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Conheça os médicos que começaram antes da tecnologia chegar à medicina e hoje usam até cirurgia robótica

Era uma vez um tempo em que a medicina não tinha ressonância magnética, transplante ou vacina. Ainda assim eles sobreviveram. Testemunharam a chegada destas e de tantas outras transformações na prática médica. Hoje eles dividem o segredo da preservação de suas espécies em mais de cinco décadas de experiência em cuidar do outro: não são reféns da tecnologia e, ao mesmo tempo, desfrutam das vantagens de fazer uma saúde hi-tech.

Tharcillo Toledo Filho:
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Tharcillo Toledo Filho: "exame clínico e olho no olho são insubstituíveis"
O iG Saúde ouviu médicos que reúnem em seus cotidianos o passado e o futuro da profissão. “Não tem essa de antes e depois”, corrige o cirurgião geral Tharcillo Toledo Filho, 80 anos, na ativa há 55 anos, todos passados nos corredores do tradicional hospital paulistano Beneficência Portuguesa. “Medicina é sempre medicina, não importa a época”, diz.

“A diferença é que, de umas gerações para cá, os médicos ficaram muito deslumbrados com as tomografias computadorizadas e exames ultramodernos. Perderam a mão.”

Toledo Filho foi aluno de Edmundo Vasconcelos é sobrinho de A.C. Camargo e admirador de Alfonso Bovero – médicos que, de tão conhecidos, viraram nome de hospital ou de avenidas em São Paulo. Para ele, o principal equívoco dos profissionais que chegaram depois de sua turma “de uns trinta anos para cá”, foi “desvalorizar o insubstituível olho no olho e o exame clínico, aquele em que o paciente é visto dos pés à cabeça”.

Foi este bê-á-bá – ensinado a ele no final da década de 40, em seu ingresso na Universidade de São Paulo (USP) – que Toledo Filho usou em toda sua jornada. Foi a forma de atendimento empregada para tratar a célebre xará, a artista Tarsila do Amaral – em uma de suas visitas à Beneficência. Foi o método usado para salvar o bebê que acidentalmente nasceu no vaso sanitário em um daqueles plantões que pareciam não terminar. Continua sendo o tom de suas consultas em pacientes de quatro gerações que freqüentam – até hoje – o seu consultório.

“Não sou ingênuo de dizer que nada melhorou na prática médica. Uso, por exemplo, os exames tecnológicos para confirmar a suspeita de meus diagnósticos feitos em exames clínicos. A tecnologia me dá mais segurança na conduta, mais opção, mais caminhos.”

Ivan Mathias: em 46 anos de medicina, muito estudo e alguma improvisação no atedimento no
Alvinho Duarte / Fotoarena
Ivan Mathias: em 46 anos de medicina, muito estudo e alguma improvisação no atedimento no "front"
Carretel, anzol e telemedicina

Também é fã dos avanços tecnológicos em sua profissão o ortopedista do Rio de Janeiro, Ivan Mathias, 71 anos de idade e 46 no “front” da prática médica. Com a experiência de quem já passou por muito, ele também enxerga algumas desvantagens dos médicos de hoje em relação aos profissionais de sua época.

Para Mathias – que trabalha diariamente e nem pensa em parar – a formação atual é muito segmentada, e as especializações não permitem uma visão geral da saúde.

“O médico de hoje sabe fazer um transplante, mas é incapaz de fazer um parto”, provoca o especialista, que foi aluno de uma das primeiras turmas de residentes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e desde então fez da clínica Piquet de Ortopedia o seu segundo e às vezes primeiro lar.

“Muitas vezes, é essa formação mais ampla, o toque no paciente, que faz com que o seu instinto e o improviso sejam aguçados. São duas necessidades quando você trabalha com recursos limitados.”

Mathias conta que, em um de seus plantões noturnos na emergência do hospital universitário, há cerca de 20 anos, recebeu um homem baleado e à beira da morte. Não havia material cirúrgico naquele momento. “Cheguei a suturar com um carretel de linha e um anzol. O paciente sobreviveu, tudo deu certo”, lembra, com uma pontinha de orgulho.

Essa mesma formação de antigamente, que permitiu ao médico descobrir como usar de forma responsável a improvisação no cuidado, não impede, no entanto, a incorporação e o uso de todos os recursos surgidos nas últimas gerações. “A tecnologia é uma forma de atualização constante. Eu mesmo uso a telemedicina para trocar informações e conhecimento com cirurgiões do mundo todo”, afirma.

Achutti com a mulher Valderez: devoção à prática da medicina
Carlos Eduardo de Quadros / Fotoarena
Achutti com a mulher Valderez: devoção à prática da medicina
Doutor blogueiro

Para Aloyzio Achutti, 76 anos de idade, 58 deles passados na carreira médica, o fato de ser, há tanto tempo, um dos cardiologistas mais reconhecidos do Rio Grande do Sul, permitiu não apenas ser espectador da evolução da medicina, mas assistir a mudanças na sociedade em uma posição privilegiada. Quando menino, recorda Achutti, assistiu ao tio paterno, o único médico da cidade gaúcha de Santa Maria, atender à população a cavalo, fazer partos em casa e cirurgias na mesa da cozinha. Naquela época, sequer imaginava que seguiria a mesma profissão.

“Sempre quis ser engenheiro, mas minha mulher (na época namorada) sugeriu a medicina como carreira e nós dois cursamos juntos a faculdade que hoje virou nossa devoção”, relembra.

Ao aceitar a dica da amada Valderez, Achutti, depois de formado, passou a receber pacientes com pouca perspectiva de sobrevivência. Na época os transplantes cardíacos e os procedimentos cirúrgicos que agora consertam infartos e outras panes do coração ainda não existiam.

Munido de seu estetoscópio e com o auxílio dos Raios X (exame exclusivo e solitário naqueles tempos), ele começou a desbravar a cirurgia pediátrica, área de atuação que, de tão desconhecida não tinha nem nome entre as especializações. Achutti conta que nunca quis ter uma visão assim tão segmentada.

“Se ficasse na cardiologia pediátrica, teria de me especializar demais. Sempre quis ter uma visão mais ampla dos pacientes. É difícil o cardiologista ser só cardiologista. No meu consultório, aparecem problemas psiquiátricos, de comportamento, de solidão. É preciso saber lidar com o ser humano”, ensina.

Achutti fazia medicina diariamente e ajudava a elaborar as técnicas mais modernas que aos poucos ganhavam o cotidiano. Paulatinamente, o médico que nunca dispensou o contato visual, a conversa e o toque, percebeu que teria de atualizar a sua forma de comunicação para se adaptar às complexidades do ser humano moderno.

Desde 2004, o especialista mantém um blog com as principais atualizações sobre o universo do coração e, com ajuda do Facebook e do Twitter, tenta levar informações que podem fazer com que os péssimos hábitos de vida não anulem os anos extras de sobrevivência que a medicina evoluída garantiu.

Carlos Ulhôa: ele quer seguir operando até morrer
Eduardo Cesar / Fotoarena
Carlos Ulhôa: ele quer seguir operando até morrer
Poliomelite e motoboys

Já o ortopedista do Hospital das Clínicas de São Paulo, Carlos Ulhôa, não conseguiu em seus 71 anos de vida deixar de torcer o nariz para celulares, internet e e-mail. Não usa e não tem nada disso. Aprendeu que, para sobreviver à rotina do principal pronto-socorro da América Latina, não podia ser achado sempre. Se os chamados o encontrassem a qualquer hora do dia ou da noite, ele não pensaria duas vezes antes de se deslocar de onde estivesse. Talvez assim, não teria conseguido encarar os 50 anos de atividade em emergência ortopédica, somando os tempos de estudante e de formado.

Apesar da resistência ao mundo virtual, Ulhôa não cogita deixar para escanteio todo o arsenal tecnológico usado para salvar e tratar seus pacientes. “Se as equipes de resgate não tivessem evoluído tanto, se os exames não fossem tão minuciosos, se as máquinas para operar não tivessem avançado, não conseguiríamos fazer com que tantos jovens que chegam aqui desfigurados e quase sem batimentos cardíacos pudessem hoje estar em suas casas, bem e com suas famílias”, acredita.

Sua ânsia de salvar e “consertar” as pessoas nasceu aos 14 anos, quando Ulhôa perdeu a mãe para um câncer. “Ali eu quis cuidar de gente”, lembra. Permitir que os avanços tecnológicos invadissem a sua prática médica fez com que ele conseguisse resolver a dor da perda materna nas cirurgias ortopédicas que, no início da carreira, eram destinadas aos doentes de poliomelite, o nome da paralisia infantil.

A chegada da vacinação em massa fez com que estes casos deixassem de frequentar sua mesa de operação. Mas como ainda não inventaram imunização para a fúria do trânsito, a epidemia de acidentados em motocicletas faz com que ele não pense em descanso. “Não uso óculos e tenho disposição. Então, vou continuar operando até quando minha vida acabar.”

O médico e o robô

Sami Arap, 76 anos, urologista na ativa desde 1954, professor aposentado (à sua revelia, salienta) da Universidade de São Paulo e atuante no hospital paulistano Sírio Libanês, também tem como meta atuar e seguir operando até o final de seus dias. E haja disposição. Quinze dias antes de seu encontro com a reportagem – que foi encaixada em uma agenda com mais de 10 consultas naquele dia – Arap havia passado por uma cirurgia de próstata. “Trabalhar é o melhor tratamento”, diz.

Sami Arap: veterano agora está desbravando a cirurgia robótica
Amana Salles / Fotoarena
Sami Arap: veterano agora está desbravando a cirurgia robótica
Para o urologista, o sinônimo de medicina sempre foi desbravar novos terrenos. Ele foi o primeiro de cinco filhos a abandonar o lucrativo ofício de comerciante, uma tradição em sua família, originária da Turquia. Escolheu outra paixão. Foi para França, ainda estudante de medicina, aprender a fazer transplante de rim e estreou a prática no território brasileiro. Foi um dos fundadores da urologia pediátrica no Brasil e na América Latina, e descobriu, no dia a dia, as técnicas cirúrgicas capazes de vencer os cânceres do trato urinário.

Agora, para não perder o costume, Arap é protagonista de outro encontro histórico em uma prática também pioneira: o urologista foi um dos pioneiros a manusear a cirurgia robótica, em que um aparelho ultramoderno e de alta precisão permite cortes minúsculos, pouco sangramento e menos dor.

“Mudou a minha rotina”, diz, com um sorriso de criança. “Sinto-me como meu neto quando joga videogame.”

Sem remédio

Para ser um desses médicos “moderninhos à moda antiga”, além de experiência, é preciso disposição e vontade de aprender. Segundo um levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), com sete mil médicos do País, foi identificado que 51% dos profissionais com mais de 70 anos ainda permanecem trabalhando. Por que não se aposentam?

Tharsillo Toledo Filho, o cirurgião geral e mais velho do grupo entrevistado pelo iG Saúde , tem a resposta: “A medicina é uma paixão que continua sem remédio”.

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