Tamanho do texto

Quase a metade desse total precisa ter a banda retirada, aponta estudo

Quilos recuperados: complicações após a cirurgia podem resultar na retirada da banda gástrica
Getty Images
Quilos recuperados: complicações após a cirurgia podem resultar na retirada da banda gástrica
Embora a maioria dos obesos mórbidos que se submete à colocação da banda gástrica geralmente se diga satisfeito com o resultado, mesmo anos depois, um novo estudo belga mostra que em torno de 40% deles são acometidos por complicações graves, enquanto que aproximadamente a metade precisa de ter a banda removida.

As descobertas sucedem um estudo recentemente realizado pela Universidade da Califórnia que sugere que a cirurgia de bypass gástrico é superior a outros métodos cirúrgicos (como da banda gástrica) para promover a perda de peso e/ou eliminação do diabetes tipo 2.

As observações atuais derivam de uma iniciativa do pesquisador Jacques Himpens, da Escola Européia de Cirurgia Laparoscópica do Hospital Universitário de Saint Pierre, de Bruxelas, cuja equipe avaliou o estado de 82 pessoas que haviam passaram pelo procedimento de banda gástrica ajustável por laparoscopia mais de uma década anterior ao estudo. Himpens e sua equipe revelam as descobertas este mês na edição online e em julho na versão impressa do periódico Archives of Surgery.

O procedimento, também conhecido como lap-band, cria um pequeno balão ao colocar um anel constritor ao redor da porção superior do estômago. A redução do tamanho do estômago faz com que os pacientes se sintam satisfeitos mais rápido.

Leia também:
Conheça os quatro tipos de cirurgias bariátricas aprovadas pelo Conselho Federal de Medicina

Os riscos e benefícios das cirurgias de estômago

Desde que foi introduzido em 2001, o método se tornou uma alternativa popular à cirurgia de bypass gástrico em Y de Roux, através da qual o estômago é literalmente grampeado para redirecionar os alimentos para parte do intestino delgado, instigando a redução da absorção dos alimentos e a rápida sensação de saciedade.

Entretanto, o lap-band foi alvo de críticas no passado por envolver um risco relativamente alto de complicações, dentre elas infecções e danos ao baço e ao esôfago, além de prognósticos insatisfatórios em termos de qualidade de vida em longo prazo. Há também relatos de que pessoas que passaram por este tipo de cirurgia bariátrica estão mais propensas a ganhar grande parte do peso perdido ao longo da vida.

Para avaliar os níveis de satisfação e o histórico de complicações em longo prazo da banda gástrica, em 2009 a equipe liderada por Himpens examinou um grupo de pacientes que havia passado pelo procedimento entre os anos de 1994 e 1997. Doze anos depois, os resultados mostraram que 60% dos pacientes da banda gástrica se disseram satisfeitos com o procedimento. Em média, o excesso de peso tinha sido mantido em níveis aproximados de 43% e a qualidade de vida aparentemente era semelhante à dos participantes que não haviam passado pela cirurgia.

Leia: O engenheiro que operou e hoje é corredor de maratonas

Entretanto, um total de 39% dos pacientes apresentou complicações graves, como expansão anormal do balão (9), erosão da banda (23) e infecção da banda (1). Quase a metade deles precisou ter a banda removida, enquanto que 60% necessitaram de cirurgias subsequentes. A conclusão dos pesquisadores foi de que, aparentemente, “os resultados em longo prazo do procedimento são relativamente insatisfatórios”.

Um em cada seis pacientes acabou optando por passar pelo procedimento de bypass gástrico, enquanto que todos eles apresentaram bons resultados após a cirurgia subsequente. Na opinião de Himpens, os pacientes devem limitar suas expectativas com respeito à banda gástrica.

“Todas as cirurgias para perda de peso apresentam um alto índice de fracassos”, disse Himpens. Porém, ele complementa que, em longo prazo, os altos índices de fracasso da gastroplastia com banda não são piores do que de outros procedimentos.

“Por isso acredito que os pacientes irão continuar a recorrer ao procedimento”, disse ele.

Entretanto, o especialista adverte àqueles que irão passar por este tipo de cirurgia que eles devem estar conscientes de que precisam se comprometer a realizar um acompanhamento rigoroso em longo prazo.
Em uma crítica publicada juntamente com o trabalho de Himpens, Clifford W. Deveney, professor de cirurgia da Universidade de Ciências e Saúde de Portland, concluiu que o estudo atual “não apresenta uma posição favorável ao uso da banda gástrica”.

“O histórico da banda gástrica é bastante irregular. Alguns grupos tiveram ótimos resultados, com 60 ou 70% de perda de peso. Outros, porém, apresentaram perdas reduzidas ou complicações, ou ainda ambas. Por isso, acredito que o paciente deve ser conscientizado destes fatos e também de que a perda de peso será menor com a banda do que com o bypass gástrico. Além disso, o início da perda de peso será mais lento, pois, com o bypass gástrico, grande parte da perda de peso ocorre no primeiro ano, já no caso da banda isso pode demorar de cinco a seis anos”.

Ele diz que também é mais fácil “trapacear” com a banda. “Se o paciente não tiver disciplina ao seguir uma dieta saudável, ele pode tornar a banda ineficiente. Isso não é um problema no caso do bypass gástrico. Com tudo isso não estou dizendo que não devemos utilizar a banda gástrica. Ela simplesmente não é tão boa quanto o bypass”, disse ele.

As descobertas não surpreenderam Mitchell S. Roslin, chefe de cirurgia bariátrica do Northern Westchester Hospital de Mount Kisco, Nova York.

“Sempre digo a meus pacientes que o procedimento da banda gástrica é como fazer uma dieta com um cinto de segurança. Além disso, eles podem estar dentro dos 5% de pacientes que têm a banda extraída. O que acaba sendo o mesmo percentual de remoções observado neste estudo”.

Roslin ressaltou que o problema com a banda gástrica é que uma obstrução fixada embaixo do esôfago não é uma ocorrência natural. “Essas bandas também dificultam a alimentação, mas não diminuem a fome dos pacientes. Por isso existe uma grande variação nos efeitos do tratamento. Vemos pacientes com excelentes resultados e outros não, é uma faca de dois gumes. Ou seja, as bandas são extremamente comercializáveis, mas, para muitos pacientes, existem opções melhores”.

Em carta enviada à reportagem, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica esclareceu que apenas 5% das cirurgias realizadas no Brasil são do tipo "banda gástrica". A entidade reforçou que o método tem perfil de segurança adequado, aprovado pelos órgãos regulatórios e apresenta resultados satisfatórios.

Sobre a pesquisa que encontrou o índice de 40% de complicações neste tipo de operação, a sociedade afirmou que  "o estudo em questão trabalha com pacientes operados há mais de 10 anos. Na ocasião, a técnica existente era diferente, bem como as bandas utilizadas". "Existem outros estudos que mostram que, a longo prazo, a perda do excesso de peso em pacientes bem selecionados para a banda gástrica e com acompanhamento clínico adequado é maior, ou seja, cerca de 55% do excesso de peso", assina o comunicado o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, Ricardo Cohen.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.