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Por trás da rigidez que afeta as mãos, a leveza das pinturas, cerâmicas e bordados

A dor dita o tempo e o traço de Cândida Villela Cruz, 59 anos. Ela que descobriu o talento para os desenhos quase que por acaso, precisou de sete anos para encontrar um método de voltar a usar as mãos nos rabiscos, que sempre deram sustento e prazer.

A história de mulheres que fazem arte apesar da artrite. Na foto, o desenho da ilustradora científica Candida Villela Cruz, artrítica há 26 anos
Fellipe Brayan Sampaio
A história de mulheres que fazem arte apesar da artrite. Na foto, o desenho da ilustradora científica Candida Villela Cruz, artrítica há 26 anos
“Aprendi a respeitar meu corpo. Trabalho até a dor nas mãos não deixar mais eu continuar. Daí paro, respiro, alongo e volto a desenhar. Feliz e realizada”, afirma Cândida que há 26 anos convive com a artrite reumatóide , doença que afeta cerca de 600 mil brasileiros, enrijece mãos e pés (especialmente) e, sem tratamento adequado, condena os portadores à dor extrema e à limitação de movimentos.

O diagnóstico deste problema de saúde ainda traz dúvidas, receios e preconceitos. Mas a doença também pode abrir possibilidades. Como uma das formas de terapia é o desenvolvimento de trabalhos manuais, após a artrite, alguns se descobrem artistas. Ou simplesmente aprendem que não precisam abandonar seus dons por causa dela.

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Foi o caso de Cândida, Amélia Kayo, 62 anos e Taieco Honda, 64 anos. A rigidez que cruzou o caminho das mãos destas senhoras, quando elas ainda eram jovens, não as impediu de hoje ter leveza para desenhar, pintar, fazer cerâmicas e bordados.

“E olha que durante muitos anos eu não consegui nem tomar banho sozinha”, lembra Amélia que arrumou meia hora para a entrevista, já que além de terminar o ponto de cruz de uma toalha, ainda tinha hidroginástica para fazer, almoço do marido para deixar pronto e buscar a neta na escola.

A doença

“Artrite reumatóide é uma das 120 doenças reumáticas que existem. Ela é caracterizada pela inflamação das articulações e os sintomas principais são dores, em especial nas juntas, que persistem por mais de seis semanas”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Reumatismo, Geraldo da Rocha Castelar Pinheiro.

Um dos mitos mais perigosos da artrite reumatóide é que ela ainda é associada à terceira idade. O fato é que a maior parte, afirma Castelar, adoece antes dos 45 anos (as mulheres também são maioria dos casos, por razões desconhecidas pela ciência). Por isso, as pessoas podem prolongar o sofrimento até chegar ao diagnóstico correto e ao tratamento eficaz.

“A demora em procurar ajuda compromete a cartilagem e ossos, o que diminui o leque de tratamentos”, completa o presidente.

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Para aumentar o diagnóstico precoce, a Sociedade Brasileira de Reumatologia diz ser preciso conscientizar os médicos de todas as especialidades para reconhecer os sintomas e fazer os encaminhamentos corretos. Outro desafio é ampliar o número de reumatologistas. “Hoje existem 2 mil reumatologistas no País. Se eles cuidarem só de artrite reumatóide, terão de dar conta de 300 pacientes cada”, diz o presidente.

“Sem contar que a doença abriga uma população diversa e miscigenada. Cada uma delas terá benefícios diferentes com os tratamentos disponíveis”, completa Geraldo da Rocha Castelar Pinheiro ao traçar que também é preciso, via ajuda individualizada, aumentar as chances dos portadores de encontrar a medicação mais adequada.

Os remédios disponíveis são caros (custos mensais que variam entre R$ 300 e chegam a R$ 6 mil), mas uma parte significativa deles distribuídos gratuitamente na rede pública, após um cadastro no programa de medicamentos de alto custo do governo federal.

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Medo da dor

Após encontrar as drogas mais adequadas, o portador de artrite reumatóide pode amenizar as dolorosas sequelas da artrite, mas por vezes é preciso ajuda para este primeiro passo.

Enfrentar a dor, e parar de ter medo dela, é um processo importante da recuperação, acredita José Oswaldo de Oliveira Júnior, diretor Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (Sbed). “Muitas vezes o trabalho que precisa ser feito é de estímulo do paciente. Ele pode desistir de fazer fisioterapia ou trabalhos manuais por projetar a dor que um dia sentiu.”

Cotovelo e dedinho do pé

Taieco Honda confirma que a dor é o principal obstáculo da artrite. Há 33 anos, quando ela só tinha 31 de idade, sentiu os dedos das mãos inchados, quadro seguido por uma dor insuportável, “constante e parecida com aquela de quando você bate o dedinho do pé no canto da cama, sabe?”.

A então datilógrafa - que dependida do tato para sobreviver - chegou a temer que a experiência dolorosa a privasse do ofício. “Mas com tratamento especializado, medicamentos e força de vontade, cumpri os 30 anos de trabalho e me aposentei”, lembra Taieco.

Engana-se que as mãos foram aposentadas também. A artrite levou à cerâmica e da argila ela hoje faz os vasos para outra paixão, as plantas. “Montei um ateliê com outros nove amigos, mas as mãos sem dor me dão mais diversão do que dinheiro.”

Também foi com cara de “fisioterapia” que Amélia Kayo, 62 anos, reencontrou o amor pelo bordado e a nova paixão pela pintura. Quando tinha 34 anos, em uma viagem com o marido, ela sentiu uma pontada no cotovelo, “aquele choque dolorido que não passa” e não conseguiu mais levantar o braço. Teve o diagnóstico de artrite reumatóide imediatamente, mas demorou mais de uma década para achar um medicamento que permitisse que ela voltasse a andar sozinha e mexer os membros superiores.

Cândida convive com a dor da artrite há anos mas aprendeu a respeitar o corpo.
Fellipe Brayan Sampaio
Cândida convive com a dor da artrite há anos mas aprendeu a respeitar o corpo. "Com isso não preciso abandonar as minhas paixões manuais, como o desenho e a culinária"
“Fiz todos os tratamentos possíveis e imagináveis para a artrite reumatóide. Quando encontrei o remédio e o médico certo, entrei para o Grupasp (Grupo de Pacientes Artríticos de São Paulo).

Lá na entidade, as mãos artríticas de Amélia foram convidadas a pintar, voltar a costurar e fazer artesanato. “Hoje até vendo algumas peças. Tenho uma vida normal e pude voltar a cozinhar também.” Seus olhos enchem de água quando vê a família com água na boca por causa da feijoada, sua especialidade.

Aviso, não castigo

Não dá para saber se os 6.356 pacientes que foram internados por artrite reumatóide entre janeiro e abril deste ano (levantamento feito pelo iG Saúde no banco virtual do Ministério da Saúde) poderão fazer arte mesmo com as mãos doloridas pela artrite.

Mas Cândida Villela Cruz, que agora pode voltar a usufruir profissionalmente dos seus desenhos como ilustradora científica de pássaros e plantas, ensina que superar a dor é criar alternativas. “Eu ainda não me livrei dos episódios doloridos, mas caso a minha mão esteja doendo, uso as pernas e todas as outras partes do corpo, nas milhares de atividades que descobri após a doença.”

O médico Geraldo Castelar alerta que dor não é castigo e, sim, um aviso do organismo que aquela atividade precisa ser suspensa, ainda que momentaneamente, ou feita de outra maneira. “Com apoio especializado, o trabalho com as mãos pode ser terapêutico para o corpo e também cabeça.”

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