Tamanho do texto

É a primeira vez em 30 anos que um novo protocolo de tratamento apresenta bons resultados

Uma pesquisa realizada por médicos ingleses pode mudar a maneira de combate ao linfoma folicular, variação mais grave e incurável da doença, um câncer do sistema linfático. Os pesquisadores descobriram que o tratamento precoce com terapia monoclonal consegue postergar o surgimento dos primeiros sintomas.

“O estudo abre portas para novas investigações. Havia tempo que nenhuma descoberta como essa era feita e, por isso, alguns dos padrões de tratamento são os mesmos há 30 anos”, afirma Carlos Chiattone, diretor de relações internacionais da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH).

Os linfomas foliculares representam 22% dos casos de linfomas não-Hodgkin, tumor que ataca os gânglios linfátivos do corpo. Estes órgãos atuam nas defesas naturais do organismo e, quando adoecem, deixam a pessoa mais vulnerável a doenças oportunistas. Os gânglios também incham e podem causar outros sintomas, como febre e sudorese noturna excessiva. Os portadores da doença têm sobrevida estimada entre 12 e 15 anos.

Quando os procedimentos médicos para tratar o linfoma folicular foram estabelecidos, o tratamento padrão era realizado com quimioterapia. E, segundo estudos da época, o método deveria ser adotado após os primeiros sintomas. “É uma situação complicada porque você diz ao paciente que ele tem câncer, diz que é incurável e depois fala que não vai fazer nada até os sintomas aparecerem”, argumenta o especialista.

A estratégia tem sido adotada com base em amplas pesquisas, sendo que todas mostraram não haver aumento na sobrevida global dos pacientes quando o tratamento era adotado anteriormente ao surgimento dos sintomas. Tal estratégia adia a quimioterapia, em média, por 2,5 anos e isso é interessante aos pacientes por poupá-los dos efeitos colaterais do tratamento.

Terapia monoclonal

Hoje, um novo tratamento está sendo usado contra o linfoma folicular, além da quimioterapia. É a imunoterapia, feita com rituximabe. A medicação é chamada de anticorpo monoclonal. Ela age de maneira seletiva em células cancerosas e gera menos efeitos colaterais, se comparada com a quimioterapia.

Pesquisadores financiados pelo Cancer Research UK, no Reino Unido, e patrocinados pela University College London selecionaram 462 pacientes em estágio assintomático de linfoma folicular para compor três grupos de estudo.

No primeiro, 186 pacientes foram submetidos ao tratamento tradicional, no qual se aguarda o surgimento dos sintomas. No segundo, 84 pacientes receberam 375 mg/m2 de rituximabe, uma vez por semana durante quatro semanas. E no terceiro, 192 pacientes receberam 375 mg/m2 de rituximabe, uma vez por semana durante quatro semanas, seguido por terapia de manutenção com rituximabe, que foi dado a cada dois meses para dois anos.

Após três anos, 51% dos pacientes em tratamento convencional precisaram ser submetidos a novo método de terapia, seja quimioterapia ou radioterapia. Já entre os pacientes que tiveram o tratamento monoclonal precoce, o resultado foi bem diferente. No segundo grupo, tratado sem manutenção da medicação, apenas 20% precisou de novas terapias e, no terceiro grupo, o índice caiu para 9%.

“É uma diferença significativa no tempo que se levou para os sintomas se manifestarem”, avalia Chiattone. Na prática, isso significa que é possível ter qualidade de vida por mais tempo, mesmo portando o tumor.

“Mas o estudo ainda precisa ser confirmado, repetido com outros pacientes e observado por mais tempo”, afirma o médico.

Atualmente, 96% dos pacientes participantes do estudo permanecem vivos e não há nenhuma diferença na sobrevivência global entre os três grupos.

O estudo já foi considerado um dos mais importantes apresentados no Congresso da Associação Norte-Americana de Hematologia (ASH), evento que aconteceu no início de dezembro, nos Estados Unidos.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.