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Atualmente, 710 pessoas de vários locais do mundo recebem tratamento gratuito contra o HIV no País

Maurício deixou o Japão para tratar aids no Brasil. Atualmente, 710 estrangeiros estão em tratamento em hospitais nacionais
Amana Salles / Fotoarena
Maurício deixou o Japão para tratar aids no Brasil. Atualmente, 710 estrangeiros estão em tratamento em hospitais nacionais
O terremoto e o tsunami que devastaram as terras japonesas, em março deste ano, não convenceram Maurício, 41 anos, a deixar o Japão.

Apesar da destruição, a vida do técnico em montagem permaneceu intacta, repleta de ânimo para trabalhar pela reconstrução do país. A ameaça só veio dois meses depois, trazida pela palavra “positivo” em um teste de aids .

Em apenas três dias como portador do vírus HIV , Maurício fez as malas, deixou para trás o emprego fixo, o visto permanente e a ótima colocação em uma fábrica de automóveis para buscar tratamento no Brasil, país que já não era sua casa há mais de duas décadas.

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“Nunca tinha ficado doente. Do nada, comecei a emagrecer e apareceram umas feridinhas na boca”, conta. “Fui ao hospital e a notícia de que tinha a doença, após um exame trivial de sangue, foi dada pelo médico de forma robótica.”

“Você tem aids”, disse o profissional de jaleco, pausadamente, quase sem mexer os lábios. “E ficou me olhando em silêncio depois.”

Maurício ficou perdido em um choro que durou duas noites. Mas, de certa forma, soube para onde ir. Elegeu o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, destino escolhido por, ao menos, 710 estrangeiros que atualmente recebem tratamento e acolhimento médico de graça contra o HIV, mostram dados do Programa Nacional de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde.

Vitrine

Ronaldo Hallal, coordenador do Departamento de Qualidade de Vida do Programa Nacional de Aids, pontua que o fato do atendimento aos soropositivos ser integral, gratuito e ainda fornecido por equipes multidisciplinares (médicos, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e enfermeiros) faz da área uma vitrine para o planeta.

Em países desenvolvidos como França e Estados Unidos, além de pagar pelo atendimento, o coquetel de remédios que permite uma vida praticamente normal ao portador do vírus é pago, em custos que superaram US$ 2 mil mensais.

“A resposta que o Brasil deu ao HIV, desde o início da epidemia nos anos 80, tornou-se emblemática no mundo”, avalia Hallal. “Não há uma interferência econômica por causa dos estrangeiros atendidos no País (eles representam 0,03% dos 200 mil em tratamento no Brasil), e o sistema universal não pode ter barreiras burocráticas. Não negamos acolhimento em hipótese nenhuma.”

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Babel

O mosaico de nacionalidades atendidas por dois centros gratuitos de referência em aids de São Paulo serve de termômetro do alcance mundial da doença, que ainda mata 12 mil pessoas por ano só no Brasil. Também mostra como o País se mantém na rota dos “imigrantes do HIV”.

No Instituto de Infectologia Emílio Ribas – onde Maurício está internado – foram recebidos 171 estrangeiros nos últimos 5 anos, de 33 países diferentes. Os latino-americanos (Bolívia e Colômbia) são maioria. Itália, Portugal, França e Espanha contribuíram com 32% dos atendimentos, seguidos pelos africanos (23,2%).

A mesma miscigenação prevalece no Centro de Referência e Treinamento em DST e Aids, também em São Paulo. No total, 514 estrangeiros foram acolhidos nos últimos dez anos. Em 2010, passaram por lá argentinos, chilenos, colombianos, cubanos, norte-americanos, franceses, peruanos, portugueses, suíços e uruguaios.

Nas duas unidades, as assistentes sociais enrolam a língua para tentar dar conta da torre de babel que frequenta os leitos. “Seja porque o paciente era um turista de passagem e teve o diagnóstico de aids em São Paulo, seja porque ele veio aqui especialmente buscar tratamento, a função da saúde não é investigar uma possível clandestinidade”, afirma Tâmara Newman Lobato Souza, diretora do ambulatório do Emílio Ribas.

“Oferecemos as ferramentas para que ele se recupere e, em alguns casos, até ajudamos para que continuem o tratamento em seus países de origem.”

Do mundo para o SUS de SP

No Emílio Ribas, pessoas de vários locais do planeta tratam a aids

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Secretaria de Estado da Saúde de SP

Bandeiras

O infectologista do Hospital Albert Einstein Artur Timerman – uma das referências brasileiras em tratamento da aids – afirma que até mesmo os especialistas que atuam no sistema privado de saúde são procurados por pacientes internacionais.

As mãos de Maurício:
Amana Salles / Fotoarena
As mãos de Maurício: "No Brasil, eu sei que não serei tratado por robôs", diz para justificar a saída do Japão
“Atendo em média 20 estrangeiros, que chegam aqui já com o diagnóstico firmado e em busca de tratamento de excelência”, explica.

“O impacto econômico trazido por eles é muito pequeno para nos privarmos dessa postura humanista. Em geral, são pessoas que não tiveram acolhimento em suas nações”, acrescenta.

Por estes motivos, analisa o psicólogo e coordenador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Veriano Tereo, saber que o Brasil atrai imigrantes soropositivos não deve suscitar o hasteamento da bandeira da recusa de atendimento.

“A postura solidária deveria ser para que os países de origem destes pacientes mudassem suas formas de tratamento. Além disso, em linhas gerais, isolar as pessoas que vêm de outros locais é deixar aberto o ciclo de transmissão (via relação sexual desprotegia principalmente ) da aids”, diz. Cuidar deles é também proteger os brasileiros de novas infecções, avaliam os especialistas.

Pão com manteiga ou sushi

Lidar com pacientes internacionais é também tratar com outras condições que vão além da aids. Um dos pacientes atendidos em um dos centros de referência de São Paulo, por exemplo, era boliviano, trabalhava mais de 16 horas por dia, vivia em um cortiço e não sabia se pedia o anonimato por causa do preconceito desencadeado pelo HIV ou por medo de que seu patrão descobrisse o problema de saúde e o deixasse ainda mais desassistido. “É um sofrimento duplo”, define Veriano Tereo, da Abia.

Maurício sabe de todos estes entraves que ainda vai enfrentar por causa de sua doença recém-descoberta, preocupação que começa a ganhar espaço agora que as sequelas físicas começam a ser sanadas. Após um mês internado no Ribas, ele já recuperou 2 dos 13 quilos perdidos e acha que o carinho que recebe dos profissionais de saúde (ele só é chamado pelo apelido lá dentro) tem sido fundamental em sua recuperação.

“Já voltei até sentir vontade de comer”, diz ele sem saudade do sushi e sashimi e já salivando ao pensar no brasileiro pão com manteiga.

“Amo o Japão e tudo que o país me ofereceu. Mas não volto não. Vou viver no Brasil porque, se tiver uma recaída por causa da aids, não será um robô que vai me tratar.”

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