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Atualmente, 137 programas médicos desenvolvidos no Brasil estão em implantação em outros países do mundo

Existe uma equipe formada por 44 médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde no Brasil responsável por fazer as seringas e medicamentos contra a aids terem algo em comum com o futebol, o Carnaval e a MPB.

O grupo trabalha para transformar programas de saúde genuinamente brasileiros em “vitrines” internacionais. A medicina verde e amarela “tipo exportação” ainda não é tão conhecida como a seleção canarinho, a caipirinha e o samba carioca. Mas, em alguns locais do planeta, como no Timor Leste, por exemplo, a vacinação em massa já foi tão associada ao Brasil como Roberto Carlos (e olha que lá eles adoram o rei!).

Outros que já têm fama por sua origem brasileira – e efeitos positivos em outros locais – são os bancos de leite humano, o programa de saúde da família e a prevenção ao HIV, técnicas nascidas no Sistema Único de Saúde (SUS) e convocadas para implantação em outros endereços. África e América Latina lideram os locais de destino da “exportação” medicinal, mas a lista de beneficiados também é formada por Canadá, Japão e, de forma mais discreta, até mesmo alguns lugares da Europa.

Os pedidos de outros países para a ajuda na implantação de programas brasileiros são sempre recrutados por lideranças de outras nações e fizeram com que o governo federal brasileiro criasse no Ministério da Saúde uma Assessoria de Cooperação Internacional. No primeiro semestre de 2010, foram 137 programas médicos “exportados” e monitorados. Esse órgão do Ministério – onde trabalham 44 profissionais – coordena e seleciona mão de obra de todas as áreas da saúde. A seleção é feita em toda a rede, de “postinhos” de bairros a grandes hospitais. O objetivo é levar experiências vencedoras aos mais variados locais do planeta.

Sâmia Samad: ela levou o Zé Gotinha para a África
Divulgação
Sâmia Samad: ela levou o Zé Gotinha para a África
Mascote Zé

Essa força-tarefa, que faz saúde de mochila nas costas, permite que uma gotinha contra a paralisia infantil seja festejada como um gol em final de campeonato. A assistente social e doutora em saúde pública, Sâmia Samad, é uma das que “exporta” sua experiência em saúde pública brasileira para outros países.

A jornada de Sâmia foi moldada durante os 17 anos em que passou na Amazônia. Com as tribos indígenas e a população ribeirinha, ela aprendeu na prática que poderia levar a proteção das vacinas até mesmo nas áreas de mais difícil acesso. Em sua prancheta, Sâmia desenhava os planos de ação e, depois, em barcos movimentados a remo, batia de casa em casa imunizando crianças e adultos contra problemas de saúde já erradicados em áreas urbanizadas, mas que ainda assolavam as regiões mais carentes.

Surgiu, então, a proposta de levar essa mesma experiência para o Timor Leste, país que na década passada estava ainda mais devastado pela guerra civil. Ela topou na hora, mas teve que passar por uma seleção acirrada antes de fazer as malas.

“Primeiro, fomos em apenas três pessoas para ver a realidade daquele país e saber como poderíamos agir”, lembra. “Foi perceptível: muito mais do que doses aplicadas, a proposta da vacinação era levar esperança para aquele povo. Eles, depois de muito tempo, poderiam fazer alguma coisa para reconstruir sua nação.”

Sâmia retornou ao Brasil para buscar o Zé Gotinha, mascote brasileiro que virou símbolo dos índices de 90% de população infantil vacinada contra poliomelite, meta alcançada quase todo ano no Brasil e não repetida em nenhum outro lugar do planeta. Zé Gotinha foi no encalço da doutora e desembarcou no Timor. Junto com a equipe brasileira, ele era ovacionado pela população timorense que já adorava o Brasil por causa das músicas de Roberto Carlos. “Eles amavam a gente, e nós nos encantamos por eles”, lembra Sâmia.

Vacinas e tijolos

Líderes comunitários, lideranças religiosas, vizinhos, todos foram classificados por Sâmia como fundamentais para o êxito daquela primeira campanha de vacinação no Timor Leste. De fato, o poder local do boca a boca fez com que a turma do Brasil até se esquecesse da importância de telefone, computador e televisão – inexistentes naquele momento – para convocar a população. Tanto que a meta de vacinar 100 mil crianças contra a paralisia infantil terminou com o saldo de 15 milhões de imunizados. “Um sucesso”, diz com orgulho Sâmia. As vacinas fizeram ainda o papel de “tijolos”. Ela acredita que o processo injetou na população a sensação de que eles poderiam ser atores principais da construção de um novo país.

De volta para casa, a assistente social trouxe na bagagem não apenas o embrião de outros projetos de “vacinação tipo exportação” – que ela levou anos depois para Angola, Haiti e agora tenta fazer chegar até Moçambique – como também coleções de memórias inesquecíveis.

“Uma delas é a do motorista timorense que nos acompanhava. Apelidado por nós de Geraldo Vandré (porque compunha músicas em referência ao exílio que enfrentou), ele nos ofereceu um jantar em sua casa antes da nossa partida”, conta.

“A casa não tinha teto, e as paredes eram frágeis, de barro. Ele dividiu a quase nenhuma comida que dispunha para toda a equipe e não havia interesse algum. Era só gratidão”, diz emocionada.

Novas frentes

O Timor Leste – que tanto encantou Sâmia Samad – foi um dos primeiros países beneficiados pelos acordos de cooperação internacional e tem um perfil escolhido como alvo pelas autoridades brasileiras. São prioritários nesta parceria países que falam a língua portuguesa, além de nações africanas e também locais da América Latina.

Segundo Mauro Figueiredo, coordenador da Divisão de Projetos da Assessoria Internacional do Ministério da Saúde, os programas contra a aids e as campanhas de vacinação em massa foram os que desbravaram esse projeto de cooperação entre o Brasil e outros países até por terem “excelência mundial reconhecida”.

Depois deles, o banco de leite humano – programa de coleta de leite materno de mães doadoras para crianças prematuras, HIV positivas ou órfãs – também passou a ser muito solicitado, inclusive por nações como Canadá, Espanha e França.

São, no total, 23 projetos de bancos de leite monitorados em outros países e um dos exemplos de sucesso é o da Argentina, local em que – segundo Figueiredo – auxiliou a reduzir a mortalidade infantil há cinco anos.

“Outros programas muito requisitados são os de prevenção à malária e o de implantação da atenção básica à saúde”, diz o coordenador.

“E novas frentes de atuação vêm sendo abertas. Tivemos, há poucos meses, o primeiro projeto na área de câncer e de traumatologia”, diz.

Para Mauro Figueiredo, os contrastes que moram no Brasil – existem cidades que apresentam indicadores de países de primeiro mundo e outras típicas de situações de extrema miséria –, de alguma forma ajudam o País a ser referência tanto para nações desenvolvidas quanto para locais em que falta tudo.

“Independentemente da situação do outro país que participa do acordo de cooperação é sempre uma via de mão dupla. Ajudamos outras populações e a experiência lá nos auxilia a corrigir as nossas fragilidades.”

Prova de fogo

Um destes exemplos de que, mesmo países arruinados podem servir de aprendizado, é o Haiti, conta o médico de Brasília Carlos D’Oliveira que só em 2010 foi seis vezes à capital haitiana Porto Príncipe, em missões do Ministério da Saúde brasileiro. Após o terremoto em janeiro ( leia a reportagem "Uma Canção para o Haiti" ) a proposta foi capacitar a população local como agente de saúde e tentar prevenir as doenças que se anunciavam depois da catástrofe.

Com ajuda recrutada em várias universidades brasileiras, foi traçado o objetivo de até fevereiro de 2011 formar 1.500 agentes haitianos. Mas as aulas nem bem haviam começado e uma prova de fogo já mostrou à equipe que esforço redobrado seria pouco para tamanho desafio. Uma epidemia de cólera surgiu duas semanas após o início do projeto.

“Lá, ainda tem 1,5 milhão de pessoas vivendo em acampamentos. É difícil criar métodos de trabalho em um local com tão pouca infraestrutura. Temos de pensar em ensinar uma população a lavar as mãos quando não há água limpa para hábito tão básico de evitar doenças”, afirma Carlos.

“Em passos de formigas, conseguimos algumas vitórias. Algumas crianças sobreviveram.”

O Haiti ensina para a equipe brasileira que ainda está lá algo sobre saúde pública: mais do que números, gráficos e estatísticas, uma morte evitada já é para ser comemorada.

Exemplos de programas brasileiros de cooperação

Moçambique: capacitação de técnicos em câncer
Canadá: capacitação em atenção primária à saúde
Japão: troca de informações em diversidade genética
México: atendimento e saúde ambiental
Cuba: capacitação em vigilância sanitária
Belize: capacitação em saúde materna
El Salvador: implantação de bancos de sangue
Bolívia: capacitação em dengue
Colômbia: capacitação em leishmaniose


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