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Entre tantas missões pelo mundo, foi um morador de rua do Rio de Janeiro que mais marcou a vida de David Oliveira de Souza

David, em uma das incontáveis missões pelo mundo
Divulgação Médico Sem Fronteiras
David, em uma das incontáveis missões pelo mundo
Em dez anos quase completos de medicina, bem distribuídos por missões dentro e fora do País, David Oliveira de Souza, ex-coordenador da organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras, multiplica histórias, contrapõe realidades e, por vezes, se confunde na função.

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Pela definição do dicionário, médico é o profissional formado em ciências médicas. No Brasil, o título de doutor é atribuído ao menor sinal do jaleco branco. A formação de Souza, porém, vai muito além de uma conotação simplista e redundante.

As experiências, vividas por meses e anos em comunidades pobres, países subdesenvolvidos - marcados pela acidez da fome, catástrofes naturais, miséria e desnutrição - realidade que resiste em algumas cidades do Brasil, mas com um coeficiente (talvez) menor - exigem despreendimento e um senso humanitário pouco comum até mesmo nas pessoas de boa vontade.

Ele já contraiu malária duas vezes, perdeu as contas de quantas infecções gástricas – as indesejáveis diarréias – já fizeram parte da rotina de um médico sem barreiras – físicas e emocionais.

A Etiópia, o Haiti e Moçambique, embora deixem muitas marcas na trajetória do especialista, ficam em um segundo plano quando é preciso resgatar e resumir dez anos em um conto, uma prosa.

Para Souza, um bom atendimento médico precisa entrar na vida do paciente, entender a realidade local, antes de se apresentar como a possibilidade de fazer alguma diferença.

A vida mais desconcertante recordada pelo profissional foi sentida em 2000, ao trabalhar no atendimento médico de moradores de rua. O serviço consistia em oferecer consulta pelas ruas, no período noturno, quando essa população procura uma marquise pra chamar de cama. “Foi uma das experiências que mais me marcou. Eles estão muito perto da gente, é um fenômeno cada vez mais frequente, estamos acostumados a vê-los, a julgar.”

O trabalho exigia uma postura diferenciada no atendimento clínico. A entrevista médica tradicional não funcionava com essas pessoas. Os moradores de rua silenciam e assumem uma dor, tosse, ferida como parte do corpo, ou sintoma natural. “Você não sabe se ele emagreceu. A roupa usada é doação, por isso está sempre mais larga. Ele não tem o hábito de se olhar no espelho, pouco se conhece.”

A bebida ajuda a mascarar a fome e funciona como um excelente analgésico para as dores. Com o tempo, tudo isso é sublimado, eles não têm mais consciência do que é saúde, relata o médico.

Em uma dessas noites, David conheceu Seu Francisco, um estivador de 60 anos, que veio do nordeste para tentar a vida no Rio de Janeiro. Depois de perder o emprego no Cais do Porto, próximo a Praça Mauá, permaneceu como morador da região.

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Seu Francisco usava muletas e tinha um quadro agudo de varicocele, uma doença que provoca edema na bolsa escrotal. Recebia os médicos com muita alegria, embora rechaçasse a vida que levava.

Naquele mesmo ano, uma rede de televisão famosa fez uma grande reportagem sobre a vida dos moradores de rua. Por intermédio do Médico Sem Fronteiras, e da equipe em que David Souza trabalhava, Seu Francisco foi um dos personagens principais do programa.

Semanas após a história do morar de rua ser veiculada em rede nacional, o escritório do MSF recebe a ligação de um jovem dizendo ser do Rio Grande do Norte. Com a voz embargada, ele afirmava que tinha reconhecido o pai desaparecido no tal programa de televisão. Ele era filho de Seu Francisco. “O rapaz contou que tinha recursos, formação profissional e poderia cuidar do pai, ajudá-lo. Ficamos emocionados e achamos que seria, certamente, uma grande notícia.”

Francisco não era alcoolista e nem dependente de qualquer outra droga, garante o médico. A vida na rua foi uma condição formatada pela circunstância do desemprego, que retroalimenta outros problemas sociais. O possível resgate, entretanto, não foi aceito. Ao ser informado que o filho fizera contato com a Organização, o já popular morador da Praça Mauá se recusou encarar a família naquela condição.

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“A gente tende a simplificar a razão pelas quais essas pessoas estão na rua. Para ele, era vergonhoso voltar à cidade de origem daquele jeito. Comunicamos aos filhos a decisão, e dissemos que não poderíamos fazer o papel de mediador, mas demos pistas de onde eles poderiam achá-lo.”

Cinco anos após o desenrolar dessa história, Souza soube, por meio de outros moradores de rua, que Francisco tinha sido encontrado morto no mesmo lugar onde ficava. Ninguém sabia por quais razões. São essas histórias surpreendentes, choques anafiláticos de realidade, que transformam a medicina em uma prática sem limites geográficos. David já viajou o mundo, mas aprendeu que a melhor consulta é aquela sem a fronteira do julgamento, do preconceito, do medo e da crítica.

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