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Norte-americano revela a dura transição entre médico e marido de paciente

Quando eu era estudante de medicina, 20 anos atrás, aprendi tudo sobre anatomia, fisiologia e farmacologia. Meus professores também me ensinaram, implicitamente, a vestir o jaleco branco de médico como um escudo contra a vulnerabilidade humana. Com o jaleco, era possível chegar bem perto da fragilidade, até tocá-la e ela não teria poderes sobre você.

Com suas horas severas e ritmo implacável, a residência médica acrescentou diversas camadas protetoras de goma-laca, mas em todos esses anos nunca tive uma aula sequer sobre como ser um paciente, que dirá ser o cônjuge de uma.

Eram 8h de uma quarta-feira ensolarada e clara de outubro quando isso aconteceu. Minha esposa, Ruth, e eu chegamos à clínica do meu colega Dr. Hiram (Chip) Cody, cirurgião especializado em câncer de mama e meu colega médico há mais de uma década no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, Nova York. Quando contei que Ruth sentira um caroço, ele nos recebeu imediatamente.

Eu prestava muita atenção a tudo, como se fosse um visitante entrando pela primeira vez no meu próprio hospital. Coisas que me cercavam todos os dias da semana de repente pareciam novas: o tipo e volume dos formulários que Ruth deveria preencher; a conduta da primeira secretária que conhecemos; se os membros da equipe se apresentavam pelo nome.

Depois, entramos no consultório. Geralmente esses caroços causam ansiedade, são avaliados e não dão em nada. Encostei-me ao canto, sem meu estetoscópio e jaleco branco de autoridade, enquanto Cody examinava Ruth. Esperei enquanto ele examinava o peito dela. Mais de 200 mil mulheres por ano nos Estados Unidos saem dessas consultas com notícias que mudarão suas vidas para sempre, mas muitas mais são tranquilizadas, ao deixar o consultório ou quando a biópsia dá resultado negativo.

Desta vez: “Ah, Ruth, acho que é câncer”.

E foi assim. Um choque. As paredes pareciam encolher e o chão, afundar, nos tragando no túnel em que Ruth e eu caímos para chegar ao mundo estranho, desumano, doloroso, opaco e incompreendido de médicos especializados em câncer e tratamento oncológico.

Meus colegas de dez anos no Sloan-Kettering, que eu encontrava na ala hospitalar, pessoas que vi casarem, com quem bebia nos feriados e participava de reuniões, estavam prestes a ser os médicos de Ruth. Os lugares onde passei ano após ano – as salas de exames na clínica, as salas de espera ao lado do centro cirúrgico, os andares do hospital onde os pacientes caminham devagar ao lado de suportes móveis para soro – se transformaram nos locais onde em breve eu iria me sentar aterrorizado. Meia hora antes, minha maior preocupação era encontrar uma vaga no estacionamento.

Cody pegou uma caderneta e fez um desenho simples dos seios da minha esposa, com mamilos e tudo, e sobrepôs um contorno do tumor que avaliou ter sentido. Em outra folha, ele desenhou uma versão ampliada do tumor em crescimento, explicando como provavelmente ele deve ter nascido nos dutos mamários. Mais alguns traços do lápis animaram o câncer, que invadiu o tecido mamário pelos dutos, formando a massa. Em seguida, ele mostrou como o câncer poderia viajar pelos canais e se espalhar pelos nódulos linfáticos.

Dez anos antes, Ruth e eu fugimos para Paris durante a folga do Dia de Ação de Graças. Ainda éramos recém-casados caminhando pela cidade sob a chuva congelante. Chegamos a um museu. Nele, no canto remoto de um cômodo pouco iluminado do que fora uma estação de trem, havia uma exposição de desenhos feitos por Degas.

Andamos no sentido horário pela escuridão, parando a cada desenho. Perdi Ruth na multidão algumas vezes, embora só estivéssemos separados por dois ou três desenhos. Alguns consistiam em poucas linhas curvas que mesmo assim evocavam personagens e histórias. O efeito dessas ilustrações simples, na escuridão, era etéreo e emotivo. Tanta expressão e tanta frugalidade.

Voltei a pensar em Degas quando encontrei os esboços a lápis de Cody, cerca de um ano após o diagnóstico de Ruth – desenhos de nossas vidas implodindo ao nosso redor na caderneta dele. As últimas noites ao longo do Sena foram tão escuras e assustadoras quanto o sol era claro naquela manhã de quarta-feira no Upper East Side de Manhattan.

Os desenhos simples e perfeitos no museu que retratavam o fardo suportado por uma mulher tomando banho ou uma mocinha dançando era tão universais quanto o padrão particular do câncer de mama de minha esposa era específico – sua massa, os possíveis nódulos linfáticos envolvidos. Nosso passeio pelas ruas calçadas de pedra era tão inconsequente quanto a sequência acelerada de testes, biópsias e consultas com outros médicos e enfermeiras após o encontro com Cody tinha um propósito.

Cody acabou o desenho e olhou para nós. Ele tinha os braços apoiados na mesa e as mangas do jaleco arregaçadas, as luzes do teto refletiam nos óculos. Eu sentado com Ruth, preparando-me para o próximo passo.

Peter B. Bach é médico do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York. Sua esposa Ruth está em tratamento para câncer de mama.


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