Tamanho do texto

Quase um terço dos transplantes de medula e cordão umbilical feitos no País foram importados

Gustavo fez um transplante quando tinha 1 ano graças a uma doação de cordão umbilical vida dos EUA. Na foto, ele e a mãe Alyne
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Gustavo fez um transplante quando tinha 1 ano graças a uma doação de cordão umbilical vida dos EUA. Na foto, ele e a mãe Alyne
A cura da doença de Gustavo podia estar na família Carlech. Se algum parente fosse compatível, poderia doar a medula e salvar a vida do garoto de apenas quatro meses. Pai, mãe, avós fizeram testes. Nada. O primo, as tias, os amigos também foram testados. Nada, mais uma vez.

Meses de espera para um doador compatível aparecer e voluntários, cadastrados em todo o Brasil, também não apresentaram compatibilidade segura para a doação. Foi então que o telefone da casa simples da zona sul paulistana tocou. Do outro lado da linha, a médica de Gustavo dizia que o transplante seria realizado, uma semana antes do primeiro aniversário do menino, graças à doação de um cordão umbilical autorizada por uma família desconhecida de Nova York, nos EUA.

Tire as dúvidas sobre o transplante de medula

Leia os especiais :

Doação de rim de pai para filho

O panorama dos transplantes do Brasil

“Era tarde da noite, mas eu nem me importei. Gritava de felicidade", lembra Alyne Almeida Paca Carlech, 28 anos, mãe do paciente, hoje com 3 anos de idade e em plena recuperação de uma doença rara chamada Imunodeficiência Grave Combinada.

Gustavo Carlech e outros 291 brasileiros doentes de leucemia , linfoma e também portadores de algumas doenças genéticas já foram beneficiados por doações de medula e cordão umbilical vindas do Exterior. O número representa 28% dos 1.044 transplantes do tipo já realizados no País desde 1995, quando a cirurgia passou a ser feita aqui.

A família Carlech fez os testes mais não foi compatível para doação. O transplante foi feito e hoje o menino está em plena recuperação
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
A família Carlech fez os testes mais não foi compatível para doação. O transplante foi feito e hoje o menino está em plena recuperação
“É uma rede internacional de solidariedade que salva vidas de crianças e adultos”, afirma o diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea (CEMO), do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Luis Fernando Bouzas.

“Até o ano passado, o Brasil apenas recebia as células doadas de outros países para a realização do transplante de medula. A partir de 2010, com os avanços que conseguimos na área, passamos também a exportar o material. Até agora, já fizemos 10 doações para outras nações como Estados Unidos, África do Sul, Alemanha e Espanha. Cinco só até junho deste ano, diz Bouzas.

Sabia que as mulheres são maioria entre os doadores de medula

Contra o tempo

Os transplantes de medula são sustentados por doadores brasileiros e estrangeiros, cadastrados em um banco nacional, chamado Redome. Qualquer pessoa pode ser doadora, desde que tenha boa saúde e seja maior de 18 anos. Em alguns casos, a mesma cirurgia pode ser feita com o sangue do cordão umbilical, retirado dos bebês na hora do nascimento. Este material também pode ser doado por qualquer família e é só pedir informações na maternidade.

Quando os médicos diagnosticam algum problema que exige o transplante de medula, primeiro os parentes próximos do paciente são testados para identificar se há alguém compatível para a operação, chamada de transplante aparentado. Em caso negativo, os técnicos do Inca começam uma busca ativa no registro nacional de doadores de medula e nos bancos públicos de cordão umbilical. Simultaneamente, também são pesquisadas as compatibilidades nos arquivos internacionais, sendo geridos e organizados por cada país.

Os doadores nunca terão a identidade revelada para quem foi beneficiado pelo gesto, gratuito e altruísta.

“Mas com toda certeza do mundo, quem faz a doação é responsável por terminar com a angústia de uma mãe ou de uma família, que vê o relógio correr até que o doador compatível apareça. Comigo foi assim”, relembra Alyne. Por causa da doença genética do filho, ela ficou oito meses sem sair de casa e sem receber visitas, fora as idas ao hospital, para que o menino não fosse contaminado por vírus ou bactérias.

“No caso dele, qualquer virose poderia ser fatal.”

Tempo, de fato, é determinante para quem precisa de um transplante, informa Victor Gottardello Zecchin, oncologista pediátrico do Grupo de Apoio à Criança e ao Adolescente com Câncer (Graacc).

“Há uma fila de espera de pacientes que não encontraram doação no núcleo familiar. Eles ficam assim por meses e meses”, completa Zecchin.

Por este motivo, a integração dos bancos de doadores de todo mundo facilita que a compatibilidade seja encontrada mais rápido. “Se acharmos dois doadores não parentes, um brasileiro e outro do Exterior – com o mesmo índice de compatibilidade com o paciente – é privilegiada a primeira opção por uma questão de logística e custos”, completa o médico.

Miscigenação

A expectativa dos especialistas é de que a ampliação gradual dos doadores brasileiros culmine na diminuição de uso do material trazido de outros países, por causa da influência nos custos que as importações acarretam. Mas os médicos sabem que a contribuição dos voluntários estrangeiros sempre vai fazer a diferença para os pacientes do Brasil.

“A população do País é muito miscigenada, o que dificulta ainda mais encontrar um doador de medula compatível”, diz José Carlos Barros, médico da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e responsável pelo setor de transplante de medula da Santa Casa de São Paulo.

“Mas uma curiosidade desta mistura étnica é que ainda temos no País comunidades só de alemães ou japoneses, por exemplo. E, muitas vezes, a doação vinda destes países pode ser a única saída para alguém que espera uma medula”, afirma Bouzas, do Inca.

“Da mesma forma, os doadores brasileiros destas populações também podem ajudar nos transplantes da Alemanha, Japão e todos os outros.”

Hoje já são 2,4 milhões brasileiros cadastrados no banco nacional, um aumento de 160 vezes desde que o programa começou, há 11 anos. Porém, a distribuição ainda é desigual no território nacional, segundo levantamento feito pelo Inca. Quase metade dos cadastros está concentrada na Região Sudeste (48%), seguida Sul (25%), Nordeste (14%), Centro-Oeste (8%) e Norte (5%).

Outro problema é que algumas pessoas cadastradas podem demorar anos para serem convocadas à doação. Muitas (15%, segundo mapeamento nacional), quando a compatibilidade é atestada, não são encontradas para fazer o transplante ou se recusam a doar. Alyne nem consegue imaginar o que seria da sua vida se a família de NY estivesse nesse grupo.

“Eles me deram de volta a chance de ser feliz”, diz. E, só por causa deles, conta a mãe, Gustavo conseguiu aprender a falar mamãe, papai e dar os seus primeiros passos.

Continue lendo

Luciana da Fonseca, em 1998, foi a primeira médica a coordenar um transplante. Na foto, ela acaba de operar um paciente cardíaco
Eduardo Cesar / Fotoarena
Luciana da Fonseca, em 1998, foi a primeira médica a coordenar um transplante. Na foto, ela acaba de operar um paciente cardíaco

Pioneira em transplantes de coração
Luciana da Fonseca foi a primeira médica brasileira a realizar este tipo de cirurgia

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.