova vida graças a um transplante. O doador do rim foi seu próprio pai, Otávio Tepedino Martins. O achado de um órgão compatível no núcleo familiar não poupou a angústia dos cinco meses de espera, necessários para os médicos atestarem que a cirurgia poderia ser feita. A operação ocorreu no último dia 19 de outubro.

A vida de Fábio ficou dividida entre antes e pós transplante e é esta passagem na trajetória do garoto – e de toda a sua família – que a reportagem conta a seguir.

A descoberta

O encontro da reportagem com Fábio e sua mãe Matildes se deu no final de maio de 2010, no hospital paulistano Beneficência Portuguesa, centro de São Paulo, quando ele experimentava pela segunda vez o dissabor de estar ligado a uma máquina substituta das funções do seu rim direito – um processo chamado de hemodiálise.

O primeiro encontro entre Fábio e a reportagem, em maio de 2010
Tricia Vieira/Fotoarena
O primeiro encontro entre Fábio e a reportagem, em maio de 2010
Fazia apenas uma semana que a equipe de saúde do hospital havia contado à família que só um transplante salvaria a vida do menino. Já naquele dia, a mãe desconfiou de que não seriam suficientes as “algumas mudas de roupas” colocadas às pressas na bagagem pouco antes de deixar a capital federal para encontrar melhor tratamento para Fábio em São Paulo.

A cautela não era só com os tempos de internação no hospital que se avistavam. Fábio, filho mais velho, na época tinha 15 anos. O caçula dos Tepedino Martins estava com 11 anos e tinha ficado em Brasília, longe de Matildes pela primeira vez. Preocupação com filho – doente ou não – não tira férias e nem ganha atestado médico em caso de doença do outro.

A necessidade de buscar São Paulo para um tratamento mais eficaz não era um capricho para a família. Viajar para fazer hemodiálise é rotina dos pacientes renais que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) – 90% segundo estimativas da Sociedade Brasileira de Nefrologia – e moram em regiões em que a disponibilidade de aparelhos públicos não dá conta da demanda.

Segundo levantamento divulgado no mês passado, feito pelo Ibope em parceria com o Ministério da Saúde, a oferta deste tipo de aparelho na rede privada é oito vezes superior à concentrada na rede pública. Esta matemática fez Matildes e Fábio fazerem as malas. Só não se deram conta de que a jornada duraria tanto tempo.

Viagens e diagnósticos

Por coincidência, foi sempre em viagens que as notícias não muito boas sobre a saúde de Fábio surgiram. Quando tinha 5 anos, Fábio teve uma pneumonia, mas mesmo essa doença grave e passageira não deu nenhum outro indício de que sua saúde era frágil. Pelo contrário. Anos mais tarde, aos 11 anos, quando retornou de uma das idas para a chácara da família, foi diagnosticado com uma doença autoimune, a nefropatia, que poderia afetar os rins e, talvez, quando chegasse aos 45 anos, a hemodiálise seria uma necessidade.

Bem antes disso, quando completou o 15º aniversário, Fábio voltou da Disney (presente emblemático por causa das 15 velhinhas assopradas) com fraqueza e febre intensas. O ano era 2009, época em que a Influenza A (conhecida como gripe suína) começou a fazer vítimas e tanto a família quanto os médicos acreditaram tratar-se do novo vírus. Engano. No final daquele ano os exames confirmaram que o rim do garoto já estava muito doente e só funcionaria com auxílio de um aparelho clínico. Em março, não restou outra alternativa a não ser deixar Brasília e ir para São Paulo para buscar ajuda médica.

"Não chora não"

Primeiro foi a notícia de que Fábio teria de fazer hemodiálise, ao menos, três vezes por semana. Depois, a confirmação de que um transplante era necessário para a sobrevivência. Matildes não conseguia digerir bem todas aquelas notícias que indicavam, para dizer o mínimo, mais tempo longe de casa e da rotina. Toda vez que ligava para contar ao marido e ao caçula sobre os prognósticos médicos, chorava de maneira quase descontrolada. Em uma dessas ligações, surgiu o primeiro pedido de Fábio.

“Desliguei o telefone com uma de minhas irmãs, já estava discando os números para contar a mesma má notícia para outra cunhada, quando o Fabinho me interrompeu”, lembra Matildes. “Ele, muito sereno, pediu: Mamãe, não chora assim não. Vamos viver um dia de cada vez, mas sem tanto choro e sofrimento. Isso me deixa triste”, contou.

Pronto. Matildes foi invadida por uma calma, mantida ao longo de todos os outros meses seguidos, mesmo quando as informações médicas se alternavam entre boas e más. A contagem do tempo foi revista por aquela família. O dia não tinha mais 24 horas. O relógio parecia só se movimentar depois de cada conversa com os médicos.

“Só quando conversamos com os médicos decidíamos qual seria o próximo passo”, lembra o garoto.

O tempo foi passando. Fábio fez aniversário, completou 16 anos e a Beneficência Portuguesa virou a sua casa. Foram definidos os candidatos à presidência da República, a campanha política começou com força total, o Brasil perdeu a Copa do Mundo e sempre que a reportagem encontrava com Matildes e Fábio, só o presente importava.

Espera

A informação de que Fábio precisava de um transplante de rim apontou dois caminhos possíveis. O primeiro era encontrar um doador compatível na família. Rim, fígado e medula, segundo as determinações da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), são os únicos que podem ser retirados de um doador vivo, de preferência com parentesco até a segunda geração familiar. Caso os testes não apontassem nenhuma compatibilidade segura entre os familiares (além do tipo de sangue, os exames identificam a composição de nutrientes e outros sinais de possível rejeição no receptor), Fábio iria para a fila de espera de um doador morto, alternativa que responde por mais de 80% dos transplantes de rim feitos no País.

As duas possibilidades – a doação intervivo ou por doador falecido – indicavam que seria preciso sorte. Mas Matildes e Fábio já haviam aprendido a lidar com a ansiedade e não faziam nenhum plano sem um prontuário médico.

Todos os Tepedino, rapidamente, prontificaram-se a fazer os testes de compatibilidade para a doação de rim. Depois do “vestibular” em família, foram seis finalistas: o pai, a mãe, duas tias de Fábio, uma prima e o marido dela. Os resultados demoraram quase dois meses para sair e, enquanto isso, o relógio rodava em seu próprio compasso de espera para Matildes e Fábio no hospital.

O doador

O que parecia ser decidido por exames de laboratório transformou-se em escolha pessoal. Em uma raridade médica, todos os cinco possíveis doadores – até o marido da prima, sem parentesco de sangue – receberam o aval clínico para doar o rim para Fábio. A escolha foi definida por uma reflexão do garoto.

“Pai, acho melhor o senhor ser o doador. Assim, a mamãe fica bem e vai conseguir cuidar de nós dois.”

Otávio passou a cuidar mais da sua própria saúde para doar o rim ao filho. Saía de Brasília e viajava para São Paulo para fazer exames e, em pelo menos duas ocasiões, Fábio teve recaídas em sua ansiedade.

O aspecto emocional, cogitam os médicos, foi um dos responsáveis para alterações em exames que inviabilizaram a realização do transplante por duas vezes. Por este motivo, no último dia 18 de outubro, apesar de todos os indícios de que era véspera de cirurgia, ninguém daquela família falava com certeza.

Fábio tinha as mãos suadas. Otávio suava frio. Matildes não expressava medo, mas não tinha semblante tranqüilo. Os médicos vieram, fizeram exames, recomendaram descanso. A noite caiu, ninguém dormiu e o dia seguinte virou dia do transplante de Fábio.

O dia seguinte

Seis horas de operação. Matildes andava de um lado para o outro no corredor, esperando notícias. Ela só pensava no retorno de seu filho e de seu marido do centro cirúrgico e, por estratégia de preservação, o “depois disso” não fazia parte de suas preocupações. Primeiro retornou Otávio, com muitas dores, enjoado, mas maravilhado “com a mágica do transplante”. “Óbvio que não houve uma dúvida mínima sequer sobre a decisão de doar ou não doar”, falou Otávio.

“Doaria meu coração se possível, minha vida. Mas poder doar e ainda sobreviver para ver meu filho saudável é mágico.”

Fábio ainda ficou mais algumas horas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas logo voltou para o quarto. Não tinha no rosto a felicidade que todos esperavam ver.

Vazio

Matildes em vez de andar, saltitava. Otávio, mesmo com muitas dores, era só gargalhadas. Fábio, de rim novo e livre da hemodiálise, não tirava os olhos do chão. Definia sua apatia e seu nenhum entusiasmo há um vazio que o consumia por inteiro.

Foram sete meses regulando a ansiedade e sem pensar no dia seguinte. Este exercício deve ter alimentado o vazio, que ecoava a pergunta: “E agora?”. Ele precisava de um tempo para preencher todo aquele espaço. Os remédios e tratamento já tinham feito Fábio perder a fome. Foram seis quilos eliminados em cinco dias. Ele ainda não tinha vontade de comida, mas, já no dia seguinte, acordou com mais apetite.

Ceia

Depois do transplante ainda foram quase dois meses em São Paulo – todos passados na casa de sua prima Juliana (aquela que se candidatou para oferecer o rim junto com o marido), impossibilitado de voltar para casa, mas com a tarefa de descobrir como preencher o vazio pós-transplante.

Fábio teve autorização médica para comer o que quisesse, recebeu a orientação de circular na rua de máscara, para não pegar nenhuma infecção, e também foi impedido de dar beijos e abraços nos inúmeros parentes que queriam comemorar a sua vitória. “Só beijinho de longe”, dizia para quem se aproximava.

Apesar de toda precaução, na semana passada o garoto foi infectado por um vírus e, como seu sistema imunológico não estava 100%, acabou hospitalizado por mais uma semana. Teve medo de que a sua história voltasse para o início. Mas, com o auxílio de quatro antibióticos e um breve isolamento na Beneficência Portuguesa, na segunda-feira, dia 13, Fábio teve alta hospitalar para continuar vivendo a vida.

Esse imprevisto fez com que os planos de Natal ficassem suspensos momentaneamente. Fábio ainda não teve autorização para voltar para Brasília. O pai, que já regressou, ainda não tem certeza se já compra a passagem para São Paulo. Mas nem por isso os dois liberaram a mãe de preparar o tão esperado chester natalino. “Que vai ter ceia, não importa o lugar, isso vai”, diz Matildes.

Mesmo que ainda não saiba quando vai voltar a deitar em seu saudoso travesseiro, Fábio já sabe a receita para eliminar o vazio interno: “Um dia depois do outro”. E esta história não termina apenas com o ponto final. Porque, segundo ensinaram Matildes, Otávio e Fábio, sempre amanhece e um novo passo deve ser dado.

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