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São 7 a cada duas horas. Cultura da medicalização é responsável por excessos, avaliam os médicos

Medicamentos lideram casos de intoxicação no Brasil. Em dez anos, foram 308 mil casos
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Medicamentos lideram casos de intoxicação no Brasil. Em dez anos, foram 308 mil casos
O remédio é indicado para curar doenças, mas o excesso, o uso inadequado e o erro na prescrição trazem para ele a responsabilidade por causar doenças.

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Na última década, o triplo comportamento de risco descrito acima foi repetido exaustivamente pelos brasileiros consumidores de medicamentos.

Segundo monitoramento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), isso fez com que 307.653 atendimentos por intoxicações medicamentosas fossem acumuladas no período, uma média é sete notificações a cada duas horas. Usuários intoxicados por medicamentos apresentam sinais que vão desde coceira, vômito e tontura até convulsão e morte.

O balanço é feito anualmente pelo Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox), entidade da FioCruz que reúne dados de todos os centros de toxicologia do País. O último, referente ao ano de 2009, foi publicado este mês. Como os registros on line são feitos desde 1999, foi possível ter um panorama dos últimos dez anos.Sem exceção, as medicações sempre lideraram a lista de causas de reações tóxicas notificadas, superando agrotóxicos, venenos para rato, as picadas de animais peçonhentos, produtos de limpeza e os cosméticos.

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As causas e as ressalvas

As notificações computadas pelo Sinitox são feitas pelos profissionais de saúde e podem ser repassadas de duas formas ao banco nacional: ou após o atendimento, de fato, de um paciente intoxicado que vai até o centro especializado, ou, simplesmente, quando a pessoa entra em contato por telefone com uma das unidades para pedir ajuda para um possível sinal de efeito colateral após o uso do remédio.

Por este motivo, os especialistas divergem na leitura dos quase 308 mil atendimentos de usuários de medicamentos intoxicados em dez anos.

Na avaliação do tecnólogo da Escola Nacional de Saúde Pública da FioCruz no Rio de Janeiro, Álvaro Nascimento, um estudioso das intoxicações por remédios, os casos são subnotificados, seriam “só a ponta do iceberg”.

“São registros apenas do sistema público de saúde e, para virem à tona, dependem de que o paciente se desloque até o posto após sentir sintoma suficientemente forte que justifique a saída de casa. Dependem também de que o médico que faça a consulta notifique o Sinitox.”

Já o toxicologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, Anthony Wong, interpreta que nem todas as notificações do Sinitox se tratam de uma intoxicação medicamentosa concreta.

“Pode ser só o caso de uma mãe que deu remédio errado ao filho e, mesmo sem sintoma grave na criança, ela ligou o centro de toxicologia para pedir informações”, pondera.

Feitas as ressalvas, ambos concordam que o uso de remédios no Brasil é exagerado, indevido e problemático. Para Wong, um dos maiores especialistas no assunto da América Latina, este comportamento não reflete só uma população ansiosa para buscar alívio de sintomas físicos.

“Predomina hoje na sociedade a ideia de que a solução para qualquer tipo de problema está em um comprimido.”

Cultura da medicalização

Esta cultura da “medicalização social” é descrita por Anthony Wong com alguns exemplos. A mulher que detesta a pele procura uma pílula para a beleza. O tímido busca cartelas que o deixam mais “solto” na festa. A insônia constante pode ser vencida pelo comprimido da amiga que dorme feito pedra. A dúvida sobre o desempenho sexual encurta o caminho até o "comprimido azulzinho". Em sua maioria, são posturas adotadas sem a prescrição do médico.

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Todas estas drogas terapêuticas, dizem os especialistas, estão ao alcance de qualquer um. Vendidas na drogaria que nem sempre exige receita mesmo para medicações de uso controlado, encontradas na farmacinha doméstica no banheiro de casa ou fornecidas por um vizinho que, sem formação acadêmica específica, “prescreve” o fármaco por achar já conhecer aquele sintoma.

A facilidade em conseguir medicamentos explica o perfil da maioria dos intoxicados por drogas terapêuticas no País. Os casos estão concentrados em crianças com menos de 10 anos – que podem pegar os remédios dos pais por curiosidade – e também em jovens entre 20 e 29 anos, que usam os comprimidos como muletas sociais para dar "barato" ou para domar a ansiedade e o estresse. O motivo principal dos acidentes são as tentativas de suicídio, utilização que seria mais controlada se o acesso as drogas não fosse tão fácil, acredita Wong.

Os mais recorrentes

O especialista do Rio Grande do Sul, Carlos Augusto Mello da Silva, presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia, acrescenta que em sua experiência de 35 anos na área, os benzodiazepínicos (estimulantes do sistema nervoso central) e os antidepressivos estão na origem da maior parte das intoxicações.

“O problema é que medicamentos que anos atrás foram licenciados para uma indicação médica (como para convulsão) hoje são receitados para outras doenças, tipo síndrome do pânico, distúrbio bipolar”, afirma Silva.

“A indústria farmacêutica ampliou as utilizações terapêuticas de suas drogas, não por acaso para diagnósticos da moda, o que aumenta a prescrição, o consumo e o risco de intoxicação”, diz o presidente da sociedade.

“Tudo isso sem a certeza de que estes pacientes tiveram os transtornos devidamente diagnosticados e também sem uma fiscalização de compra e venda efetiva por parte das autoridades sanitárias.”

Fatores e soluções

Ainda como pano de fundo para a liderança dos medicamentos nas causas de intoxicação, o pesquisador Álvaro Nascimento cita a publicidade que “vende, em horário nobre da televisão, remédios como se fossem qualquer outro produto”.

“Convivemos ainda com a famigerada mensagem de alerta ‘ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado’ como se primeiro o usuário tivesse que ter o problema para só então buscar ajuda. O controle e a regulação deveriam ser mais rigorosos”

Anthony Wong reforça que até os comprimidos de venda livre, como paracetamol e ácido acetilsalicílico, podem trazer danos e não estão livres de risco.

“Controle na dispensação das drogas, uso racional, venda de doses certas para a duração do tratamento (e que evitam sobras) são passos importantes para mudar o cenário dos acidentes com medicamentos”, diz.

Serviço : O Disque-Intoxicação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponibiliza um telefone para informações de atendimento e esclarecimento à população. O número do Disque-Intoxicação é 0800-722-6001, a ligação é gratuita e o usuário é atendido por uma das 36 unidades da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat), presente em 19 estados.

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