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Em alguns, medicamentos para baixar o colesterol podem ter efeitos colaterais nocivos para a memória

Estatinas: efeitos nocivos à memória em muitos pacientes
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Estatinas: efeitos nocivos à memória em muitos pacientes
Depois de sofrer um ataque cardíaco e se submeter a uma cirurgia de revascularização quádrupla em 2010, Steve Colburn, de Portland, Oregon, começou a tomar uma marca de estatina em dose máxima para baixar o colesterol. Logo começou a apresentar problemas de memória.

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"Pensar e lembrar das coisas se tornou tão trabalhoso que nem o número de três dígitos do meu ramal nem a senha do computador no trabalho me vinham à memória", disse Colburn, de 62 anos, que atua como representante de vendas e engenheiro de produtos.

"Todo dia, o dia inteiro, eu sentia que o meu cérebro tinha virado mingau."

O médico de Colburn sugeriu que ele tirasse uma "férias dos medicamentos", e quando ele parou de tomar estatinas durante seis semanas, os problemas desapareceram. Em seguida, experimentou tomar uma dose elevada de uma marca de estatina diferente, mas as dificuldades cognitivas retornaram.

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O médico, desde então, reduziu a dose em mais da metade, e embora os lapsos de memória não tenham desaparecido, Colburn aprendeu a lidar com eles.

"Eu senti que não tinha a opção de abandonar o remédio", disse Colburn. "Mas queria trabalhar com uma dose que mantivesse meus índices em uma faixa aceitável e, ao mesmo tempo, me permitisse ter clareza suficiente para pensar, de modo que eu pudesse conviver com isso."

As estatinas são as drogas mais prescritas do mundo, e não há dúvida de que para as pessoas com alto risco de problemas cardiovasculares, elas reduzem não apenas o colesterol, mas também o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC).

Porém, os médicos há anos têm ouvido relatos de pacientes que dizem que os medicamentos os deixam dispersos e incapazes de se lembrarem de coisas tanto simples quanto importantes, como onde deixaram o carro, um poema que apreciam ou uma apresentação que memorizaram recentemente.

Na semana passada, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) finalmente reconheceu algo em que muitos pacientes e médicos acreditam há muito tempo: os medicamentos à base de estatina podem ter efeitos colaterais nocivos para a cognição. A agência também alertou os usuários sobre o risco de diabetes e dores musculares.

No ano passado, quase 21 milhões de prescrições de estatinas foram feitas para pacientes nos Estados Unidos, mas ninguém sabe quantos deles experimentaram efeitos colaterais cognitivos. Beatrice Golomb, professora associada de Medicina na Universidade da Califórnia, em San Diego, já reuniu mais de três mil relatos de efeitos colaterais relacionados ao uso de estatinas. Ela disse que os médicos muitas vezes tiram as queixas por menos, desconsiderando lapsos de memória e dores musculares, em particular, por acreditarem que são sinais normais de envelhecimento.

Muitos pacientes que tomam estatinas também ingerem medicamentos para tratar outros problemas de saúde, o que tornou difícil discernir se as estatinas sempre são as culpadas. Durante seis anos, Bill Moseley, de Towson, Maryland, experimentou tomar estatinas para baixar o colesterol; ele também começou a tomar medicamentos para hipertensão e glicemia elevada. Para ele, os efeitos dos medicamentos se mostraram entorpecentes.

"Eu me sentia um zumbi na parte da tarde", disse ele. Quando estava tomando o coquetel de drogas, ele começou a cometer erros na direção do carro.

"Me sentiria aéreo e não conseguia entrar na faixa certa a tempo suficiente de fazer uma curva", disse ele. "Também acontecia de eu não enxergar alguém que deveria estar enxergando. Sentia que a minha capacidade mental estava desligada, suprimida."

Contra o conselho de seu médico, Moseley, em 2006, interrompeu todas as drogas e começou a focar em uma dieta saudável e na prática de exercícios, encontrando regularmente um personal trainer e levantando peso. Quatro meses depois, os problemas cognitivos desapareceram. Hoje, aos 69 anos, seu colesterol baixou de 225 para cerca de 125, e sua pressão arterial e índice de açúcar no sangue estão sob controle.

"Estou de volta ao normal, e quanto mais tempo me exercito, melhor eu fico", disse ele.

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É correto dizer que milhões de pacientes que tomam estatinas nunca sentem efeitos colaterais cognitivos. John Hannon, de Oceanside, Nova York, começou a tomar uma estatina há 20 anos a fim de diminuir o seu colesterol total, que era de aproximadamente 270. Agora, com 60 anos, Hannon está com colesterol total entre 135 e 150.

"Até onde eu saiba, não tive nenhum efeito colateral", disse ele. "Para mim, foi um medicamento milagroso."

Steven Nissen, da Clínica Cleveland, observou que não foram detectados efeitos colaterais cognitivos em ensaios clínicos randomizados de tratamento com estatinas. E mesmo as advertências quanto a dores musculares e diabetes precisam ser pesadas em relação ao fato de que as drogas reduzem comprovadamente o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral, segundo ele.

"Essas advertências não alteraram o modo como a maioria dos médicos e eu, com certeza, decidimos quem deve tomar uma estatina e quem não deve", disse Nissen.

Em 2008, Robert F. Hickey, de Eagle, no Colorado, começou a tomar estatinas para diminuir o colesterol, que estava acima de 300. Ele também toma uma série de outros medicamentos por conta de um transplante de rim. Em setembro passado, começou a observar que estava tendo problemas de memória e, às vezes, tinha um branco no meio de apresentações que tinha memorizado.

"Comecei a perceber que tinha dificuldade em evocar palavras por uma fração de segundo", disse Hickey, que trabalha como psicólogo clínico e professor.

"Era um vocabulário que eu uso todos os dias e tenho usado há décadas."

O médico solicitou que ele fizesse uma bateria de exames para verificar o início de uma demência precoce, mas não foram encontrados indícios da doença. Assim, ele sugeriu que Hickey cortasse a dose de estatina pela metade. O psicólogo disse que ainda não notou nenhuma melhora significativa, mas o verdadeiro teste será nesta semana, durante uma palestra que vai apresentar em Las Vegas.

"Eu vou levar uma cópia impressa comigo, apenas para garantir", contou ele.

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