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Com quase 40 anos de experiência em UTI, cardiologista conta uma história inusitada

Centenas de pacientes já foram atendidos pelo cardiologista Elias Knobel desde que a terapia intensiva foi implantada no Hospital Israelita Albert Einstein, em maio de 1972. Um caso, no entanto, foi especial. Tão marcante que inspirou o médico a escrever um livro – “Memórias Agudas e Crônicas de uma UTI” (Atheneu Editora), no qual relata 15 casos inusitados.

Um dos mais marcantes é sobre um acidente de carro envolvendo um jovem e belo casal. Ela, modelo de 23 anos, escapa ilesa. O marido, de 28, sofre múltiplas fraturas pelo corpo e corre risco de morrer.

“Eram tantas fraturas que para imobilizá-las os ortopedistas instalaram um quadro balcânico – estrutura metálica que mais parece um trapézio de circo – ao qual são acopladas várias roldanas, fios e cordas. O paciente ficava praticamente suspenso pelo equipamento”, relata no texto.

Após uma semana na UTI, Pedro tem seu quadro clínico estabilizado e a certeza de que escapou da morte. Mas um novo problema surge: a mulher procura o médico para saber quando o casal poderia voltar a ter relações sexuais. “Transamos de uma a duas vezes por dia, todos os dias. E há mais de sete dias meu marido está na UTI. Se no início minha preocupação era perdê-lo, agora (...) minha ansiedade é outra”, disse ela ao médico.

Knobel ficou surpreso, mas recomendou à moça paciência porque uma relação sexual naquelas condições poderia ser perigosa. A notícia não foi bem recebida pela mulher: “Ando nervosa, irritada, não consigo nem dormir. Tenho suores, palpitações... É como se fosse dependente de sexo, e essa droga está me fazendo falta.”

Quando o paciente deixou a UTI e foi ao quarto da unidade semi-intensiva, ainda com os suportes ortopédicos, a esposa voltou a questionar o médico sobre a possibilidade de sexo. Até o marido reclamava de insônia pela falta de contato íntimo. Mas a recomendação continuava a mesma. Era preciso esperar.

“Os dias se passaram e, numa certa madrugada, fui chamado para atender a um paciente que havia sido internado em outra ala do hospital. Era mais ou menos uma hora da manhã quando resolvi descer à UTI para ver se tudo corria bem. Passei pela unidade semi-intensiva, parei na frente do quarto do jovem e decidi entrar para verificar se a insônia ainda incomodava o paciente. Acendi a fraca luz que fica próxima à porta e deparei-me com uma cena digna do Kama Sutra. Vestida com uma camisola vaporosa, a esposa parecia uma contorcionista de circo, pendurada no quadro balcânico. Agarrada às hastes, no meio das cordas e roldanas, ela tentava se equilibrar como podia, sentada sobre o marido.”

Surpreso, o médico deixou o quarto e voltou apenas 50 minutos depois, quando encontrou a moça dormindo e o rapaz acordado, jurando que estava tudo bem. “Poxa, isso é vida. A UTI não é só histórias de morte”, reflete hoje, 30 anos após o episódio.

Apesar da rotina puxada, que inclui congressos, atendimento e funções administrativas (ele é vice-presidente do hospital), Elias Knobel lançou, em 2010, A vida por um fio e por inteiro (Atheneu Editora) e ainda encontra tempo para transformar pensamento e memórias em histórias. Algumas estão em seu site pessoal .

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