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Hábitos, associados, aumentam em 40 vezes o risco da doença. Tabagismo, porém, é o principal gatilho

Contra a genética, não há argumentos. Sabe-se, até agora, que dois irmãos do ex-presidente Lula também foram vítimas de câncer. O fator hereditário é relevante para a doença, mas os verdadeiros gatilhos são comportamentais, apontam especialistas.

“O ex-presidente tem casos na família que não devem ser desprezados, mas a doença é muito mais ambiental do que hereditária”, defende Ricardo Caponero, oncologista da Clínica de Oncologia Médica, em São Paulo.

A combinação entre cigarro e álcool é a mais nociva para a saúde das vias respiratórias e do sistema digestivo. Embora o risco seja diretamente proporcional ao tempo e à quantidade de tabaco consumido ao longo da vida, o fumo é nocivo desde a primeira tragada. E mesmo quem fuma pouco não está isento do risco, endossa Carlos Henrique Teixeira, oncologista clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).

“O cigarro, sozinho, aumenta em 10 vezes o risco de câncer na laringe. Quando associado ao consumo de álcool é 40 vezes mais nocivo.”

O caminho da fumaça

A nicotina causa a dependência química, mas as demais substâncias tóxicas presentes no tabaco agridem e impregnam a laringe, explica Caponero.

“O cigarro é composto por inúmeras substâncias cancerígenas. Elas são eliminadas pelo organismo, mas por onde passam, intoxicam. Além das vias respiratórias, contaminam a bexiga, que faz parte do sistema excretor dessas toxinas.”

Na política, o cigarro não foi nocivo apenas à saúde do ex-presidente Lula. O câncer na bexiga de Mario Covas também estava intimamente relacionado ao tabagismo.

Os efeitos de tal vício só desaparecem após dez anos longe do fumo. Em entrevista à GloboNews, o médico particular do ex-presidente, Roberto Kalil, contou que Lula parou de fumar há um ano.

Leia: Seis em 10 fumantes não abandonam cigarro mesmo após o câncer

“É imprescindível deixar de fumar. Mesmo quando o tratamento dá certo e o tumor é eliminado, o câncer pode voltar após alguns anos. Quem não parou de fumar depois do primeiro diagnóstico tem um risco acumulativo de 2% ao ano”, assevera o oncologista do Icesp.

Outros fatores

O mecanismo de ação do álcool no aparecimento do tumor é semelhante ao do tabaco. Segundo Fernando Maluf, oncologista especialista em câncer de laringe e diretor do Centro Avançado de Câncer do Hospital São José, em São Paulo, a bebida excita e altera mucosa da boca, provocando, ao longo do tempo, uma irritação crônica de todo aparelho digestivo.

“Essa irritação contínua modifica as células, o que, em nível crônico, vai resultar no câncer.”

Além da combinação bombástica, a falta de higiene bucal e a contaminação pelo papilomavírus humano (HPV) também são fatores de risco para o desenvolvimento da doença.

“Aftas e cáries provocam múltiplas agressões na boca e geram processos inflamatórios que podem estimular o aparecimento do câncer.”

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Fumaça alheia

Luiz Paulo Kowalski, médico do Hospital Sirio Libanês e membro da equipe que acompanha o tratamento do ex-presidente Lula, disse durante a coletiva de imprensa desta segunda-feira (31), que a incidência mundial de câncer na laringe é entre 6 e 7 pessoas para cada 100 mil homens. Em São Paulo, poluição e tabagismo fazem o número triplicar – entre 15 e 16 para cada 100 mil homens.

O dado, na avaliação dos especialistas entrevistados pelo iG Saúde deve ser analisado com cautela. “A poluição não é homogênea pra ser um fator de risco isolado. Ninguém nunca mediu o quanto de poluição pode ser gatilho para o câncer. Essas estatísticas mostram, na verdade, que o número de tabagistas nos grandes centros é mais elevado”, acredita Caponero.

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