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Patrícia é ortopedista e apaixonada por remo. Fez do esporte a melhor terapia para crianças com paralisia

No remo, a médica encontrou a melhor terapia para pacientes com paralisia cerebral e limitações ortopédicas
Edu Cesar/Fotoarena
No remo, a médica encontrou a melhor terapia para pacientes com paralisia cerebral e limitações ortopédicas
Não foi nos livros de medicina, nem no almoxarifado do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo (IOT). Patrícia Moreno Grangeiro encontrou no remo, sua paixão desde os tempos de estudante, a melhor terapêutica para seus pacientes com paralisia cerebral.

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E, de quebra, achou também a fórmula mágica de conseguir fazer caber em só 24 horas de um dia a carreira de ortopedista e de esportista (já foi campeã mundial e sul-americana).

“O remo para mim é religião, bom para o corpo e espírito, muito parecido com o que representa a medicina na minha vida. Não daria para escolher entre um e outro”, diz.

Já para as crianças e adolescentes que trata e para quem apresenta o esporte, o remo ganhou um papel crucial.

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“Abre as portas para a oportunidade de um dia ser campeão”, sonha Diogo Rezende Caldeira, 15 anos, que nasceu com paralisia cerebral, já passou por três cirurgias ortopédicas e há dois anos frequenta, junto com sua médica e amiga as aulas de remo no clube Pinheiros na Cidade Universitária da USP.

A vontade de subir no pódio e estampar medalhas no peito também é partilhada por Washington de Souza Lima, 17 anos e Karoline Ribeiro dos Santos, 15, outros dois pacientes de Patrícia que reservam o sábado para remar nas raias da universidade, num exercício, além de físico, de superação dos movimentos comprometidos pela paralisia.

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“Ouvir o entusiasmo deles (são seis pacientes que, com frequência, já participam dos treinamentos) me traz a certeza de que remar não é apenas uma reabilitação motora”, avalia Patrícia. “É ferramenta de inserção social destes meninos e também no mercado de trabalho. Se seguirem com seriedade e disciplina, todos podem ser atletas profissionais e campeões de paraolimpíadas, do parapanamericano e de tantas outras competições.”

Escolhas

O esporte nasceu quase simultaneamente à chegada de Patrícia no mundo. Desde menina, as atividades físicas fizeram parte da rotina da garota e o encontro com o vôlei nas aulas de educação física, logo na primeira série do Ensino Fundamentel, fez dos exercícios um "vício" bom para a saúde.

A opção pela medicina também sempre morou na menina. “Não me lembro de querer ser outra coisa na vida. Talvez, o fato do meu pai ter tido Parkinson aos 35 anos – e a vontade de curá-lo – tenha sido um empurrão, mas o diploma de médica foi uma meta a ser alcançada já pequenina.”

Enquanto cursava medicina na USP, aos 20 anos, surgiu a oportunidade de ir para os Estados Unidos, estudar como bolsista do curso de neurociências, já que jogaria na equipe da universidade norte-americana.

“Tranquei a matrícula em São Paulo, fiz as malas e fui. Nos treinamentos para o vôlei, fazíamos simulação de remo para aumentar a força e a concentração. Daí, foi amor à primeira remada. Adorava jogar, mas amei mais remar.”

Quando voltou ao Brasil, em 2004, retornou também à medicina e ao remo. Já era hora de escolher a especialização e a ortopedia – que tanto dá ênfase ao organismo e aos movimentos– também surgiu como uma alternativa natural.

“Fiquei fascinada pela possibilidade de operar crianças e adolescentes que tinham alguma repercussão ortopédica por conta de problemas neurológicos”, lembra. E assim, mais um caminho despontou para a médica residente que não tardou em tornar-se parte da equipe oficial do Hospital das Clínicas da USP.

Enquanto exercitava o cérebro para aperfeiçoar as técnicas cirúrgicas da ortopedia, diariamente o despertador da médica era programado para fazer barulho às 4h30. E assim ela conseguia ir até a raia da universidade paulista, colocar o barco na água, remar por 90 minutos e ainda fazer musculação por outra uma hora. Depois, era hora de vestir o jaleco, atender pacientes e operar até as 19h, uma rotina repetida até hoje.

“Na água, você precisa de disciplina, perseverança e saber trabalhar em equipe. No solo, fazendo cirurgia, estas três coisas também são imprescindíveis.”

A dedicação dupla rendeu uma boa carreira como médica e muitos prêmios na vida de atleta. E a intersecção das duas jornadas de êxito foi decretada quando Patrícia teve um clique e acreditou ser possível escalar futuros campeões do remo entre seus pacientes operados.

Patrícia e três dos seis pacientes que já começaram a treinar remo e participar de competições. 'Quero ser campeão', diz Diogo
Edu Cesar/Fotoarena
Patrícia e três dos seis pacientes que já começaram a treinar remo e participar de competições. 'Quero ser campeão', diz Diogo

Projeção

Os convites para remar, de forma séria e comprometida, Patrícia faz aos pacientes que têm mais de 15 anos e perfil competitivo. Atualmente, seis adolescentes treinam para, em um futuro próximo, ingressaram nas equipes oficiais e que participam de torneio.

“Com ajuda das assistentes sociais, faço as abordagens e apresento o esporte aos garotos e garotas. Infelizmente, nem todos conseguem participar. O acesso à USP não é dos mais fáceis, muitos precisam pegar dois, três ônibus para treinar e, além da própria dificuldade de locomoção, há os custos.”

Os que passam por este obstáculo inicial mostram para Patrícia que, de fato, as salas de cirurgia e de espera do Instituto de Ortopedia do Hospital da Clínica são mesmo terrenos férteis para encontrar campeões.

E o sorriso de satisfação do avô de Washington – um dos meninos atendidos por Patrícia e que está prestes a competir profissionalmente – comprova que a melhor terapia para o jovem não estava mesmo nos livros de medicina.

“Imagina só você”, diz o avô José. “Há quarenta anos, eu deixei o Espírito Santo para trabalhar na obra de construção da raia da USP. Eram 16 horas por dia de muito suor. E, quem sabe no futuro, será nesta mesma raia em que eu vou assistir meu neto ser campeão de remo.”

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