Tamanho do texto

Massataka Ota teve o filho de 8 anos assassinado e sentiu a dor da perda com todo o corpo

Massataka Ota, que teve o filho Ives Ota assassinado aos 8 anos, conta como a violência afetou seu corpo
Edu César/ FotoArena
Massataka Ota, que teve o filho Ives Ota assassinado aos 8 anos, conta como a violência afetou seu corpo
Uma mancha escura na perna direita apareceu logo após a notícia do delegado. Era o primeiro sinal de que o todo corpo de Massataka Ota iria gritar por causa do assassinato de seu filho caçula Ives, na época com apenas 8 anos.

Passaram quase 14 anos desde que o anúncio deu a certeza àquela família da zona leste paulistana de que o garoto jamais estrearia o quarto feito sob medida para ele no novo apartamento.

Dois tiros no rosto, após um sequestro acompanhado por todo Brasil, tiraram a vida do menino. Por muito pouco, as mesmas balas, por tabela, também não enterraram o pai. Em retrospectiva, seu Massa descreve como a raiva dos assassinos afetou seu coração e cérebro. Os sintomas foram muitos. Nenhum deles acolhidos ou tratados por médicos e psicólogos.

Leia mais : O tratamento para os sobreviventes da violência

“Bebia meia garrafa de uísque por dia tentando afogar o ódio”, diz ele – até aquela fatídica noite de setembro de 1997 nunca havia tomado um porre. “A morte do Ives me deixou muita revolta. Era uma sede de vingança que não cessava. Lembro de várias vezes estar dirigindo, de noite, e ver a imagem do meu filho me pedindo socorro. Parava o carro, sem me importar com o trânsito, e gritava, esmurrava o volante. Podia machucar ou matar alguém. Nada, nada, nada importava.”

A compulsão e o uso abusivo de álcool são um dos sintomas da violência, quando ela é vista com o olhar da saúde. Por ter múltiplos sinais, médicos da rede pública e privada de saúde defendem a criação de uma rede de atendimento para acolher quem amarga toda as outras sequelas dos atos violentos.

A história

Ives sumiu de casa. Não tardou para a polícia desconfiar de sequestro. Quando descobriram o paradeiro do menino, ele já havia morrido há dias. Um dos sequestradores era policial militar e vigia do comércio de Seu Massa. Foi reconhecido por Ives e, por isso, o garoto foi morto. Ainda assim, contatos foram feitos para os bandidos conseguirem dinheiro com o resgate.

“Tudo doía e eu me transformei. Só queria provocar dor em quem tinha levado o meu Ives.”

Seu Massa diz que não se preocupava com a própria saúde. Não sabe se o autocuidado não tinha espaço por causa da ânsia por justiça ou simplesmente por desconfiar de que não existia remédio para tamanho vazio. Nada traria o Ives de volta, pensava ele, mas ao mesmo tempo era o sobrevivente que começava a desaparecer.

“Eu não me reconhecia. Nunca tinha feito mal a uma mosca e, de repente, me sentia capaz de matar quem tinha matado meu filho.”

O uso abusivo de álcool, as veias arrebentadas na perna e a falta de serenidade “moraram” no escuro e na falta de esperança que acompanharam Massa por, pelo menos, seis anos.

“Um dia um programa de televisão me convidou para participar de um quadro sobre o perdão. A proposta era encontrar os assassinos do Ives, olhos nos olhos, e após uma conversa dizer se eu os perdoava ou não. Aceitei a proposta. Mas até o último momento, enquanto já estava no presídio, pensei em como poderia aproveitar aquela situação para matar os assassinos.”

Massataka Ota foi ao encontro mas não virou homicida. Diz que entrou em sintonia com Ives, em uma oração que durou mais de uma hora e meia. “Meu filho não ficaria feliz se fizesse aquilo. Não seria eu. Em vez de matar ou agredir, dá minha boca saiu o perdão, um perdão sincero” (só um dos três sequestradores aceitou participar do programa).

“O perdão para mim foi remédio. O ódio saiu de dentro de mim e eu virei um lutador. A minha causa são os familiares que sobrevivem. Perdoei, mas quero uma Justiça mais severa para quem comete crimes hediondos.”

Faça o teste : Você sabe perdoar?

Leia também : Perdoar um erro é diferente de esquecê-lo

A mãe de Ives virou deputada e seu Massa coordena o Instituto Ives Ota, que acolhe vítimas da violência. “Oferecemos o apoio psicológico que minha família nunca teve. Ao mesmo tempo, o meu caso teve apoio de toda a mídia. Muitas das histórias que chegam a nós são anônimas, enfrentadas em silêncio.”

Seu Massa não fez e não faz terapia. Acha que a recuperação poderia ser menos traumática caso tivesse feito. Mas via Instituto, perdão e união familiar, a raiva doente que sentia deu lugar a uma saudade que não dói mais. De forma surpreendente, ele até sorri quando imagina Ives hoje adulto, “chegando das festinhas, com uma namorada, casado ou se formando na faculdade”. Ives teria 22 anos. 

Mais uma história de sobreviventes da violência

Caso Mércia: "Minha família toda adoeceu"

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.