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No Egito, o radiologista aprendeu que o apressado pode comer mal, duas vezes!

No início da década de 80, o então radiologista Giovanni Guido Cerri mostrou, em sua tese de doutorado, que era possível diagnosticar uma forma grave da esquistossomose usando apenas um aparelho de ultrassonografia.

Na época, a confirmação da doença, causada por um parasita que se aloja no intestino e no fígado, era feita por meio de biópsia – retirada de um pequeno fragmento de tecido do fígado para análise em laboratório – um método muito agressivo se comparado com a ecografia.

O sucesso na identificação correta da doença usando apenas o aparelho de ultrassom transformou a conclusão do jovem médico em um protocolo adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em diversos países que, na época, tinham altos índices da doença em seus territórios.

Começava para o radiologista o trabalho de consultor da OMS e uma rotina de andanças que o levaram para dezenas de países. A meta era ensinar e implantar o protocolo de diagnóstico da doença. O trabalho – orientar médicos e autoridades de saúde e lidar com uma população de hábitos por vezes totalmente distintos – exigia uma boa dose de diplomacia. O que Cerri não imaginava é que a prova mais difícil estaria onde ele menos esperava: à mesa.

O grupo de médicos enviados pela OMS, do qual Cerri fazia parte, era recebido com festa onde quer que fosse. Com curiosidade e alegria, as populações locais mobilizavam o que tinham (e às vezes o que não tinham), para honrar os especialistas que haviam cruzado o mundo para trazer saúde.

No Egito, a equipe de Cerri foi parar em uma cidade às margens do rio Nilo, “onde fazia um calor terrível”, recorda o especialista. Em pouco tempo, o grupo foi brindado com banquetes, compostos por alimentos totalmente distintos do hábito alimentar mantido no ocidente.

“Eram carnes fortes, extremamente gordurosas, que ficavam ainda mais difíceis de comer sob um calor de 45 graus à sombra”, lembra.

Como os banquetes eram uma grande deferência aos doutores estrangeiros, não restou remédio senão comer. Alguns companheiros de banquete optaram por comer tudo bem rápido, na esperança de que o gosto do alimento passasse despercebido pelo paladar. Erro crasso. Os anfitriões pensaram que os médicos haviam gostado muito da comida e ofertaram outra porção.

“Comi a minha porção muito devagar, conversando com todos. Só assim consegui escapar de enfrentar a repetição.”

Giovanni Guido Cerri comanda o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), é o diretor eleito da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e assumirá em janeiro a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

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